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"A recessão nos EUA não me preocupa"

Reitor (Dean) do INSEAD desde 2006, J. Frank Brown considera que a supervisão financeira e dos mercados de capitais não está devidamente adequada à complexidade da economia global. A actual crise sentida no sector financeiro com a derrocada no crédito imobiliário de alto risco - o subprime -, mostra que o efeito sistémico da economia global é muito maior que o sentido na viragem do milénio com a crise das dotcom.

J.F. Palma-Ferreira

Que factores diferenciam verdadeiramente o INSEAD de Fontainebleau entre as principais escolas de MBA's e de doutoramentos?

Na realidade, o INSEAD não é a escola de MBA's de Fontainebleau. A nossa escola superior funciona em Singapura e em França. Também temos um centro de formação executiva no Abu Dhabi e um centro de investigação em Israel. Recentemente abrimos instalações em Nova Iorque. Quer dizer: somos uma instituição verdadeiramente global.

Quando alguém quer iniciar um MBA no INSEAD, os procedimentos de candidatura são os mesmos para Singapura ou para França. Cerca de 80% dos nossos alunos passam o mesmo tempo de formação nos dois campus. Nenhuma outra escola de gestão tem instalações em dois locais do mundo, distantes e interconectados. Isso permite proporcionar experiências de formação na Ásia e na Europa e ainda assegura a possibilidade de estudar nos EUA. Nenhuma outra escola faz isto. E digo-o sabendo que hoje há uma forte competição no nosso segmento de formação Superior. A concorrência nos MBA's é verdadeiramente global. Por isso, a evolução do INSEAD deu grande atenção às necessidades de formação sentidas no continente asiático. Graças aos acordos que celebramos, permitimos que um estudante que esteja a ter formação em Pequim, Xangai e Singapura, também possa passar um tempo no nosso campus de Fontainebleau. Actualmente, temos 900 alunos no MBA normal. Temos 74 em MBA's executivos, com 2 módulos em Singapura. Temos 60 candidatos para PhD, mestrados em Finanças e um programa de três anos com 120 estudantes desenvolvido conjuntamente com o Macquarie Bank da Austrália.

Quais são as áreas de formação com maior procura?

Finanças, Marketing e Estratégia. Tentam dar resposta à crescente complexidade dos mercados globalizados, hoje mais complicados que nunca, onde a gestão de risco é essencial. Uma evidência da importância deste tipo de formação está na crise de crédito que actualmente vivemos, que tem uma dimensão global. Grande parte das instituições financeiras actuam com muita criatividade para conseguirem desenvolver produtos sempre inovadores e cada vez mais globalizados, mas na maior parte dos casos continuam a ter uma enorme falta de entendimento sobre os potenciais efeitos desses produtos. O principal objectivo dessas instituições é criar produtos destinados a serem comercializados em mercados onde há muito dinheiro para investir, ignorando as consequências que podem ter.

Quer dizer que os alunos do INSEASD estão preparados para combater problemas como os da actual crise imobiliária?

Espero que sim. Mas o que tentamos ensinar-lhes é que se algo parece ser bom demais para ser verdade, tem de haver cepticismo suficiente que funcione como travão. Foi precisamente isso que faltou nesta crise do subprime.

Recuando à crise das dotcom, em 1999 e 2000, também nessa altura tudo foi parecido à actual crise. O mundo gerou volumes gigantescos de dinheiro para investir e em vez de se criar procura para esse capital, criaram-se produtos para aplicar esse capital. Em 2000, andaram à procura de procura de websites para investir. No virar do milénio e na actualidade as economias atingiram um ponto de sobreaquecimento dificilmente controlável, parecendo que seria bom demais para ser verdade. Ora, é sabido que enquanto houver pessoas a jogar, há sempre quem alimente o jogo. Estes problemas radicam no facto de que muito poucas pessoas são cépticas em relação ao limite do sobreaquecimento e, na generalidade, quase todos querem entrar no jogo.

E entre a crise dotcom e a do subprime, o mundo globalizou-se mais, amplificando os problemas...

