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Comunidade de programadores portuguesa é a que mais cresce na Europa Ocidental

Luís Barra

Este foi um ano recorde para a indústria de software europeia, que cresceu cinco vezes mais que as restantes áreas da economia em termos de valor acrescentado bruto. Mas o seu grau de diversidade e inclusão ainda deixa muito a desejar. Em Portugal, o investimento no sector bateu um recorde, totalizando cerca de 400 milhões de dólares

Mais de 400 milhões de dólares foram angariados em 2018 pelo sector tecnológico em Portugal, o valor mais elevado de sempre. Para este resultado contribuíram rondas de financiamento como a da Talkdesk e a da Outsystems, sendo esta última a quarta maior da Europa, com 360 milhões de dólares (cerca de 318 milhões de euros) captados.

O volume contrasta com o contabilizado no ano passado, acima dos 15 milhões de dólares (13 milhões de euros). Esta é uma das conclusões do relatório “Estado da Tecnologia Europeia 2018”, publicado esta terça-feira pela capital de risco internacional Atomico, em parceria com a Slush - uma espécie de Web Summit finlandesa - e a empresa de direito internacional Orrick que trabalha, entre outros, com sector tecnológico.

Cruzando dados de atores do ecossistema tecnológico ou europeu como a Slush, Iniciativa Europeia de Startups, Invest Europe, Linkedin, Bolsa de Valores de Londres, Meetup, entre outras, o relatório é ainda acompanhado por um inquérito realizado pela Slush e a Atomico a cinco mil pessoas entre setembro e outubro de 2018.

Portugal está também em alta no que toca ao talento. A comunidade de programadores portuguesa é a que cresce mais rapidamente na Europa Ocidental, aumentando 16,2% face ao ano anterior (de 74 500 em 2017 para 86 600 em 2018), mais do que a média europeia de 4,2%. O crescimento contraria assim a queda registada entre 2016 e 2017.

O país é igualmente o aquele que mais viu aumentar o número de membros ativos em grupos relacionados com tecnologia (51%) na aplicação de eventos Meetup. Especialmente no Porto, que é o 3º centro tecnológico da Europa que mais cresce em membros ativos e o 14º que mais cresce, por ano, em participantes nestes eventos. “Cresce mais rápido do que a capital porque é um centro promissor e Lisboa já está a começar a amadurecer”, explica ao Expresso o autor do relatório Tom Wehmeier, sócio e diretor de investigação da Atomico.

O emprego neste sector aumentou 6,4% no país no último ano, logo a seguir à França (7,3%) e à frente da média europeia de 1,1%.

Tecnologia é o motor da economia europeia

Dezassete empresas europeias alcançaram, este ano, o estatuto de unicórnio (com valorizações acima dos mil milhões de dólares) e três das dez entradas em bolsa apoiadas por capital de risco são originárias da Europa, entre elas a da Spotify.

No espaço europeu, o investimento total em tecnologia atingiu os 23 mil milhões de dólares (20 mil milhões de euros), valor que contrasta com apenas 5 mil milhões (4,4 mil milhões de euros) em 2013. Além disso, o sector tecnológico europeu está a crescer cinco vezes mais que as restantes áreas da economia em termos de valor acrescentado bruto. A tecnologia é, assim, o motor da economia europeia, como resumiu em comunicado Chris Grew, sócio do grupo de empresas de tecnologia da Orrick.

O “acesso a investidores sofisticados”, a contratação dos “melhores talentos”, a capacidade de “ir mais longe, evitar a concorrência feroz, abrir o seu capital e vingar na cena global” são, para o autor do relatório, fatores que contribuem para este clima favorável ao sector tecnológico.

“No entanto, há algo que continua a fazer sentir-se ano após ano: a necessidade de colmatar o fosso de financiamento em termos de investidores institucionais”, explica Tom Wehmeier. “Os escritórios familiares e os indivíduos de elevado património líquido investiram 5 mil milhões de dólares [4,4 mil milhões de euros] nos últimos cinco anos em capital de risco, mas os fundos de pensões estão a ser muito mais lentos.”

“Défice significativo” em diversidade

Pela primeira vez, o relatório avaliou o grau de diversidade no sector tecnológico europeu. E os resultados deixam muito a desejar. As conclusões apontam para “um défice significativo” da tecnologia europeia em diversidade e inclusão.

Do total do financiamento angariado pelas empresas europeias apoiadas por capital de risco em 2018, a quase totalidade (93%) dos fundos destinaram-se a equipas de fundadores inteiramente masculinas. Além disso, quase metade das mulheres inquiridas (46%) consideram ter sido alvo de discriminação no sector europeu.

Os resultados contrastam com aqueles que acham que a sua startup é inclusiva, cerca de três quartos. O que prova que, “no sector europeu da tecnologia, a discriminação é vista sempre como um problema dos outros”.