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Competitividade portuguesa agravou-se

Estudo do FMI compara os anos 1990 com o ano do pânico financeiro e "descobre" que Portugal é campeão em alguns indicadores pela negativa no grupo do "Sul" da zona euro.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

A comparação entre 2008 e 1999 reflecte "uma deterioração da competitividade portuguesa", afirma ao Expresso Piyaporn Sodsriwiboon, especialista do Fundo Monetário Internacional (FMI), um dos responsáveis pelo estudo "Current account imbalances in the Southern Euro Area", agora publicado, que abrangeu o nosso país.

O custo nominal unitário do trabalho (CNUT) do conjunto da economia portuguesa agravou-se em 15,9% e o do sector industrial em 13,6% entre 1999 e 2008. O agravamento do CNUT para o conjunto da economia portuguesa foi, aliás, o maior num conjunto de sete países que o estudo designa como "zona meridional do euro". O estudo abrange Chipre, Eslovénia, Espanha, Grécia, Itália, Malta e Portugal. Apesar da situação crítica conhecida da Irlanda, este país foi incluído na região "Norte" do espaço monetário europeu.

Conjunto da economia pior do que indústria

No entanto, em termos do sector industrial, a deterioração competitiva no caso português foi inferior à média de toda a zona meridional do euro e muito mais baixa do que em Itália, Espanha e Grécia. O que reflecte, claramente, uma situação mais grave no conjunto da economia portuguesa do que no sector industrial. "O que pode significar que o crescimento da produtividade foi mais lento no conjunto da economia ou que o crescimento dos salários foi mais rápido em outros sectores do que na indústria", responde o especialista do FMI. Uma dualidade na estrutura da competitividade portuguesa que aponta para dois "países" no mesmo espaço geográfico.

Esta degradação do nível de competitividade juntamente com um nível baixo de produtividade impediu a continuação de um fluxo de investimento directo estrangeiro adequado nos últimos anos, o que conduziu Portugal a financiar-se sobretudo através de empréstimos no estrangeiro, aproveitando o ambiente de taxa de juro baixa e de disponibilidade de liquidez permitida pela criação da zona euro. Alguns desses fluxos vieram a partir do endividamento de filiais dos bancos portugueses no estrangeiro que depois canalizaram os recursos para as suas sedes, refere o estudo numa nota.

A análise do FMI encontrou evidências empíricas que sugerem que, em toda a zona meridional do euro, "o investimento baseado nesse fluxo financeiro se destinou para sectores de bens não transaccionáveis menos produtivos, em alguns casos para a construção".

Défice externo em alta e poupança interna em queda

Outro indicador usado pelo estudo aponta para a deterioração do défice externo nesta zona meridional do euro devido "a um declínio abrupto na poupança, sobretudo na poupança privada", sublinha-nos o especialista. No entanto, o problema da poupança é comum ao sector privado e ao público. Chipre apresentava em 2008 o défice externo mais elevado (-18,7% do PIB) da zona, seguindo-se a Grécia (-14,4%), a Eslovénia (-10,4%), Portugal (-9,8%) e Espanha (-8,4%), referindo, apenas, os que tiveram défices elevados.

No caso português, depois de um recorde histórico do défice externo em 1982 (-12,9% do PIB, durante o governo da AD, e que conduziria ao pacote do FMI em Agosto de 1983 negociado pelo governo do "bloco central" de Soares e Mota Pinto), a balança corrente chegou a ter um excedente no final dos anos 1980, para iniciar, depois, um processo de degradação acentuada a partir de 1999 (ano de adopção do euro), com uma ligeira recuperação em 2002 e 2003. Entre 2004 e 2008, o défice externo português agravou-se em 3,7 pontos percentuais do PIB. Entre 1998 e 2008 agravou-se em 5 pontos percentuais do PIB.

Comparando o período de 1994-1997 com o período mais recente de 2005-2008, o estudo do FMI verificou que, na zona meridional do euro, Portugal foi o país que registou a maior quebra na poupança interna (quer privada quer pública, ainda que sobretudo privada), superior à da Grécia ou de Chipre, os outros "companheiros" com quebras superiores a 7%.

Particularidade negativa

Contudo, o nosso país revela uma particularidade negativa, similar à de Malta. Além de uma quebra abissal na poupança interna ocorreu também uma quebra no investimento interno, quer na construção civil como na maquinaria - o que contrasta, por exemplo, com a Grécia e Itália (que, apesar de quebras da poupança interna, aumentaram o investimento doméstico), ou com Espanha e Eslovénia, que, não tendo quebras de poupança interna, verificaram um disparo no investimento interno (sobretudo na construção, mas, também, em equipamentos). No caso de Espanha acrescente-se que o financiamento externo serviu, também, para uma estratégia de expansão do investimento directo no estrangeiro em várias áreas do globo, reconhecido, neste estudo, como um aspecto diferenciador de Espanha

Os autores deste estudo recomendam a toda a zona meridional do euro quatro opções de políticas, algumas relacionadas com "políticas de austeridade": a) consolidação orçamental para aumentar capacidade de poupança pública; b) desvalorização "interna" permitindo uma desvalorização em termos reais através da baixa dos custos unitários de trabalho face aos parceiros comerciais; c) políticas estruturais de melhoria da produtividade, com particular enfoque no sector de bens não transaccionáveis (bens que não são susceptíveis de ser transaccionados nos mercados internacionais); d) maior supervisão dos bancos centrais exigindo maior rigor das políticas de crédito no sector privado no sentido da melhoria da sua qualidade.