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Porto de Setúbal. SEAL admitiu suspender a greve, mas com condições

ANDRÉ AREIAS/LUSA

O cenário das negociações continua em cima da mesa, com outro mediador, da área do trabalho, diz o SEAL. E o sindicato fala da "estranha coincidência de uma gralha comum" aos comunicados do Ministério do Mar e da Operestiva. Os outros sindicatos falam de "instrumentalização dos trabalhadores de Setúbal"

O SEAL - Sindicato dos Estivadores e Actividades Logísticas admitiu suspender a greve às horas extraordinárias a decorrer desde 5 de agosto, mas exigiu uma contrapartida que dependia do governo: "Dávamos 15 dias para serem verificadas as denúncias de perseguições aos nossos sócios em Leixões e no Caniçal e não foi possível garantir isso", diz ao Expresso António Mariano, presidente desta estrutura sindical, explicando o impasse criado sexta-fera, no terceiro dia de conversações entre as partes, no Ministério do Mar.

Agora, espera que seja possível retomar a aproximação entre os dois lados deste conflito na próxima semana, com outro mediador, "uma vez que esta é uma questão laboral", justifica. A expetativa do sindicato é de que a reunião posso ser agendada no final da semana.

António Mariano admite que no caso de Setúbal "não havia, já, divergências inultrapassáveis" e já havia consenso para os empregadores garantirem um turno de trabalho aos precários que não entravam no grupo dos 56 contratados, antes de os colegas fazerem uma repetição de turno, "de forma a assegurar que todos tinham trabalho".

O que correu mal, então? "A exigência de pararmos com a greve às horas extraordinárias sem a garantia de que o problema ia ser verificado", explica o presidente do Seal, com 50 associados em Leixões e mais 25 no Caniçal.

"Quando apresentamos esta proposta, a ministra do mar ausentou-se fisicamente da reunião durante cerca de 3 horas na sequência dos quais voltou para informar que não estariam reunidas as condições para continuar as negociações em curso", refere

Leixões debaixo de fogo

António Mariano afirma que estes trabalhadores estão a ser discriminados por serem sócios do sindicato, apresentando argumentos como o facto de terem deixado de ser chamados a fazer turnos suplementares e trabalho especializado depois da filiação sindical, o que significa perdas salariais da ordem dos 50%.

No meio da polémica à volta de Leixões e daquilo que o SEAL considera ser "a tríada de interesses ligados ao protetorado de Leixões", há, aliás, "uma investigação em curso no Ministério Público", diz.

"Na verdade, não fomos nós que misturamos questões e trouxemos outros portos para a mesa de negociação. Os empregadores é que misturaram a questão dos precários com a greve às horas extraordinárias, quando são problemas e paralisações diferentes", acrescenta.

E porque é que os comunicados da Operestiva e da Ministra do Mar sobre o fim das negociações referem exigências do sindicato à volta dos portos de Leixões e de Sines? "O que está em causa é Leixões e Caniçal. A referência a Sines será uma gralha e é curioso que seja uma gralha comum aos empregadores e ao ministério do mar. É uma estranha coincidência", comenta o dirigente sindical.

Aliás, em comunicado hoje divulgado, o SEAL fala extamente desta "gralha dupla nos comunicados governamental e patronal", relacionando-a com outro comunicado da FNSTP - Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores Portuários denunciando a forma como o SEAL aproveitou os estivadores de Setúbal como "um pretexto para criar um conflito e formas de luta laboral que leve as autoridades e os operadores portuários a discutir com o SEAL, não as condições do porto de Setúbal, mas as dos portos de Sines e Leixões".

O Expresso contactou o Ministério do Mar logo na sexta-feira, no final da reunião que terminou sem acordo, para tentar perceber a referência ao Porto de Sines, mas não conseguiu uma explicação. Fonte do ministério disse apenas que na reunião "foram referidos vários portos" e a questão tinha de ser colocada ao SEAL.

Outros sindicatos ao ataque

Em Setúbal, diz, o porto continua quase parado, havendo no entanto, "algumas pequenas operações, como a de um navio que hoje está a descarregar aço", acrescenta. Não há notícia de mais navios para embarcar carros da Autoeuropa, acrescenta.

Relativamente aos comunicados divulgados pela FNSTP e pelas suas estruturas sindicais de de Leixões e Aveiro, António Mariano recusa entrar no que diz se uma "uma tentativa para criar uma guerra entre sindicatos".

A FNSPT considera que este conflito centrado nos estivadores de Setúbal refelete "o interesse do SEAL em ser sindicato único", refutando que aquela estrutura tenha representatividade nacional" A Federação, que diz representar mais de 70% da força de trabalho portuária do país, desenha que os "companheiros de Setúbal sejam capazes de inverter o rumo, tomando as decisões certas que conduzam à diminuição da precariedade e do desemprego em Setúbal, tal como aconteceu recentemente em Aveiro".

No mesmo sentido, a direção da AGEPOR - Associação dos Agentes de Navegação de Portugal, AGEPOR reitera hoje que o "SEAL utiliza e usa e abusa dos trabalhadores de Lisboa e de Setúbal numa estratégia de poder e guerra contra outros sindicatos".

Estabelecendo um paralelo entre o conflito atual e o que aconteceu em Lisboa, esta associação salienta que "os armadores não têm interesse em escalar portos que estão sempre em greve, que estão sempre em conflito. De primeiro porto nacional Lisboa já passou para terceiro. E por este caminho há-de chegar a último. E parece que Setúbal lhe pode seguir as pegadas. O que têm de comum? O SEAL", diz a AGEPOR em comunicado.