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A corrida das Sanjo

A marca de sapatilhas criada em São João da Madeira está de volta e ganhou novas cores, mas passou a ser fabricada na China.

Margarida Cardoso (www.expresso.pt)

Feitas de lona, a preto e branco, foram as sapatilhas mais famosas nas décadas de 70 e 80, até perderem fôlego e sucumbirem à concorrência estrangeira. Regressam agora, idênticas às originais, mas com mais cores e prontas a correr ao lado das marcas internacionais para conquistar clientes. Definir com rigor o nascimento das sapatilhas Sanjo parece missão impossível. Do bilhete de identidade consta, apenas, o local de nascimento, em São João da Madeira, na secção de borracha da Empresa Industrial de Chapelaria, onde se produziram sapatos de lona e borracha a par das sapatilhas que calçaram os portugueses nas aulas de ginástica, fizeram serviço militar e integraram o equipamento de grupos de basquetebol, andebol, voleibol e futebol de salão de todo o país. Quanto a datas, sabe-se apenas que as referências à marca remontam à década de 40. As primeiras imagens das sapatilhas Sanjo surgem em fotografias de 1948 das equipas da Associação Desportiva Sanjoanense, reproduzidas na monografia dos 75 anos da coletividade. A ligação direta da marca ao desporto, por um lado, e a situação de quase monopólio num mercado protecionista e com muitas restrições às importações durante o período do Estado Novo, por outro, poderão explicar a dificuldade em encontrar registos publicitários nos anos de glória da Sanjo. Mas há um anúncio da década de 60 no espólio do Museu de Chapelaria de São João da Madeira a sublinhar que "Os chapéus Joanino e o calçado Sanjo servem Portugal da cabeça aos pés" .

Sapatilhas como moeda de troca

Fundada por José Pinto de Oliveira, também na origem da Metalúrgica Oliva, a Empresa Industrial de Chapelaria chegou a ter 500 operários a trabalhar em três turnos para dar resposta às encomendas da Sanjo e, em especial, da bota de lona K100, o modelo mais popular apesar de ter apenas duas versões: o branco e o preto e branco. Nos pavilhões desportivos, as sapatilhas Sanjo chegaram a servir de moeda de troca para a transferência de atletas. Na rua, enquanto o resto do mundo se rendia a marcas internacionais, Portugal calçava as suas Sanjo, com proteção de borracha ao nível do tornozelo. É uma história de sucesso interrompida no final da década de 80, quando a insígnia são-joanense deixou de poder viver à sombra do prestígio do passado, teve de enfrentar a concorrência direta das marcas internacionais e viu a sua situação financeira deteriorar-se. Em 1988, quando a empresa de construção e obras públicas Engil compra a Sanjo decidida a investir em equipamento, lançar uma nova linha de calçado em pele, produzir componentes de borracha para automóveis e lançar-se na exportação, a marca ainda parecia ter futuro.

As antigas sapatilhas fizeram sucesso

As antigas sapatilhas fizeram sucesso

Alberto Frias

Para 1990, a empresa chegou a prever vendas de 1,3 milhões de contos (mais de €5 milhões), 60% dos quais no mercado externo. No entanto, pouco depois, a produção de sapatilhas foi encerrada, a Oliva assumiu uma participação na Sanjo e a unidade iniciou mais um ciclo de vida que só seria definitivamente encerrado em 1996, com a declaração de falência da empresa recém-saída de um processo especial de recuperação, mas paralisada há vários meses, com 600 mil contos (€3 milhões) em dívidas.

Corrida aos modelos antigos

É então que a Fersado compra a patente da Sanjo em hasta pública e começa a pensar no desenvolvimento de uma marca generalista, com várias linhas de calçado. Há dois anos, para aproveitar a onda revivalista do mercado, este grupo ligado ao comércio e distribuição de sapatos decidiu investir €500 mil na marca histórica de homem, senhora e criança, reposicionando-a no segmento médio alto.

As novas Sanjo, numa gama de 14 cores, são agora fabricadas na China

As novas Sanjo, numa gama de 14 cores, são agora fabricadas na China

Alberto Frias

O regresso começou por ser preparado com uma corrida por sapatarias tradicionais à procura de sapatilhas antigas para desenvolver as novas K100 (com cano) e K200 (sem cano), de forma a assimilar as diferenças tecnológicas permitindo que os potenciais clientes reconheçam a Sanjo ao primeiro olhar e "sintam, também, que são iguais no toque e quando as calçam". Foi um arranque animador. "Alguns lojistas chegaram a oferecer-nos as sapatilhas", refere Paulo Fernandes, administrador responsável pela estratégia da marca. A etapa seguinte acabaria, no entanto, por revelar-se mais difícil: "Por se tratar de um sapato vulcanizado, já não foi possível encontrar em Portugal empresas para produzirem as sapatilhas", refere. Só por isso, diz, as novas Sanjo, numa gama de 14 cores, são agora made in China.

Artigo publicado no caderno de economia do Expresso de 07 de Agosto de 2010