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“Lisboa tem uma grande oportunidade de se tornar a Silicon Valley da segunda era da internet”

O guru da tecnologia blockchain, consultor de negócios e escritor de best-sellers Don Tapscott veio a Portugal participar numa conferência de marketing digital

FOTO CARLOS OSORIO / TORONTO STAR VIA GETTY IMAGES

Todos os governos vão ser transformados pela internet do valor (vulgo blockchain), mais do que com a antiga internet da informação. Quem o diz é um dos gurus desta tecnologia que está na base das criptomoedas e que promete revolucionar inúmeros sectores. Em entrevista ao Expresso, Don Tapscott defende que a blockchain “está a tornar-se o coração da economia da inovação”

Quer ter o Governo português como membro do Blockchain Research Institute (BRI), que fundou em Toronto com o filho Alexander para ajudar, através de investigação e de casos práticos, empresas, sectores e governos a tirarem partido das oportunidades da tecnologia blockchain. “O programa multimilionário [financiado por grandes empresas, governos, organizações não-governamentais e membros da comunidade de startups] inclui 70 projetos ao longo de 10 sectores, sendo o Governo o mais importante”, explica em entrevista ao Expresso, conduzida por email, o guru da blockchain Don Tapscott. É por isso que está agora a convidar governos para integrarem a organização - e garante, sem detalhar, que tem “uma proposta especial” para o Governo português.

A blockchain foi criada há dez anos, mas ainda não está pronta a escalar e para uma adoção global. Porquê?
A internet foi inventada nos anos 70. Foram precisas duas décadas para desabrochar. A blockchain é a internet do valor. Desta vez será maior que da primeira vez. Agora, pela primeira vez na história humana, duas ou mais partes em qualquer parte do mundo confiam, podem transacionar e fazer negócios peer to peer (pessoa a pessoa). A confiança é estabelecida não por intermediários poderosos, mas antes através de colaboração, criptografia e código inteligente. É por isso que chamamos à tecnologia blockchain ‘o protocolo da confiança’. As mudanças que a internet do valor irá trazer são maiores do que as da internet da informação. Por isso levará tempo.

Quando é que isso vai acontecer?
Já está a acontecer. O capital de risco foi virado do avesso pelas campanhas de crowdfunding da blockchain, denominadas Ofertas Iniciais de Moeda [ICOs, na sigla inglesa, usadas pelas startups para levantar investimento]. À data, mais de sete mil milhões de dólares foram captados através de ICOs, dos quais 70% utilizando as normas da Ethereum [plataforma descentralizada capaz de executar contratos inteligentes e aplicações através da tecnologia blockchain]. A Ethereum e as suas concorrentes vão constituir a espinha dorsal da próxima era da internet. E a blockchain vai revolucionar todos os sectores: uma das maiores aplicações é na gestão da cadeia de distribuição - com empresas como a Walmart e a Foxconn a adotarem esta tecnologia.

A blockchain foi criada para ser uma base de dados descentralizada e aberta, mas muitos projetos que hoje existem são lançados por empresas em sistemas fechados. Isto não vai contra o seu propósito original?
Alguns sistemas serão fechados. É totalmente razoável que um banco queira restringir um sistema aos seus clientes. No geral, estas novas plataformas são grandemente descentralizadas e abertas.

O sector privado está a fazer o suficiente para escalar e impulsionar esta tecnologia ou os governos vão ter de avançar?
Os dois vão acontecer. Existem grandes apostas no sector privado. Mas no caso das criptomoedas, os portugueses não vão utilizar todos a bitcoin daqui a 20 anos. Vão usar o escudo digital. Ao tornarem o escudo uma criptomoeda, os bancos centrais têm ferramentas mais poderosas para gerir a oferta de moeda e a economia. Haverá maior transparência e um toque mais leve de regulação, para dar apenas alguns exemplos.

d.r.

Tem como objetivo tornar o Governo português membro do BRI. Porquê?
Todos os governos vão ser transformados pela internet do valor, mais do que foram com a antiga internet da informação. Existem várias oportunidades. Pode ajudar-nos a construir modelos de democracia mais seguros e robustos, possibilitando finalmente o voto online, a melhorar a transparência e o envolvimento dos cidadãos. Talvez mais importante é o facto de a blockchain estar a tornar-se o coração da economia da inovação. Lisboa tem uma grande oportunidade de se tornar a Silicon Valley da segunda era da internet. Mas os governos precisam de criar as condições para a inovação. Este é provavelmente o momento mais difícil para se ser regulador, na medida em que a força irresistível da inovação precisa de atender ao objeto imutável do interesse público na proteção dos investidores e estabilidade dos mercados de capitais.

Estão em negociações com o Governo português no sentido de o tornar membro do BRI? Como estão a correr?
Estamos a falar com diferentes pessoas no Governo português e existe muito interesse. Mas até agora ainda não encontrámos o decisor certo.

Quantos governos já têm no BRI e de que forma os ajudam?
Até à data, temos cerca de seis organizações governamentais envolvidas e um banco central. Na semana passada, encontrei-me com o Presidente Macri, da Argentina, que se mostrou muito entusiasmado em tornar-se membro do BRI. Já me encontrei com outros chefes de Estado e apreciaria muito a oportunidade de me encontrar com o primeiro-ministro [António] Costa e o Presidente [Marcelo Rebelo] de Sousa.

A posse dos dados pelos utilizadores está a tornar-se cada vez mais importante, especialmente após a polémica do Facebook e da Cambridge Analytica. Muitos dizem que a blockchain podia ter evitado um escândalo como este porque as pessoas teriam mais controlo sobre os seus dados. Concorda?
Os dados são o novo petróleo — a nova classe de ativos da era digital. Os nossos dados e identidades têm sido captados por grandes conglomerados digitais e a internet tornou-se centralizada e hierárquica. Chamemos-lhe ‘feudalismo digital’ — nós, servos, criamos o valor, mas os latifundiários apenas nos deixam ficar com um repolho ou dois. Precisamos de ter as nossas identidades de volta para usarmos os dados para planear as nossas vidas, monetizá-las e proteger a nossa privacidade. Cada país deve implementar uma identidade independente para que os cidadãos possam gerir os seus próprios dados. Isto dá o poder ao indivíduo e remova o controlo central por parte de conglomerados globais ou governos maliciosos.

Mas pode a blockchain ser uma solução para redes sociais como o Facebook evitarem estas situações? Ou é uma alternativa a estas?
Duvido que o Facebook queira dar a propriedade dos dados aos utilizadores. Destruiria o seu modelo de negócio atual. O Facebook deve adotar um novo modelo para evitar a sua morte. Mas não o irá fazer.

É possível que a blockchain seja bem-sucedida, mas a bitcoin — com as suas desvalorizações recentes — seja uma bolha condenada ao fracasso?
A bitcoin vai sobreviver. A correção atual no seu preço é normal e natural. A blockchain, no entanto, pode constituir os alicerces de um novo modelo empresarial, do governo do século XXI, da prosperidade, ciência, das lutas contra as alterações climáticas e democracias mais robustas, para dar alguns exemplos. Posso estar errado, mas tenho apontado as grandes mudanças tecnológicas desde os anos 70 e ainda não me enganei.