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A 6ª feira que mudou a nossa vida

Empréstimos entre bancos quase secaram na primeira semana de Maio. O financiamento do BCE à banca nacional atingiu novo recorde.

João Silvestre (www.expresso.pt)

Costuma dizer o povo que "quem não tem cão caça com gato". Uma frase que se pode aplicar aos bancos: quando omercado monetário não funciona normalmente, é preciso encontrar outras soluções. A mais imediata é o recurso ao financiamento do Banco Central Europeu (BCE), que voltou a adoptar medidas medidas extraordinárias de injecção de liquidez na semana passada para tentar acalmar os investidores. Não só disponibilizou fundos ilimitados a taxa fixa (1%), como avançou com compra de dívida pública e reactivou as linhas de swap em moeda estrangeira que tinha criado no auge da crise financeira.

A turbulência dura há algum tempo, mas atingiu um pico na primeira semana de Maio quando a liquidez no mercado monetário teve uma queda abrupta.

De acordo com um alto responsável do sistema bancário, que classificou a situação de "brutal", nessa sexta-feira, que precipitou a tomada de medidas pela União Europeia e pelo BCE, quase só estiveram disponíveis empréstimos entre bancos overnight (para o dia seguinte).

O BCE não disponibiliza informação sobre o volume de negócios, mas o spread do swap das taxas de juro do euro a uma semana (a diferença entre a taxa variável do mercado e a taxa fixa, que mede o risco do mercado) disparou. Embora esteja longe do auge da crise pós-falência do Lehman Brothers, está no máximo desde o Verão passado.

Outro sinal do receio que se vive na banca, além dos vários alertas públicos de vários banqueiros, é o volume de depósitos dos bancos junto do BCE. Nessa semana, aumentaram em cerca de €3o mil milhões e, entretanto, já voltaram a cair.

Para muitas instituições, a única alternativa foi financiarem-se junto do banco central. O BCE não divulga dados por país, mas entre 23 de Abril e 14 de Maio o crédito concedido cresceu cerca de €70 mil milhões, para um total de mais de €800 mil milhões.

A consulta às estatísticas dos vários bancos centrais mostra que os países do clube de risco têm ido bastante a Frankfurt.

Corrida ao BCE

€17,7 mil milhões era quanto os bancos nacionais tinham de créditos do BCE no final de Abril. É o valor mais elevado de sempre. Só no mês passado pediram mais de €2000 milhões

€30 mil milhões foi quanto os bancos europeus depositaram no Banco Central na primeira semana de Maio a uma taxa de apenas 0,25%. Um sinal dos receios que se têm vivido no mercado monetário por causa da crise da dívida soberana

No final de Abril, segundo o Boletim Estatístico do Banco de Portugal divulgado quinta-feira, os bancos portugueses tinham €17721 milhões emprestados do BCE. Trata-se do valor mais elevado de sempre e que, embora não haja dados mais recentes, tudo indica que deverá ter continuado a subir durante as primeiras semanas de Maio.

Ao todo, em Abril a banca nacional recorreu a €2266 milhões do BCE, o que não é, apesar de tudo, um recorde. Houve três meses desde o início da crise em que esta fasquia foi ultrapassada: Junho de 2009 (5592), Dezembro de 2009 (4263) e Dezembro de 2008 (2563).

A corrida aos fundos do BCE não é exclusiva portuguesa. A banca grega, por exemplo, tinha no final de Março quase €67 mil milhões, segundo dados do Banco da Grécia. É um aumento de cerca de €20 mil milhões no espaço de dois meses.

Os bancos irlandeses, que estão sob alçada do Estado para evitar a bancarrota, tinham pedidos ao BCE mais de €80 mil milhões no final do mês passado.

Em Espanha, também em Abril, eram cerca de €91 mil milhões.

Do grupo de risco, apenas a Itália não tem dados disponíveis para 2010, mas os números de 2009 apontam para valores na ordem dos €20 mil milhões.

A intervenção do BCE a comprar dívida soberana, num total de €16,5 mil milhões, ajudou a baixar drasticamente os spreads da dívida dos países mais afectados.

No caso português, por exemplo, a yield (rentabilidade) das obrigações a dez anos caiu para valores inferiores a 5% logo nessa segunda-feira, dia 10 de Maio, e na Grécia o tombo foi ainda mais drástico.

Contágio é o problema

Mas, desde então, os mercados continuaram não muito confiantes. Um dos principais problemas, que no caso português é particularmente visível, é que a fatia da subida dos spreads da dívida pública que se deve a contágio é bastante elevada. E o mais grave é que os problemas se podem propagar com facilidade.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional, publicado na semana passada, conclui que a variação do spread do swap da dívida portuguesa a 10 anos (que mede o risco que os investidores atribuem às obrigações nacionais) entre Outubro de 2009 e Fevereiro deste ano se deveu quase exclusivamente a contágio e que os fundamentos da economia ou a variação da aversão ao risco a nível global tiveram pouco impacto (ver gráfico).

São vários sinais de que os mercados estão à beira de um ataque de nervos. Para já, ainda longe dos níveis de pânico após a falência do Lehman. Mas está tudo no fio da navalha e qualquer passo em falso pode trazer de novo o pânico. As crises são, muitas vezes, como as guerras: sabe-se como começam e não se sabe como acabam.

O Banco Central Europeu tem um conjunto de instrumentos para intervir no mercado monetário.

A taxa directora que normalmente se refere é a que o BCE cobra aos bancos pelo empréstimo de fundos nos leilões semanais.

Normalmente, esta taxa seria uma base de licitação e os montantes limitados. Mas com a crise estes leilões passaram a ser de taxa fixa, actualmente em 1%. Cede ainda fundos aos bancos a 1,75% e absorve liquidez através de depósitos (0,25%).

No combate à crise criou financiamentos a prazos longos, alargou os colaterais (garantias) aceites e criou linhas de swap (troca) para moedas estrangeiras. Passou a comprar dívida privada e, agora, também pública.

Artigo publicado na edição de 22 de Maio, no caderno de Economia