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Processo Manuel Pinho. Ricardo Salgado foi ao DCIAP dizer que “o BES foi considerado o melhor banco em Portugal”

PAULO CUNHA / LUSA

Interrogatório de 2 de outubro de 2018 no qual Ricardo Salgado não quis responder aos procuradores teve, afinal, uma declaração de inocência e um elogio ao banco que acabou por ser intervencionado em 2014

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

O antigo banqueiro Ricardo Salgado, arguido no processo 184/12, que investiga suspeitas de corrupção entre a EDP, Manuel Pinho e o Grupo Espírito Santo, esteve no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) a 2 de outubro de 2018 para ser interrogado. Já se sabia que Salgado não prestou declarações ao procurador Carlos Casimiro. O que não se sabia é que o antigo banqueiro aproveitou a ocasião para ler uma declaração garantindo não ter cometido qualquer crime e elogiando a sua gestão à frente do Banco Espírito Santo (BES).

"Tenho mantido um comportamento de total transparência e cooperação com as autoridades. Levarei até ao fim a minha defesa, independentemente de ter tomado melhores ou piores decisões de gestão, e abro um parêntesis para recordar que o Banco Espírito Santo (BES) foi considerado o melhor banco em Portugal várias vezes por organizações internacionais", afirmou Ricardo Salgado numa curta declaração no DCIAP a 2 de outubro, a data marcada para ser interrogado pelo procurador Carlos Casimiro no âmbito do processo que envolve Manuel Pinho, a EDP e o GES.

"Há uma coisa de que tenho a certeza: não pratiquei qualquer crime. Por isso, vou lutar para que mais tarde ou mais cedo se faça justiça. Apesar de a isso não estar obrigado, entendo que o historial na sociedade portuguesa e o meu desejo de contribuir para a realização da justiça, impunha-me o dever de tentar prestar todos os esclarecimentos que me forem solicitados pelas autoridades, também pela convicção de que as minhas declarações seriam unicamente utilizadas para efeitos processuais. A partir de 2018 iniciou-se uma campanha de vários dias em alguns órgãos de comunicação social, chamados assistentes, através da divulgação em prime time de partes selecionadas do interrogatório que prestei no DCIAP no âmbito da Operação Marquês. O objetivo foi claro: promover as teses acusatórias", prosseguiu Salgado.

Na sua declaração aos procuradores, que é um dos documentos que foram divulgados nos últimos dias na Internet, no blogue Mercado de Benfica (que vem divulgando e-mails da Benfica SAD), Salgado invoca a divulgação do seu interrogatório na Operação Marquês como justificação para não responder a quaisquer perguntas no âmbito do processo 184/12.

"Não estou disposto a voltar a ser utilizado publicamente e a ser utilizada publicamente a minha imagem e os meus esclarecimentos descontextualizados fora do processo em alguns programas de televisão, como se este momento difícil da minha vida pudesse ser tratado como qualquer telenovela. Por esta razão, e apesar de lamentar e de negar veementemente a imputação criminal que me é feita, pretendo exercer o direito ao silêncio e não prestarei quaisquer esclarecimentos nesta sede sobre a matéria", declarou Ricardo Salgado.

O Expresso contactou o advogado de Ricardo Salgado, Francisco Proença de Carvalho, mas este não quis tecer comentários. Desde a ida ao DCIAP não houve qualquer desenvolvimento processual relevante ou intervenção da defesa de Ricardo Salgado no âmbito do processo 184/12.

Este processo também tem como arguido o presidente executivo da EDP, António Mexia, e teve como arguido Manuel Pinho (antigo ministro da Economia), que em maio viu ser anulada essa condição, ainda que os procuradores do DCIAP mantenham as suspeitas sobre o ex-governante e continuem a identificá-lo nos autos do processo como arguido.

Ricardo Salgado foi constituído arguido no processo 184/12 pelas suspeitas de que terá influenciado a governação de Manuel Pinho para favorecer interesses económicos do Grupo Espírito Santo, grupo que continuou a pagar a Manuel Pinho entre 2005 e 2009, através de sociedades offshore, segundo dados da investigação ao BES que foram copiados para a investigação relativa a Manuel Pinho.