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Isto agora é outra louça

Rui Duarte Silva

A Vista Alegre colou os cacos, renasceu das cinzas e volta a brilhar. Evoluiu, através de parcerias com designers, para um “criador de tendências” nos segmentos onde opera

Na sala de escultura da Vista Alegre, Anabela Ramalhete é a senhora das rosas. Com 34 anos de casa, dedica-se à espinhosa tarefa de esculpir, com paciência e rigor, as rosas que decoram as figuras das coleções exclusivas, uma arte que lhe foi transmitida pelos mestres da geração anterior. Acertar as pétalas e unir as 110 flores em cada modelo, são os principais desafios que Anabela enfrenta diariamente. Ela faz parte da “história de sucesso” que o presidente da Vista Alegre Atlantis (VAA), Nuno Marques, contou esta semana a representantes de fundos de investimento e family offices em Madrid, Paris, Londres e Frankfurt, no âmbito da operação de dispersão de capital que sela o ciclo de reorganização do grupo, 10 anos depois da entrada em cena da Visabeira.

O grupo não se moverá num mar de rosas, mas removeu de vez os espinhos que lhe tolhiam os movimentos e a ambição. A VAA “está numa posição invejável”, diz Nuno Marques. A carteira de encomendas “é muito confortável e não para de crescer”, forçando a aumentos de capacidade. Cada mês que passa o grupo “bate um novo recorde de faturação”. Com a incorporação da Cerutil (cerâmica utilitária) e da Bordallo Pinheiro (faiança), a faturação vai superar, em 2018, a cifra mágica dos €100 milhões (€93 milhões em 2017).

A margem operacional (18%) supera a concorrência europeia, como os gigantes Villeroy & Boch (5%), Kibbey (9%) ou Fiskars (12%) e tem sobre ela a vantagem de operar, com seis fábricas e quatro marcas, nas frentes da porcelana, faiança, grés (mesa e forno) e cristal, reduzindo os riscos do negócio. O negócio da porcelana (41%) é o que mais pesa na receita. E, sobretudo, tornou-se um respeitado “criador de tendências”, beneficiando das parcerias com designers e artistas internacionais.

Em setembro, uma delegação da VAA fez uma digressão europeia para tomar o pulso ao mercado e avaliar o interesse de investidores focados em pequenas empresas com o perfil da VAA. A receção foi encorajadora, mas o que mais tocou Nuno Marques foi a vontade de alguns dos interlocutores de visitarem a “aldeia multifacetada” da empresa, em Ílhavo, encantados com a carreia de um grupo que alia a modernidade e inovação a uma tradição de quase 200 anos que lhe confere o estatuto de “património nacional”.

Pagar à banca

Um aumento de capital por transformação de créditos (€51 milhões) e o acerto de contas com a Visabeira que cedeu a Cerutil e a Bordallo Pinheiro para o perímetro da VAA e recebeu imobiliário do grupo foram os últimos retoques antes da dispersão de ações em curso.

A operação é de geometria variável no preço (entre €1 e €1,3) e na quantidade a vender, combinando a emissão de novas ações com a venda de um lote por parte da Visabeira. No cenário mínimo, a receita será de €30,5 milhões (€55,5 milhões no limite superior).

O grosso do encaixe (83%) destina-se a liquidar dívida à banca (BCP e CGD), desonerando ações da Visabeira que restringiam a liberdade da gestão, como a distribuição de dividendos. O endividamento da VAA está nos €86 milhões — a Visabeira é credora de €26,8 milhões, entre o passivo corrente e não-corrente.

Ganha a banca e a VAA. “Conferir liquidez ao título, reduzir a dívida, reforçando os capitais próprios e financiar o programa de investimentos”, eis os desígnios da oferta combinada da VAA, uma sobrevivente com 31 anos de bolsa sem liquidez que a recomende.

O presidente do grupo não esconde a ambição de replicar no mercado de capitais a visibilidade de que a marca desfruta, acedendo ao principal índice da bolsa (PSI20). Com uma capitalização que, no cenário central, se situará acima dos €250 milhões e uma dispersão perto dos 25%, a VAA fica em melhor posição do que algumas das empresas que integram hoje o índice.

Do programa de investimento (2017/20) de €50 milhões, incluindo a nova unidade da Ria Stone com produção tomada até 2026 pela IKEA, falta realizar perto de um quarto, destinado à instalação de novos fornos com tempos de cozedura mais curtos e energeticamente mais eficientes.

No plano comercial, a VAA tem na agenda a abertura de lojas em cidades como Paris, Dubai, Tóquio, Nova Iorque ou Hong Kong, que se juntam às cinco atuais e dezenas de corners nos 19 mercados em que conta com presença direta. Índia e México fora as mais recentes apostas fora do continente europeu. A VAA exporta 70% da produção, surgindo Espanha (16%) e Alemanha (11%) como os principais destinos. O Brasil (4%) é o principal mercado fora da Europa. Na primeira fase de expansão “imperou o critério da proximidade de mercados”. É a altura, de um segundo fôlego, tornando o grupo “mais forte no mundo”, diz Nuno Marques.

Na banca atrás de Anabela, as três peças de um presépio de autor (Paulo Neves) conferem um carácter natalício à secção de escultura. É a primeira produção nesta gama desde 2004. Na sala de pintura, Paula decora com flores um prato da última coleção assinada pela casa Christian Lacroix, uma tarefa que pode demorar entre um e três dias. A criatividade está a passar por aqui.