Sim. Depois da crise dotcom, os players passaram a fazer negócios a uma escala ainda mais global O investimento, os investidores e os mercados ficaram todos mais globais. Já antes, quando os EUA se constipavam, havia gripes no resto do mundo. Agora há pneumonias generalizadas.

A supervisão do sector financeiro e das bolsas é suficientemente forte e adequada a este mundo global?

A supervisão existente é muito difusa. É baseada em países e regiões, Não tem padrões globais. Mas mesmo que houvesse, nem tenho certeza que a regulação consiga resolver estes problemas. Creio que temos de ser melhores estudantes de história, para percebermos a génese das conjunturas de sobreaquecimento e entendermos os factores que criaram problemas no passado e que podem ser replicáveis. Devemos preparar as pessoas para reconhecerem esses problemas. E depois teremos de ser suficientemente espertos para detectarmos esses ciclos.

O gestor global assegura uma liderança eficaz nestas conjunturas?

Um dos problemas da liderança actual é que os líderes estão demasiado preocupados em proteger as suas posições e não criam equipas com quadros ou consultores suficientemente bons que lhes permita detectar e identificar estes problemas. Porque os bons consultores davam-lhes opiniões diferentes. Ora, geralmente os líderes rodeiam-se de quadros com qualidade inferior. Rodeiam-se dos clássicos yes-men. Creio que foi isso que aconteceu na Merrill Lynch e no Citigroup. Quem acompanhou os seus CEO's não questionou as estratégias de gestão seguidas nestes bancos...

Mas será possível ter modelos de regulação e supervisão eficientes?

O que regula os mercados globais ainda é uma amalgama de bancos centrais, auditores, contabilistas e consultores. Mas o excesso de regulação também é um problema. Temos de chegar a um conceito correcto de supervisão. Terá de haver um equilíbrio maior que o que existe hoje. As próprias organizações internacionais, têm quadros experientes e reputados, mas não têm muita autoridade.

Que conselho daria a um gestor global?

Precisa de criar equipas diversificadas. Um grupo português só consegue acompanhar o que acontece no mercado dos EUA se tiver um americano entre os elementos da sua administração. A própria equipa executiva tem de ser global, com elementos de vários países. Hoje não pode haver executivos exclusivamente suíços ou apenas europeus. Isto é uma verdade para qualquer região do globo. Porque as administrações têm de compreender os mercados onde operam. Na Europa ainda há outro problema: estão muito focados na idade. E precisam de mudar. Têm de envolver gestores mais novos. Na Europa quase que é preciso esperar até aos 50 para ser um gestor ou líder consagrado. Na Europa não dão facilmente esse crédito aos gestores antes dos 50. Bill Gates fundou a sua companhia aos 19 anos. Hoje tem 44 e o negócio continua a correr-lhe bem. Pergunto-me onde estão os Bill Gates da Europa? Encontramos talvez um Richard Branson, mas é britânico. E não há muitos. Nunca encontrei muitos na Europa Continental, por duas razões: por causa da idade; e por causa da falta de encorajamento do risco, que na Europa é sistematicamente evitado.

Acha a Europa assim tão conservadora?

É conservadora. O sistema de educação europeu não encoraja as tentativas e penaliza o erro. Não aceita enganos. É muito punitivo e rígido. Dá orientações sobre o que se deve e não deve fazer. Devia aceitar mais criatividade e mais discussão sobre o que é certo ou errado, não do ponto de vista moral, mas de aprendizagem. E só estou a falar sobre o que noto. A propósito disto conta-se sempre um episódio passado com a história do INSEAD. O seu fundador, o general Georges Doriot, francês e professor na Harvard Business of School ofereceu-se como voluntário para o exercito francês, que lhe quis atribuir funções de mensageiro. No entanto, Doriot foi ter com o exército norte-americano, que logo se interessou por ele, pelo seu valor como estratego, e fê-lo general. Os EUA arriscam-se por alguém que é novo e enérgico. Moral da história: A Europa precisa de arriscar mais.

Mas ainda há sectores de actividade fortes e dinâmicos na Europa...

