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Peter Williamson: “Se quer expandir o seu negócio tem de estar na China”

“A China tem atualmente a maior percentagem de startups acima de mil milhões de euros, tendo já ultrapassado os EUA”, diz Peter Williamson

FOTO TIAGO MIRANDA

“A China é hoje o mercado certo para dar escala ao seu negócio”, diz, em entrevista ao Expresso, Peter Williamson, professor de gestão internacional em Cambridge, no Reino Unido. Os portugueses devem procurar ter um novo olhar sobre a segunda maior economia do mundo, cujo presidente Xi Jinping inicia esta terça-feira uma visita a Portugal

Estar na China é hoje em dia obrigatório para as empresas e os empreendedores que querem dar dimensão ao seu negócio e estar na vanguarda da inovação para mercados de massa. É o sítio certo para dar escala ao negócio e para testar inovação. É essa a recomendação de Peter Williamson, um especialista há várias décadas no mercado chinês e nas estratégias de abordagem da segunda maior economia do mundo.

O académico é atualmente professor de gestão internacional no Jesus College na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e antes lecionou e investigou no INSEAD, a escola de gestão internacional, em Fontainebleau, em França, onde, logo no início deste século, chamou a atenção para a estratégia global das empresas chinesas, algumas das quais se tornariam, depois, gigantes mundiais.

A recomendação de Williamson pode parecer surpreendente e chocar alguns leitores. No final do século XX ou nos primeiros anos do século XXI, o local certo para uma empresa ganhar escala eram os Estados Unidos ou os mercados mais sofisticados da Europa. Na tecnologia, o Silicon Valley californiano, a região mais emblemática, estava na moda. Os mercados das economias desenvolvidas eram a Meca das estratégias de gestão e de internacionalização de sucesso, advogadas pelos gurus.

O académico britânico convida-o a olhar para Oriente. “A China é o local certo para estar, se quer marcar a diferença”, diz Williamson, apesar de toda a turbulência geopolítica trazida pela guerra comercial e política da Administração Trump. Mas, para abordar a segunda maior economia do mundo, com ambições a ser a primeira, é preciso dominar algumas artes, como a da paciência, do pragmatismo e da flexibilidade.

A vantagem especial portuguesa

Williamson veio proferir recentemente uma conferência na Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica no Porto. Falou no programa de formação Oficina de Líderes, organizado por Alberto Castro e José Pinto dos Santos. Deixou uma mensagem clara a uma trintena de dirigentes de topo e responsáveis operacionais de empresas portuguesas: há um conjunto de oportunidades que Portugal pode aproveitar, para além do simbolismo histórico de um relacionamento que remonta a 1513.

“Há um fator importante, que advém das características culturais e de um relacionamento histórico tão longo - os portugueses são pragmáticos e flexíveis como os chineses e isso é importante politicamente e nas relações de negócios”, chama a atenção o académico britânico que vê nesses traços uma marca distintiva de Portugal em relação a outros países europeus.

Uma “vantagem especial”, em particular numa altura em que na União Europeia e em algumas grandes economias do euro se pretende apertar o rastreio do investimento direto estrangeiro e em particular do investimento direto chinês.

Viveiro mundial das start-ups

A primeira razão porque a China é atualmente o local certo para se estar advém de um facto, a que porventura se dá pouca atenção: “A China tem atualmente a maior percentagem de start-ups com uma valorização acima de mil milhões de euros, tendo já ultrapassado os Estados Unidos. Esses empreendedores perceberam que não se pode competir mais pelo preço, mas pela inovação, e, para isso, precisam de parceiros estrangeiros”, refere-nos Williamson.

A oportunidade é imensa: “A China é o mercado ideal para escalar e é muito rápido. O movimento neste mercado não é de zero para um, mas de 1 para milhões. É isso que leva muitas empresas inovadoras europeias e empreendedores europeus a localizar-se na China ou a procurar aí parceiros”. Um dos casos mais badalados, inclusive pelos media chineses ligados ao Partido Comunista, é o da start-up Byton, para o fabrico de automóveis elétricos semi-autónomos, lançada por dois ex-executivos da BMW alemã e por parceiros chineses.

