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CNA acusa Governo de prejudicar pecuária nacional a pretexto de reduzir emissões de CO2

Jorge Simão

Confederação Nacional da Agricultura considera discutíveis algumas das medidas propostas pelo Governo no Roteiro para a Neutralidade Carbónica, nomeadamente a redução, entre 25% e 50%, dos efetivos pecuários até 2050

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) acusou nesta quinta-feira o ministro do Ambiente de estar a assumir "razias para a produção pecuária nacional a pretexto da redução das emissões de carbono até ao ano de 2050".

O ministro do Ambiente e da Transição Energética apresentou na terça-feira o Roteiro para a Neutralidade Carbónica (RNC), que prevê um aumento de dois milhões de euros no investimento anual em Portugal, para tornar o país neutro nas emissões de dióxido de carbono até 2050. A agricultura e a pecuária serão alvo de várias medidas, incluindo a redução de produção de bovinos.

A CNA emitiu, a propósito, um comunicado onde considera discutíveis algumas das medidas propostas, nomeadamente a redução, entre 25% e 50%, dos efetivos pecuários até 2050. "Sem pôr em causa a necessidade civilizacional em eliminar as grandes agressões ambientais, todavia dizemos que são bastante "arrogantes", mesmo enquanto produção tecno-burocrática, muitas das percentagens definidas neste "RNC 2050" e nele apontadas, com rebuscada precisão, até às décimas percentuais", considerou.

Segundo a CNA, a pretensão do Governo e da União Europeia "corre riscos de ser 'voluntarismo percentual' embora também passe a servir de pretexto para decisões oficiais que vão ter repercussões negativas no trabalho, nos rendimentos e na vida" de agricultores e produtores florestais. "Ao contrário do anunciado [...] também vão prejudicar a economia nacional porquanto reduzir em 50% a produção pecuária em bovinocultura [...] significa o abandono de importante parte da produção nacional no subsetor carne bovina em que Portugal já é, hoje, grande importador com um défice anual na ordem de 400 milhões de euros na respetiva balança agroalimentar de pagamentos", considerou a confederação.

Para a CNA, no caso do leite, a redução em efetivos "virá juntar-se a outros problemas estruturais como o fim das quotas Leiteiras e os baixos preços na produção os quais, aliás, muito têm contribuído para arruinar os produtores de leite e também os produtores de carne". "Reduzir muito a produção nacional agroalimentar também significa promover o aumento, em princípio proporcionalmente, das importações evitáveis [...], o que virá agravar a dependência alimentar da nossa população e comprometer, cada vez mais, a soberania alimentar de Portugal", considerou.

Segundo a CNA, reduzir os efetivos pecuários em bovinicultura, na lógica atual do sistema, também significa promover-lhes a super-concentração nas maiores e mais intensivas unidades agro-industriais "que já estão a ser implantadas no nosso país, à custa dos pequenos e médios produtores nacionais e da qualidade alimentar da população".

A CNA defendeu ainda que a defesa do ambiente e das condições de vida "também se faz com o combate à desertificação humana e ambiental, com a ocupação do território e a defesa das espécies (plantas, árvores e animais) autótones, com a produção e consumo de proximidade".