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Febre solar chega a Trás-os-Montes

Novas centrais solares em Portugal não têm direito a tarifas subsidiadas

FOTO ALBERTO FRIAS

Dois projetos de €75 milhões vão mudar a paisagem de Mogadouro e o mix energético da região

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A febre do investimento em centrais fotovoltaicas de larga escala em Portugal tem incidido sobretudo na região do Alentejo, mas está a alastrar a outras áreas do país, onde o potencial de produção de energia solar também existe. É o caso de Trás-os-Montes. Este ano já deram entrada no portal das consultas públicas dois projetos de grande porte, de dimensão semelhante à histórica central da Amareleja (em operação há 10 anos), que poderão mudar a paisagem e o perfil energético do concelho de Mogadouro.

O primeiro projeto esteve em consulta pública, para avaliação de incidências ambientais, em maio. Promovida pela empresa Ignichoice, a “Central Fotovoltaica de Mogadouro” prevê um investimento de €35 milhões, para instalar uma potência de 49 megawatts (MW). A central empregará 50 pessoas na construção (que durará 8 a 12 meses) e cinco na exploração, e produzirá anualmente 81 gigawatts hora (GWh).

Já a “Central Solar Fotovoltaica da Mina” tem o seu estudo de incidências ambientais em consulta pública até 26 de novembro. É promovida pela empresa Enerfont, que prevê um investimento de €40 milhões. A potência será de 46 MW. O emprego previsto é também de meia centena de pessoas na construção (com duração prevista de 12 meses). Produzirá 70,5 GWh por ano.

No seu conjunto as duas centrais ocuparão 161 hectares junto ao IC5, que liga Alfândega da Fé a Miranda do Douro. Se as estimativas dos promotores estiverem certas, produzirão 151,5 GWh anuais, o suficiente para cobrir 75% do consumo elétrico anual de toda a região de Trás-os-Montes, que conta com 94 mil clientes. Mas a produção real poderá ser inferior, porque a capacidade existente na rede elétrica hoje é inferior à potência das duas centrais.

DE ONDE VEM O DINHEIRO?

Na vaga de grandes projetos solares em Portugal, muitas centrais vêm sendo promovidas por empresas sem grande histórico na produção de eletricidade, que tratam de desenvolver os projetos, adquirir ou arrendar os terrenos, e tratar do licenciamento (ambiental e energético). Com tudo isso resolvido, esses promotores tratam da etapa final: encontrar o investidor que efetivamente aporte o dinheiro para a construção, e um comprador de longo prazo para a eletricidade (condição-chave para o investidor avançar ou para os bancos financiarem).

A Ignichoice é uma empresa criada em novembro de 2017 em Viseu, tendo em junho deste ano mudado a sua sede para o Porto. É detida pela recém-criada Reflekger, cujos acionistas não conseguimos identificar, e administrada por Óscar Barros, um consultor fiscal que de 2008 a 2011 esteve na Martifer, e que antes já tinha passado pela KPMG e PwC. Óscar Barros confirmou ao Expresso que o projeto de Mogadouro está “em fase final de licenciamento” e que a empresa está a tratar dos contratos de venda de energia e de financiamento. “Tudo está a ser tratado atempadamente de forma a que este projeto possa ser construído no decorrer do próximo ano”, afirmou o gestor.

Já a Enerfont foi criada em 2007 em Leiria por um empresário local, Agostinho Ribeiro, que este ano passou a ter outros dois empresários leirienses como sócios. O fundador da empresa explicou ao Expresso que o projeto de Mogadouro está ainda “numa fase embrionária”, sendo cedo para avançar mais pormenores.

Para que ambos os projetos saiam do papel precisarão ainda de obter licenciamento por parte da Câmara Municipal de Mogadouro, esclareceu ao Expresso o vice-presidente desta autarquia, Evaristo Neves. “Acreditamos que este investimento será gerador de emprego na fase de construção, bem como na fase de exploração”, acrescenta o autarca.

“Não tenho conhecimento de outros projetos relevantes neste sector para o concelho, na certeza, porém, de que Mogadouro é dos concelhos com maior número de horas solares, em média diária”, afirmou ainda Evaristo Neves.