Outra razão de peso, diz Williamson, é que o mercado chinês permite massificar produtos de nicho, ou típicos, de alto valor, de um dado país: “É possível na China fazer a reengenharia de produtos inicialmente de nicho virando-os para o mercado de massas. E fazê-lo a baixo custo. O caso dos italianos, na área da alimentação, pode ser seguido. Os portugueses podem, por exemplo, apostar nos vinhos e na pastelaria”.

A mudança do modelo económico

No entanto, a oportunidade mais ampla surge na mudança em curso do modelo de crescimento da China. “Há duas alterações fundamentais”, sublinha o professor de Cambridge.

A primeira é a viragem para a dinamização do consumo interno, que já representa 78% do crescimento do PIB – mais de 30 pontos percentuais em relação a 2013 -, com a emergência de uma muito ampla classe média que, segundo as estimativas de Williamson, poderá atingir os 900 milhões em 2025, mais de duas vezes e meia a população norte-americana naquele altura.

A segunda é a exigência de produtos cada vez mais fiáveis. “Os consumidores chineses são cada vez mais exigentes. Um dos pontos cruciais é garantir que o produto que se coloca no mercado é genuíno, e não uma cópia de contrafação”, acrescenta Williamson.

Finalmente, há uma aposta muito forte em sectores de futuro, nos quais Pequim quer parceiros. “A China quer reduzir a dependência dos EUA com o programa Made in China 2025, apostando na inovação incremental e em ter multinacionais nas cinco principais empresas em 10 sectores chave - aviação e aeroespacial; modernização da agricultura, energia, energias renováveis, robótica; novas tecnologias de informação, novos materiais e compósitos, transporte ferroviário, engenharia marítima, biomedicina e material médico”, adianta Williamson.

A estratégia para escolher parceiros é cirúrgica: “Na Europa, por exemplo, focaram-se nas PME alemãs (designadas por Mittelstand) que têm tido problemas de sucessão familiar. Só no ano passado adquiriram 250 empresas”. Outro caso é o da Finlândia, onde o investimento chinês se centrou na alta tecnologia. A participação mais emblemática foi de 84% na Supercell pela Tencent.

Há uma razão para esta escolha: “Estes pequenos países europeus têm tecnologia especializada, know how e marcas que estão relativamente subutilizadas, em virtude da pequena dimensão do mercado doméstico, e que podem ser alavancadas graças ao forte crescimento do mercado chinês”. Os pequenos países europeus têm, ainda, outra particularidade: “Não se posicionam numa guerra de poder com a China. Estão mais focados em ver como beneficiar do enorme crescimento da economia chinesa”.

O segredo chinês para chegar a segunda economia mundial

A China é hoje um ator de primeira linha no investimento internacional. Apesar do abrandamento do crescimento económico anual para o patamar de 6% desde 2015, a China foi o principal destino de investimento direto estrangeiro no mundo no primeiro semestre de 2018, segundo dados da UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development), à frente do Reino Unido e dos EUA. Em 2016 tornou-se o segundo emissor de investimento direto no mundo, a seguir aos EUA, mas, no ano seguinte, voltou a cair para terceiro lugar, depois do Japão.

A posição atual da China nestes fluxos mundiais é fruto de um processo de desenvolvimento surpreendente, em termos históricos, que ultrapassou a dinâmica do Japão e dos novos países industrializados asiáticos, os cognominados “tigres” do Pacífico. O Partido Comunista da China vai celebrar em dezembro o quadragésimo aniversário da revolução económica iniciada por Deng Xiaoping em 1978 e no Ocidente ainda se discute quais os ingredientes do ‘milagre’ chinês.

Depois do colapso da União Soviética, um momento marcante da alteração geopolítica mundial, a China valia 8% da economia norte-americana e o Japão tinha um PIB oito vezes superior. Em 2010 ultrapassou o Japão e alcançou o lugar de segunda economia mundial. Em 2023, segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia chinesa será mais do triplo da nipónica. De acordo com as projeções do FMI, a China ultrapassará o conjunto da zona euro já no próximo ano.

Qual foi o segredo? Williamson responde: “Deng Xiaoping fez uma inovação política fundamental. Inverteu o processo de modernização que tinha sido seguido pelo Japão. Os japoneses fecharam o mercado, fiéis à teoria de que primeiro há que desenvolver internamente e só depois abrir ao estrangeiro. Os chineses fizeram exatamente o contrário: abriram a economia ao investimento de fora”. Mas colocaram condições. “A abertura destinava-se a adquirir conhecimento. Hoje o Ocidente critica essa exigência, acusando a China de roubar tecnologia. Mas não de trata de roubo. Mas dos termos do negócio colocado por Pequim. A China abre o mercado, mas o preço é aprender. Foi uma estratégia de negociação clara”, sublinha o académico britânico.

