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Falta de talento agrava-se nos negócios do mar

A economia do mar emprega 177 mil profissionais em Portugal, mas precisa de atrair as novas gerações

FOTO LUÍS BARRA

Interesse dos alunos por cursos ligados ao mar está a diminuir

Há um ano, Miguel Marques, sócio da consultora PwC, responsável pela edição anual do barómetro da economia do mar LEME, denunciava ao Expresso um dos grandes problemas do sector, defendendo que o cluster do mar teria de duplicar, em 15 anos, o seu número de profissionais para que Portugal pudesse posicionar-se competitivamente numa indústria considerada estratégica a nível global. Duplicar implicaria contratar pelo menos 160 mil profissionais qualificados para o sector. Uma missão que o especialista da consultora admitia difícil e os últimos dados do barómetro LEME, esta semana divulgado, indicam que está a tornar-se progressivamente mais complexa.

Segundo o estudo, o interesse dos jovens portugueses por áreas de estudo qualificantes para o sector marítimo tem diminuído nos últimos anos. “O número de alunos colocados na primeira fase do último concurso nacional em cursos de ensino superior relacionados com o mar diminuiu”, avança o barómetro. Miguel Marques refere que “em 2017 a redução de alunos em licenciaturas nestas áreas diminuiu 2% e em 2018 não recuperou desta descida”. A quebra no interesse dos mais jovens nas carreiras ligadas à designada economia azul (ou economia do mar) transparece também na redução do número pessoal militar ao serviço da Marinha, citada no estudo.

As contas da Comissão Europeia revelam que em 2016 (último levantamento realizado), a economia azul empregava em Portugal 177 mil profissionais. O sector representa 4% do emprego nacional e a maioria dos recursos humanos que agrega estão concentrados na fileira do turismo, que absorve segundo as contas europeias mais de 130 mil trabalhadores, e na alimentação, que soma 37 mil profissionais.

NEGÓCIOS MARÍTIMOS EM EXPANSÃO

O barómetro divulgado esta semana parte da análise realizada pelos empresários do sector a 42 variáveis da economia do mar e conclui que 68% dos indicadores monitorizados apresentam uma evolução positiva das perspetivas dos líderes do sector face a 2017. A economia do mar gera €4,1 mil milhões anuais de Valor Acrescentado Bruto e segundo a Comissão Europeia, no estudo “The 2018 Economic Report on EU Blue Economy”, até 2016 (último ano considerado no estudo), a economia do mar nacional cresceu 26,7% e o seu peso na economia nacional 22,4%. É, argumenta o especialista, um sector dinâmico que tem mantido o seu ritmo de crescimento nos últimos anos.

Apesar disso, as carreiras do sector ainda não estão a conseguir atrair os mais jovens, aumentando progressivamente a idade média dos profissionais ao serviço da economia do mar. Uma tendência que é necessário inverter e que exige a criação de carreiras mais aliciantes e financeiramente atrativas, como vem defendendo o grupo de trabalho constituído pela Comissão Europeia para atrair para o sector mais jovens. Defende a Comissão Europeia que, tal como noutros sectores, também nesta indústria a tecnologia está a provocar alterações de fundo e é urgente capacitar as novas gerações para trabalhar no sector.

GERADOR DE INOVAÇÃO

Apesar da dificuldade em atrair talento, nos últimos anos têm emergido no panorama nacional inúmeros projetos inovadores que aplicam recursos marítimos ou se inspiram no mar para solucionar problemas na área da saúde, transportes ou outras, como a indústria da beleza. Em destaque estão, por exemplo, projetos de startups como a Sea4Us que cria produtos farmacêuticos (entre eles analgésicos) a partir de recursos marinhos. Em Portugal também já se fabricam barcos eólicos. A empresa Sun Concept é a mentora do projeto. E até as algas e microalgas já encontram aplicação em cosmética, suplementos alimentares e na biomedicina.