Há boa actividade na construção e infraestruturas na Europa. Mesmo assim, podia ser mais agressiva e colaboradora em relação à Índia e à China - nas ferrovias, nas estradas, pontes, aeroportos, ou nos transportes urbano. A Europa tem boa tecnologia boa, sobretudo entre negócios familiares (o caso da BMW é um dos mais citados), mas nota-se que a Ásia está a ser mais criativa e mais agressiva que a Europa. Nota-se que, por limitações da regulação e das normas anti-monopolistas, a Europa tem dificuldade de crescer. Os Governos europeus deviam rever a forma como limitam o crescimento.

As regras anti-monopolistas penalizam os grupos europeus?

Sim. O caso da Arcelor-Mittal é um bom exemplo. Não se pode crescer sem problemas. E com excesso de protecção não há crescimento. Aqui, a questão da cooperação é fundamental. A Alemanha está a evoluir bem, mas é difícil que mercados com 50 milhões de pessoas possam competir contra a Índia ou a China, que têm mais de 1000 milhões de pessoas. A Europa tem de promover a cooperação transfronteiriça e deve aproveitar o que de melhor cada região europeia pode oferecer. Em suma, o mercado europeu tem de ser mais competitivo.

A Europa tem a liderança que precisa?

Para o próximo ano, se houver um presidente na Europa, a tempo inteiro, vamos ver como funciona. Creio que se entrevistar 10 europeus e lhes perguntar se a EU funciona, provavelmente 10 em 10 dizem que nem por isso e queixam-se da burocracia. Provavelmente queixam-se que sentem que as coisas não avançam. Talvez seja precisa mais dinâmica na Comissão Europeia.

E os EUA?

A economia norte-americana tem muita criatividade. Os EUA têm um bom sistema de ensino. Têm oportunidades para ganhar dinheiro. E têm fácil acesso ao capital. Por isso, há razões para encontrar empresários com sucesso nos EUA.

Mas os EUA estão a entrar em recessão...

Isso acontece com alguma periodicidade. Por isso, não me preocupo muito. Em 2001 houve uma recessão e toda a gente culpou a Enrom. Mas, na realidade, apenas resultou do boom das dotcom. Em 2008 a recessão será por causa do mercado imobiliário. As economias foram feitas para crescer e arrefecer. Não há crescimentos de 50 anos sem quebra da prosperidade.

O petróleo a 100 dólares vai alterar a sua lógica dominante no mercado da energia?

Alguma coisa terá de acontecer. Procuram-se alternativas ao petróleo e há dúvidas sobre o seu domínio durante os próximos 10 ou 20 anos.

Costuma-se dizer que a idade da pedra não acabou por terminaram as pedras. Vêm aí novos tipos de baterias, carros a hidrogénio. Atrás do campus do INSEAD em Singapura até já está a ser construída uma estação de hidrogénio da BP. Ainda não abriu, mas creio que estará para breve... Na realidade, as alternativas ao petróleo são imensas. As pessoas são muito engenhosas para ultrapassar problemas. Convém recordar que pusemos um homem na lua. Os problemas da actual geração serão certamente resolvidos pela próxima. É obvio que isso criará muitos outros novos problemas. Mas a vida é assim.

Está optimista?

Por natureza, sou optimista. Digo sempre que conseguimos fazer melhor. Devemos ver as coisas do lado positivo, evitando temer que o céu vá cair.

E quanto a política, é desta vez que as eleições nos EUA vão colocar uma mulher na Casa Branca?

Fui viver para França no Verão de 2006, quando Segouleme Royale disputou eleições contra Nicolas Sarkozy. Estudei ciência política e vejo agora que os EUA estão quase na mesma situação. As três eleições primárias republicanas foram ganhas por três pessoas diferentes e o seu eleitorado só se clarificará depois da Convenção ter seleccionado um candidato. Do lado dos democratas, Barack Obama representa uma minoria, assim como Hillary Clinton também tem os votos de outra minoria. Estes são os dois principais candidatos democratas e ninguém sabe qual deles vai ganhar. Do lado republicano também não sabemos quem sairá entre 4 ou 5 candidatos. A minha previsão é que vamos ter um excelente espectáculo durante os próximos seis meses.