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€uro. 20 anos para chegar aqui e vencer o pessimismo

D.R.

Para uma moeda que nasceu com um erro de fabrico, o euro já superou uma grande crise

Ao fim de duas décadas, o euro é hoje a segunda divisa de reserva à escala global e é usada num espaço económico que é o segundo maior do mundo, depois dos EUA. Serve de moeda a 25 países, abrangendo 19 formalmente integrados, incluindo Portugal, quatro com acordos para o seu uso e dois que o adotaram unilateralmente. Para uma moeda que nasceu com um defeito de fabrico, segundo muitos economistas, o euro sobreviveu a um abrandamento do crescimento logo na infância, em 2002 e 2003, e a uma grande crise no início da puberdade, entre 2009 e 2013.

O Nobel Joseph Stiglitz considerou o lançamento do euro em 1999 uma “decisão fatal” e não são poucos os académicos que acham que a área da moeda única na Europa não é uma zona monetária “ótima” e que, por isso, está fadada à liquidação. E, entretanto, condenada ao risco de saídas individuais. A crise das dívidas públicas nos periféricos do euro entre 2010 e 2013 alimentou a expectativa dos primeiros abandonos, por iniciativa própria ou empurrados à força, nomeadamente da Grécia — o que, então, se designou por ‘Grexit’.

Em julho de 2012, o índice para o risco da zona euro sofrer uma saída de um membro nos 12 meses seguintes atingiu um máximo de 73%. Esse pico registou-se antes da frase “o BCE fará tudo o que for preciso para preservar o euro”, proferida por Mario Draghi naquele mês, em Londres. Palavras que se tornariam célebres e marcariam um ponto de viragem. O índice é da responsabilidade da consultora Sentix e, recentemente, em outubro, voltou a sinalizar perigo, com o risco a subir para mais de 13%, impulsionado pela crise entre o Governo italiano e a Comissão Europeia. Depois do compromisso entre Roma e Bruxelas, o risco desceu para 9,9%, mas, ainda assim, está acima do mínimo de 6,3% em abril passado.

TRÊS MOMENTOS CRÍTICOS

Na história destes 20 anos do euro há três momentos críticos. O primeiro, no que poderemos ainda considerar a primeira infância. O crescimento anual da zona euro abrandou para menos de 1% em 2002 e 2003 face a uma taxa de 1,7% e 2% nas economias desenvolvidas. Os dois ‘doentes’ da moeda única eram a Alemanha, que estagnou em 2002 e registou uma contração no ano seguinte, e a Itália que vivia um longo declínio desde antes da adesão ao euro. A moeda atravessou uma fase de apreciação em relação ao dólar desde outubro de 2000 e a zona viveu um declínio de investimento. Este abanão na primeira infância do euro acabaria por ser superado.

O grande choque viria num segundo momento, no quadro da crise financeira e económica global de 2008 e 2009. Os primeiros sinais da crise do subprime nos EUA surgem em 2007. E, no verão desse ano, chegam à Europa com o banco BNP Paribas a ser obrigado, em agosto, a congelar temporariamente três fundos de alto risco especializados em dívida hipotecária norte-americana. O Banco Central Europeu (BCE), dirigido pelo francês Jean-Claude Trichet desde 2003, comete um primeiro erro de palmatória em 2008 face a uma conjuntura de crise em desenvolvimento. Sobe em julho a taxa diretora de 4% para 4,25%, para depois ter de a descer no último trimestre até 2,5%. Mesmo assim, a taxa do BCE fica muito acima do mínimo histórico no intervalo de 0%-0,25% que Ben Bernanke, à frente da Reserva Federal dos EUA, logo impôs em dezembro desse ano no quadro de um plano de estímulos à economia. O ciclo de apreciação do euro chegou a um pico de 1,6 dólares em julho. Depois caiu a pique até final de outubro, quando passou a valer 1,25. A grande recessão chega à zona euro em 2009, com a economia a contrair-se 4,5%, mais do que a recessão de 3,3% no conjunto das economias desenvolvidas.

A zona euro acabou por ter pouco tempo para respirar de alívio. No final desse ano, nasceu a crise da dívida pública depois de o novo Governo grego — dos socialistas do PASOK, que ganharam as eleições em outubro — ter corrigido em alta o valor do défice deixado pelo antecessor e, com isso, lançado dúvidas sobre a credibilidade das contas públicas gregas. Entrámos, deste modo inesperado, no terceiro momento crítico da vida do euro. Para evitar a bancarrota em vários periféricos do euro pressionados fortemente nos mercados da dívida, a Comissão Europeia e o BCE aliam-se ao Fundo Monetário Internacional, formando uma troika que vai proceder a uma série de resgates entre 2010 e 2015. O primeiro ocorre com a Grécia em maio de 2010, que repete a dose em 2012 e 2015; seguem-se Irlanda, Portugal, Espanha (neste caso, foi um resgate parcial dirigido ao sector bancário) e, finalmente, Chipre. As políticas de austeridade aplicadas nos resgates e a contenção orçamental nas economias do centro do euro provocam uma recaída na recessão em 2012 e 2013, uma contração acumulada de mais de 1%, quando o resto das economias avançadas já crescia a mais de 1%.

BCE ATRASA-SE NOS ESTÍMULOS

Em simultâneo, o BCE lança mão de instrumentos não convencionais de política monetária e inicia um primeiro programa de compra de dívida pública e privada no mercado secundário entre 2010 e 2012, onde aplicou €219,5 mil milhões, de que ainda restam em carteira €73 mil milhões. Em 2011, Trichet comete novo erro, e sobe a taxa diretora do BCE para 1,25% em abril e 1,5% em julho. Mario Draghi, até então governador do Banco de Itália, assume a liderança do BCE em novembro e corrige a trajetória da política monetária do antecessor: desce a taxa diretora para 1,25% em novembro e 1% em dezembro.

O ano de 2012 é de grande agitação no mercado da dívida. Os juros das Obrigações do Tesouro português atingem um máximo de 16% no mercado secundário, e a primeira reestruturação de dívida na zona euro é levada a cabo na Grécia, ainda que só abrangendo os credores privados. A viragem nesta crise da dívida começa com as palavras de Draghi em Londres já referidas e complementa-se com o anúncio de um novo instrumento de política monetária batizado OMT (acrónimo para Outright Monetary Transactions) que garante que o BCE intervirá, sem limites, no mercado secundário no caso de ataques especulativos aos membros do euro.

O programa acaba por não ser posto em prática, e Draghi resolve avançar com um programa de compra de ativos em março de 2015, quando, nos EUA, a Reserva Federal já parara o seu em outubro do ano anterior. Em março de 2016, o BCE desce a taxa diretora para o mínimo histórico de 0% e agrava a taxa de remuneração de depósitos para -0,4%. Em julho de 2018 decide anunciar o fim do programa de aquisições para o final de dezembro. Com esta intervenção, o BCE comprou €2,6 biliões em ativos, dos quais €2,1 biliões em dívida dos membros da zona euro e de entidades supranacionais.