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Eletricidade teve em 2018 o preço mais alto da última década

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Chegado o último dia do ano, já há números finais sobre o custo da energia elétrica no mercado grossista ibérico. O preço médio em 2018 foi de 57,4 euros por megawatt hora. É preciso recuar ao ano 2008 para encontrar um custo médio de eletricidade mais alto

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

O preço grossista da eletricidade no mercado ibérico (Mibel) fechou 2018 com um valor médio de 57,4 euros por megawatt hora (MWh), o preço anual mais alto da última década, segundo os registos históricos do Mibel na plataforma de negociação de contratos diários, denominada Omie.

A média anual de 2018 fica 9,4% acima do preço médio de 2017 (que foi de 52,5 euros por MWh), alcançando o registo mais elevado desde 2009. Só em 2008 a eletricidade no Mibel teve um custo mais alto: 69,98 euros por MWh. Aquele ano, recorde-se, ficou marcado pelo disparo da cotação do petróleo, que teve um efeito de contágio em matérias-primas usadas na produção de eletricidade, como o gás natural e o carvão.

Os 57,4 euros de média anual da eletricidade no mercado grossista ibérico diário refletem um ano marcado por uma forte subida do preço da energia elétrica a meio do ano, impulsionada pelo encarecimento do custo das licenças de emissão de dióxido de carbono e pelo aumento do preço do gás natural e do carvão.

Em 2018 a eletricidade no Mibel teve o seu preço mais baixo em março, com 39,75 euros por MWh, mas a partir de abril iniciou uma trajetória de subida que culminou num pico de 71,3 euros por MWh em setembro. Os preços aliviariam no último trimestre do ano, fixando-se a média de dezembro em 61,9 euros por MWh.

A subida no Mibel levou o regulador da energia a abrir uma investigação com base em suspeitas de manipulação dos preços.

À boleia desta subida no mercado diário, também os contratos futuros do Mibel têm vindo a encarecer, alimentando no sector algumas dúvidas sobre o patamar a que o preço da eletricidade pode chegar, num contexto em que se antecipa o fecho de várias centrais termoelétricas a carvão ao longo dos próximos anos.

Os efeitos para o consumidor final

A evolução dos preços no mercado grossista é mais crítica para os consumidores empresariais do que para os domésticos, já que a fatura dos primeiros tem um peso maior da componente de energia, enquanto a fatura dos clientes residenciais está mais exposta aos custos de acesso às redes.

De qualquer forma, a subida do preço no Mibel em 2018 já foi refletida, em grande medida, nas tarifas que a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) aprovou para 2019. Nessas tarifas o regulador projeta para o novo ano um preço médio no Mibel acima dos 60 euros por MWh.

Apesar do disparo no preço de mercado da eletricidade, o regulador conseguiu fazer aprovar uma descida de 3,5% das tarifas reguladas (a maior em duas décadas), graças a um conjunto de medidas aprovadas pelo Governo para aliviar as tarifas de acesso às redes.

Entre essas medidas está a contabilização parcial da devolução pela EDP de 285 milhões de euros de alegadas sobrecompensações do regime CMEC - Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual, uma medida que a elétrica já prometeu contestar através de uma arbitragem internacional.

O Governo também libertou para o sistema elétrico verbas da Contribuição Extraordinária sobre o Sector Energético (CESE) que já deviam ter sido usadas em anos anteriores. E aprovou ainda a injeção no sistema elétrico nacional de receitas dos leilões de CO2 acima do verificado noutros anos.

Que futuro(s)?

O mercado de contratos a prazo de eletricidade, denominado Omip, revela que os operadores estão a contar agora com alguma redução dos preços futuros da energia elétrica.

O preço para a entrega de eletricidade em janeiro ainda é superior ao do mercado diário, estando agora nos 63,2 euros por MWh, mas os contratos para o segundo trimestre de 2019 estão a ser negociados a 58,7 euros por MWh.

Quem está a contratar eletricidade já para 2020 está atualmente a pagar 56 euros por MWh, segundo os dados do Omip. Um nível de preço que permite antecipar que algumas elétricas conseguirão oferecer energia aos seus clientes daqui a um ano a um preço em linha com o atual ou até inferior.

Entre as variáveis que poderão nos próximos meses influenciar o custo grossista da eletricidade estão não apenas os preços do carvão e do gás, mas também a evolução do custo das licenças de CO2, a maior ou menor produção a partir de fontes renováveis (que contribuem para baixar o preço no Mibel) e ainda decisões políticas.

Recorde-se que em setembro o governo espanhol suspendeu até março a cobrança do imposto de 7% aos produtores de eletricidade (o que contribuiu para aliviar o preço do Mibel no último trimestre de 2018), estando ainda por confirmar se essa suspensão será prorrogada ou não. O Governo português está a acompanhar este tema para rever o mecanismo de equilíbrio de preços ibéricos, conforme previsto no Orçamento do Estado para 2019.