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Abril "negro": o mês em que Portugal esteve próximo da "falência"

O mês fechou com o país dentro do clube dos 10 com maior probabilidade de bancarrota. Mantém-se na 9ª posição deste "campeonato". O risco de "falência" continua acima dos 22% (mais de 3 vezes o risco em Dezembro de 2009).

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

Abril 2010 vai ficar na história financeira portuguesa do pós 25 de Abril como o mês em que não houve cravos vermelhos a sorrir no cano da dívida, mas Vénus papa-moscas. É uma planta carnívora de recorte peculiar que come todos os insectos e aracnídeos que nela poisam. Como a dionéia (Dionaea muscipula), os mercados da dívida "sugam" todos os que se colocam a jeito na armadilha.

Desde o início do mês de Abril, o risco português agravou-se 83%, mais do que o grego (que aumentou 69%). Desde que a agência de notação Moody's decretou a "morte lenta" de Portugal, a 13 de Janeiro num célebre despacho, o risco português de default (incumprimento das obrigações da dívida soberana) disparou 130%, mais do que no caso grego (118%).

Portugal foi indiscutivelmente a "estrela"internacional - pela negativa - desde o início do ano neste mercado de derivados financeiros que seguram a dívida soberana, conhecido por mercado dos credit default swaps (acrónimo cds), um palavrão financeiro que entrou no ouvido dos portugueses à hora dos telejornais pelas piores razões.

No radar dos grandes "especuladores"

O que este recorde significa é que os grandes investidores institucionais passaram a ter Portugal no radar diário, o que não acontecia em 2009 (quando o risco do país era muito baixo, inferior a 7%).

Estes personagens da alta finança aproveitam as vulnerabilidades do país (instabilidade política elevada, sintomas de ingovernabilidade, paralisação da aplicação do PEC, peso da dívida externa total no PIB que nos coloca em 8º lugar mundial, problemas graves na poupança líquida que tem sido a pior da zona euro, etc.), que passaram a estar mais expostas, para maximizar os seus ganhos financeiros especulativos apostando na probabilidade de default.

Uma comparação com a Grécia - que tem um custo dos seus cds 2,5 vezes superior ao português e que fechou o mês situando-se em 2º lugar no TOP 10 com 44% de risco - beneficia naturalmente Portugal, mas os grandes investidores olham para um bando de cinco aves na zona euro com uma hierarquia de voo. (Um benchmark dos dois países pode ser lido aqui, em inglês, incluindo a opinião de cinco analistas e economistas estrangeiros).

Aliás essa formação de risco foi identificada pelo último relatório do Fundo Monetário Internacional (Global Stability Report, Abril 2010), identificando, em termos de "indicadores de vulnerabilidade", Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália (que humoristicamente se tem designado pejorativamente por PIIGS), com diferentes posições, mas que são oportunidades de especulação financeira dada a incerteza sobre se as obrigações das suas dívidas soberanas (e de algumas das suas grandes empresas e bancos) serão cumpridas nos meses próximos e no futuro. [Também a Bélgica, dentro da zona euro, será um país a dar atenção, ainda que muito longe deste grupo. (Fora da moeda única, e por ora, fora das bocas do mundo, a Hungria, o Reino Unido e a Roménia, deverão estar no radar).]

Alguns analistas especulam que todo este frenesim nos mercados dos cds da dívida poderá ter aquecido com um "idea dinner" em Nova Iorque dos principais hedge funds em 8 de Fevereiro que decidiram um ataque em linha ao euro, a ver se o dólar chega à paridade, como, então, noticiámos.

Terça-feira "negra"

Inclusive dois dias depois das comemorações do 25 de Abril, da queda da ditadura, o país sofreria neste mercado de cds o seu pior dia de sempre, atingindo um pico de 28,43% de probabilidade de bancarrota e situando-se no 6º lugar desse TOP 10 de má fama mundial, segundo o painel de monitorização diária levado a cabo pela CMA DataVision, uma firma de Londres especializada em informação de crédito desde 2001.

Foi o dia em que a agência de notação Standard & Poor's, além de passar a dívida grega ao estatuto de "lixo", resolveu cortar o rating português para A- (um nível - notch, na linguagem técnica - que ainda não é dramático). A agência é hoje muito contestada politica e até tecnicamente (vide um despacho recente da Reuters, por exemplo) pela decisão que tomou, fruto do seu funcionamento pró-cíclico, servindo de megafone às oportunidades de especulação em quer em período de 'bolha' ou em derrocada.

Mas esta "desclassificação" seria de esperar tendo em conta a percepção que os investidores internacionais - gente que tem rosto: grandes fundos de pensões, grandes fundos de investimento privado, hedge funds, fundos soberanos, braços financeiros dos bancos e entidades financeiras "tradicionais" no sistema "sombra" desregulado, etc. - têm tido do país desde meados de Janeiro.

Frederick Lehmann, num artigo que pode ser lido na secção de 'Opinião' da edição de hoje do Expresso(Caderno Economia, pág.38), alcunha-os de bullies financeiros.

O mês de Maio entra com algumas incógnitas políticas (como irá a rua na Grécia responder à austeridade FMI e como os alemães irão votar nas regionais a 9 de Maio na Renânia-Norte Vestefália) e com duas certezas (Grécia tem um refinanciamento da dívida a terminar a 19 de Maio e Portugal a 20 e 21).

Em relação à Grécia não está ainda claro se a tendência altista de risco em Abril será invertida - Atenas continuava ontem, no fecho do mês, a manter-se em 2º lugar, com o custo dos cds a subir ao final da noite -, mesmo com o apoio político da União Europeia (decorre este fim de semana uma reunião informal do Eurogrupo, ministros das Finanças e Economia dos 16 países da zona euro) e com o anúncio eventual de um "pacote" de austeridade acordado pelo governo do PASOK (socialista) com o FMI, Banco Central Europeu e UE.

Sobre Portugal, a expectativa é mais moderada, mas fechou ontem ainda acima de 22% de risco de default, conservando o 9º lugar no TOP 10, distanciado da Irlanda (15% de probabilidade de incumprimento, e apenas um aumento de 16% desde Janeiro). A Irlanda chegou a ultrapassar o nosso país no nível de risco durante Abril. Em Dublin subsiste um problema complexo com o seu sistema bancário inundado de "lixo tóxico" (50% do PIB!) e uma dívida externa total em relação ao PIB, verdadeiramente recordista mundial (1050%! em 2009, se excluirmos o Luxemburgo ou o Mónaco desse campeonato).