As quatro fases da globalização chinesa

O segundo ingrediente do ‘milagre’ foi agarrar a oportunidade da globalização, sobretudo no novo século.

Podemos falar de quatro fases na expansão internacional das empresas chinesas, o que no final de 1999 se chamou sugestivamente de going global. A primeira fase destinou-se a vender produtos e coincidiu com a admissão em 2001 da China na Organização Mundial do Comércio. Os chineses começaram também por comprar algumas empresas. Mas revelou-se que não sabiam gerir empresas adquiridas no estrangeiro. As coisas correram mal nessa primeira vaga de aquisições. Perderam centenas de milhões de dólares”, recorda Williamson. Um dos casos em destaque foi o fracasso da aquisição de 51% em 2004 da Ssangyong, construtora de automóveis sul coreana, que acarretou um enorme prejuízo para a SAIC (Shanghai Automotive Industry Corporattion) de Xangai.

“Na segunda fase, focaram-se nas empresas que lidavam com recursos. Nomeadamente o avanço para África e América Latina, para as regiões com recursos fundamentais para o crescimento chinês. A terceira fase, centrou-se em adquirir empresas por todo o mundo para aprender a gerir multinacionais e obter tecnologia. Por exemplo, o caso das aquisições em Portugal. Houve um disparo nas compras no estrangeiro de 2013 a 2016, mais do que quadruplicaram em valor anual, de 51 mil milhões de dólares (€36,7 mil milhões, ao câmbio da altura) para 225,4 mil milhões de dólares (€214 mil milhões, ao câmbio da altura)”, refere o nosso entrevistado.

Há vários exemplos desta vaga de aquisições no mundo que Williamson utiliza como casos de estudo: a Volvo sueca pela Geely em 2010, o Centro Integrado de Fotónica (CIP) britânico pela Huawei em 2012, a Motorola Mobility norte-americana em 2014 pela Lenovo, a Pirelli italiana no ano seguinte e a Singenta suíça em 2016 pela Chemchina; a GE Appliances norte-americana em 2016 pela Haier.

A China explora oportunidades, não ideologia

Este processo sofreu uma revisão no ano passado. Pequim diz, agora, que houve investimento no estrangeiro “cego e irracional” e “algo caótico”. O fluxo anual de investimento direto no estrangeiro em 2017 caiu para 138,7 mil milhões de dólares (€115 mil milhões, ao câmbio da altura) e, em 2018, até setembro, somava 88 mil milhões (€75,7 mil milhões). Os bancos foram, também, avisados no ano passado de que operações acima de 5 milhões de dólares têm de ser aprovadas previamente. “A expansão internacional entrou numa quarta fase”, conclui Williamson.

Um novo dado foi introduzido pela guerra comercial desencadeada pela Administração Trump em julho, que reforçou a necessidade de uma reformulação da estratégia internacional. “Para os chineses o perigo real não vem da escalada da guerra comercial em si. O risco maior é se a escalada ataca os fluxos de tecnologia e de conhecimento internacional”, sublinha.

Esta nova ameaça leva Pequim a dar ainda mais força a duas estratégias: reduzir a dependência dos EUA com o programa Made in China 2025 e acelerar a iniciativa geoestratégica da Cintura e da Rota (One Belt One Road), que é multifacetada, com várias vias terrestres transcontinentais e marítimas (incluindo uma nova, ainda não formalmente desenhada, no Atlântico, onde Portugal pode desempenhar um papel central).

A concluir, Peter Williamson sublinha que o processo de globalização gerido por Pequim revela um ingrediente especial: “A China é basicamente uma potência que explora oportunidades para expandir a sua influência. É uma potência ‘oportunística,’ neste sentido. A característica essencial dos chineses é o pragmatismo, não a ideologia, por mais paradoxal que pareça. Pelo contrário, hoje é a Administração norte-americana que é mais ideológica”.

Versão integral da entrevista com Peter Williamson. Uma versão mais reduzida foi publicada na edição semanal do Expresso de 1 de dezembro de 2018