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País das maravilhas para turistas da casa

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A maioria dos portugueses ainda continua a optar por ser turista dentro do seu país, com as viagens pelas várias regiões do território nacional perfiladas no topo das preferências

O fim da viagem é apenas o começo de outra”, escreveu José Saramago em “Cadernos de Lanzarote” (1994), lembrando que “é preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar novos caminhos ao lado deles”. No íntimo de cada viajante, nos seus passos, há um encanto semelhante ao de Alice, num país das maravilhas de descobertas sem fronteiras. Assim é Portugal, com incontáveis universos dentro, como um viveiro de diversidade cultural, capaz de continuar a alimentar a paixão dos portugueses pelos encantos e recantos do nosso país. O povo que se aventurou por mares nunca antes navegados preserva indelével o fascínio pelos descobrimentos da terra onde o imaginário coletivo está plantado.

Os números são claros. Como algodão. E não enganam. Tal como os prémios, que chegam em catadupa. Portugal foi eleito em 2018, pela segunda vez consecutiva, como Melhor Destino Europeu, nos World Travel Awards, e recebeu, entre janeiro e agosto deste ano, mais de 14 milhões de turistas. Desses, mais de 5,5 milhões de visitantes são cidadãos nacionais, de acordo com dados provisórios do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados a 15 de outubro. Todos aqueles que optam por ir para fora cá dentro escolhem, sobretudo, as regiões Norte 
(1426 milhões de hóspedes residentes), o Centro (1266 milhões) e a Área Metropolitana de Lisboa (1162 milhões).

Mas como explicar o apetite dos portugueses pela riqueza cultural e patrimonial nacionais, mantendo insaciável a fome de novas experiências? O Expresso partiu numa odisseia, em busca de respostas e fatores que ajudem a sustentar a procura interna das várias regiões do território como destino de férias. “Há um hábito cultural e socioeconómico de fazer férias cá dentro. Esse é o principal argumento. O segundo tem a ver com a crescente diversidade da oferta”, começa por explicar Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal. Diz-nos a sabedoria popular que não há duas sem três e o dirigente lança uma pergunta que é, simultaneamente, uma resposta. “Se vemos tantos estrangeiros com vontade de descobrir Portugal, por que motivo é que nós próprios não haveremos de descobrir?”

FATOR HUMANO É PATRIMÓNIO IMATERIAL

Prosseguindo viagem de navegação para compreender a preferência dos portugueses pela sua pátria como destino turístico, a bússola das estatísticas — que pintam o “Retrato de Portugal na Europa” — aponta para que 68 por cento dos cidadãos nacionais decidam viajar no país. A elevada taxa faz com que Portugal ocupe a quinta posição dentro dos Estados-membros da União Europeia, num ranking em que os búlgaros são os mais fiéis (86 por cento) no que confere ao turismo interno, seguidos pelos romenos, gregos e croatas. Por outro lado, apenas 10 por cento da população nacional faz férias no estrangeiro, relegando o nosso país para o último lugar de uma tabela liderada pelo Luxemburgo, em que 97 por cento dos habitantes fazem férias fora do pequeno país.

Um olhar atento para estes dados pode levar à conclusão de que países com uma população com um poder de compra inferior se assumam como campeões do turismo interno. Mas será o peso na carteira o único fator a ser colocado na balança? “A relação qualidade-preço é determinante”, admite o presidente do Turismo de Portugal, mas frisa que “o fator humano é preponderante”, visível numa “capacidade para receber quem nos visita, reconhecida a nível nacional e internacional”. Luís Araújo acrescenta que, de acordo com um estudo efetuado pela estrutura que lidera desde fevereiro de 2016, “98 por cento dos visitantes viram as expectativas ultrapassadas e manifestam o desejo de regressar”.

A “facilidade de ir de uma ponta à outra do país ajuda a procura”, prossegue o responsável do Turismo de Portugal, realçando as “experiências cada vez mais gratificantes, ao longo de todo o ano, por todo o território” de um país que é mais do que sol e mar. “Dois terços do crescimento verificado em 2017 ocorreu fora dos principais destinos. Isso demonstra que estamos a conseguir mostrar um Portugal completo e que tem tanto interesse como as principais portas de entrada”, afirma Luís Araújo.

O TRUNFO DA DESCENTRALIZAÇÃO E O TRIUNFO DO CENTRO

Num momento em que tanto se fala de descentralização, o sector aumenta a olhos vistos em regiões como os Açores, o Alentejo e, sobretudo, o Centro, onde o crescimento do turismo, verificado pelo INE, cresceu 14,52 por cento no último ano face a 2016, fazendo com que o desempenho da atividade tenha sido o melhor de sempre, com 5.654.683 de dormidas, coincidentes com o despertar das calamidades, quando o país ardia por dentro. “Teve um papel forte a grande promoção que o Turismo de Portugal fez em relação ao Centro, de forma a reposicionar a região no mapa, para que as pessoas circulem por esses territórios”, enaltece o dirigente, para quem a atividade contribui largamente para “impulsionar o empreendedorismo".

Partir à procura de Portugal é, assim, uma tradição bem nacional, modernizada e ajustada aos novos tempos. Os visitantes internos deixam-se cativar pelas mundividências do seu país. Descobrem os cantos à casa da pátria, explorando novas divisões, revolvendo o passado na ânsia de semear um futuro baseado no constante abraço com as origens. “É preciso recomeçar a viagem. Sempre”, lembra-nos este regresso às palavras de Saramago.