Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Porto de Setúbal. Apesar do braço-de-ferro, os contactos continuam

Em Setúbal, o porto continua quase parado, na sequência do braço de ferro entre os estivadores e as empresas portuárias, e as duas partes do conflito parecem cada vez mais distantes, mas "há contactos entre os advogados dos dois lados e representantes do Governo para encontrar uma forma de retomar as negociações na próxima semana", garante ao Expresso fonte sindical.

No dia em que uma entrevista da Ministra do Mar, Ana Paulo Vitorino, à Rádio Renascença e ao Público, deixa clara a vontade de trabalhar para conseguir um consenso, admitindo uma "precariedade completamente desregulada no Porto de Setúbal" e uma falha do lado do IMT - Instituto da Mobilidade dos Transportes que "não acompanhou tão depressa quanto deveria a fiscalização com base na nova legislação", o SEAL - Sindicato dos Estivadores e Atividade Logística veio reiterar: "A precariedade é que põe em causa o futuro do Porto de Setúbal".

O SEAL reage, assim, à estimativa avançada por Ana Paula Vitorino, de uma redução de 70% das rotas que costumam utilizar o Porto de Setúbal já no final desta semana. A Operestiva, empresa de trabalho portuário de Setúbal, no centro do conflito com os estivadores precários, indisponíveis para trabalhar desde 5 de novembro, tinha já avançado uma previsão idêntica na sexta-feira passada, quando anunciou que não era possível um acordo no porto sadino.

"Mas se o Porto está a funcionar pouco acima de 0%, o que significa agora esta quebra de 70%?" questiona a direção do SEAL. Na verdade, diz o sindicato, "o que temos em Setúbal até é uma perde efetiva na ordem dos 100%. Não nos deixamos intimidar com estas formas de pressão, até porque quem exporta por ali, vai continuar ali".

Porquê os 70%?

António Belmar, da AGEPOR - Associação dos Agentes de Navegação de Portugal, tem, no entanto, uma visão menos otimista. Explica que os 70% se referem ao desvio das 3 linhas de contentores a operar no Porto de Setúbal, com produtos diversos, como papel. "Deixaram de escalar o porto, passando a usar Sines ou Leixões, por exemplo", refere. "É verdade que esta opção foi ditada pela paralisação do porto, mas a carga de contentores que sai de um porto não costuma voltar depois de um desvio prolongado, como nos mostra a experiência de Lisboa, por exemplo", sublinha.

Admite que os automóveis da fábrica da Autoeuropa, o maior exportador nacional, a usar alguns caminhos alternativos para saírem em direção aos países de destino, designadamente Leixões, Vigo e Santander, usarão sempre e preferencialmente o porto sadino. "Já com o outro movimento portuário, tudo é diferente", acrescenta.

E refere o caso do Porto de Lisboa, que perdeu 31,2% das escalas em 10 anos, incluindo o desvio de algum do movimento de contentores para Setúbal. "Era o maior porto nacional e agora está em terceiro lugar", diz António Belmar, recordando “em especial” os dias agitados que o Porto de Lisboa viveu em 2016, com uma paralisação de 40 dias, entre abril e maio, a culminar uma fase de três anos e meio de sucessivos períodos de greve. Como exemplos, aponta as saídas de grandes armadores como a MacAndrews e a Happag- LLoyd.

A história do conflito

Em Setúbal, a par da indisponibilidade para trabalhar dos precários, que representam cerca de 90% dos estivadores do porto sadino, está em curso uma greve às horas extraordinárias iniciada em agosto, em protesto contra a alegada perseguição de trabalhadores filiados no SEAL nos portos de Leixões e do Caniçal. Esta greve, convocada até 1 de janeiro, tem especial impacto em Lisboa e Setúbal por serem os portos onde o SEAL tem maior representatividade territorial.

No âmbito das negociações que decorreram na passada semana no Ministério do Mar, as partes chegaram a acordo sobre a integração de 56 precários, mas os empregadores exigiam o fim da greve às horas extraordinárias e o SEAL só aceitava suspender a paralisação se tivesse garantia de uma inspeção ao que se passa em Leixões e Caniçal no espaço de 15 dias. Assim, o porto continua quase parado.