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Bancos à beira de um ataque de nervos

A descida do rating dos bancos representa o maior risco no acesso às fontes de financiamento.

Isabel Vicente, João Silvestre e João Vieira Pereira (www.expresso.pt)

As maiores dificuldades começaram no início do ano mas o mau prenúncio vem de trás - desde a falência do Lehman Brothers em Setembro de 2008.

O financiamento da banca foi ficando cada vez mais difícil e o pior é que hoje o mercado interbancário está praticamente fechado. Dizem os banqueiros e responsáveis do sector financeiro, que a primeira semana de Maio foi crítica, o que motivou a intervenção inédita do Banco Central Europeu (BCE) a comprar dívida pública.



Se o mercado interbancário mantiver o comportamento das últimas semanas, as dificuldades dos bancos europeus - e dos portugueses, em particular - podem agravar-se. E só não assume graves contornos no imediato porque a liquidez à banca está a ser assegurada pelo Banco Central Europeu. No relatório de estabilidade financeira divulgado esta semana, o Banco de Portugal alerta precisamente para esta situação e destaca o facto de as instituições nacionais estarem a aproveitar os financiamentos a prazos mais longos do BCE, precisamente pela dificuldade em o conseguir no mercado.



A crise da dívida soberana está a afectar a banca, o canal de transmissão por excelência dos problemas, e vai ter consequências na vida dos portugueses.

O cerco aos bancos portugueses, sob o olhar feroz das agências de notação de risco rating, traz alguma intranquilidade caso as medidas de austeridade não convençam o mercado. A 27 de Abril, a Standard & Poor's (S&P) cortou dois níveis à República Portuguesa (de A+ para A-) e avançou com um corte na notação da banca em bloco. No início de Março, já tinha sido a Fitch a cortar a notação do Estado para AA- e a deixar em vigilância negativa os bancos.



A Moody's, a terceira agência de rating, não alterou a avaliação nacional - já o tinha feito em 2009 - mas deixou o alerta de que poderia fazê-lo em dois níveis e deixou a banca sob vigilância.



As instituições financeiras nacionais estão a ser afectadas pela situação económica portuguesa, pelo seu próprio endividamento no exterior e também pela exposição ao grupo dos países de risco da zona euro. Por exemplo, a exposição à Grécia, segundo o Banco de Pagamentos Internacionais, era no final de 2009 de €7407 milhões. Um montante que, se se considerarem os PIIGS no seu conjunto, sobe para quase ¤50 mil milhões.



Mesmo assim, as agências de ratingainda não mexeram nas notações. Philip Smith, director sénior da Fitch. garante que "estamos preocupados mas não antecipamos nenhuma acção no futuro próximo". O analista sublinha que "o que está por trás da perspectiva negativa é o stresse nos mercados de capitais" e que, pelo menos no curto prazo, os bancos nacionais podem financiar-se com facilidade através de depósitos e outras aplicações de clientes e também do BCE, lembrando que têm muitos activos para usar como colateral.

Olga Cerqueira, da Moody's, lembra que o ratingda República está sob vigilância, que "uma descida do rating soberano pode levar à descida da notação dos bancos e que, além disso, estão também a avaliar se a qualidade do crédito dos bancos se deteriorou". A agência está neste momento a fazer testes de stresse à liquidez e à rentabilidade da banca nacional que deve estar concluída nas próximas semanas. O Expresso tentou obter um comentário da S&P mas não foi possível até ao fecho desta edição.

Pressão sobre o BCP



O BCP é, neste momento, a instituição com pior avaliação. No dia 27 de Abril, foi alvo de uma revisão da sua notação de risco de A- para BBB+ por parte da S&P. Um patamar ainda muito acima do nível mínimo exigido pelo BCE (BB-) para que os títulos possam ser usados como garantia nos financiamentos.

Mas a situação não deixa de ser preocupante para toda a banca que pode ver os seus ratings cair. A ameaça está no ar com o anúncio de que depois da S&P a Moody's pode rever em baixa o risco de crédito de mais bancos.



Se os ratings dos bancos descerem abaixo de BBB- as obrigações emitidas por estes deixam de poder ser entregues como colateral junto do BCE e aqui podem começar os problemas. Fontes do sector referem que os bancos portugueses acordaram entre eles comprar emissões de obrigações que emitiam, obrigações essas que são entregues como colateral junto do BCE. No entanto os bancos contactados evitam falar ou desvalorizam estas operações dizendo que são de montantes reduzidos, ou mesmo que não existem. BES e CGD não responderam quando questionados sobre este assunto.



Quanto à eventualidade de as agências de rating puxarem para baixo a notação do BCP e dos outros bancos para níveis inferiores a BBB-, fontes do sector dizem que "para isso acontecer seria preciso que houvesse uma catástrofe". E, que, nesse cenário, "haveria mecanismos que poderiam ser desencadeados". Nomeadamente, "a alteração em dos critérios de elegibilidade" do BCE.



Banqueiros, políticos e autoridades europeias, sublinham que a situação em Portugal "é totalmente diferente da situação a que chegou a Grécia", e que "o problema de Espanha terá maiores impactos na situação portuguesa."

A qualidade da dívida do BCP é menor do que a dos outros bancos aos olhos da S&P mas continuam muito acima do exigível para usar junto do BCE.

Entre os bancos portugueses as necessidades de refinanciamento até final do ano estão praticamente asseguradas. Estas ascendem a €15 mil milhões, considerando CGD, BCP, BES, BPI e Banif.

Financiamento assegurado

Apenas o BCP e a CGD não têm o seu refinanciamento totalmente assegurado. Ao BCP falta garantir €1,9 mil milhões, dos €4,6 mil milhões a vencer até ao final do ano. No caso da CGD o valor ascende a €1,5 mil milhões, tendo o banco público emitido já €1000 milhões em dívida. No caso do BES, as necessidades ascendem a €5,1 mil milhões mas estão já garantidas, e no caso do BPI, correspondem a €2,3 milhões e também estão totalmente asseguradas. O mesmo se passa com o Banif, o Santander Totta e o Finibanco. O Montepio não respondeu às questões colocadas.



Mas, no caso de alguma coisa correr mal, a banca pode sempre recorrer às garantias do Estado para emissão de dívida de €20 mil milhões e que apenas foi utilizada em cerca de um quarto até Abril do ano passado pela CGD, BCP, BES, Banif, Finantia, e Banco Invest. Sem subscritores continua a linha de €4000 milhões disponibilizados pelo Estado para recapitalização. Ambos os cenários são afastados pela maioria dos bancos. Recorde-se que o presidente do BCE, em entrevista ao Expresso em Abril, recomendava aos bancos da zona euro que se recapitalizassem e se, não o conseguissem fazer directamente, que usassem as possibilidades oferecidas pelos Estados.



Apesar de todos os riscos, os bancos continuam a navegar com estabilidade, O que não impede os banqueiros de viverem à beira de um

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Maio de 2010