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O que é a “energiewende”? Fomos visitar o mais recente exemplo no meio do mar

A Iberdrola recorreu à empresa alemã 50 Hertz para montar e operar a subestação a partir da qual a energia segue por cabo submarino até terra

d.r.

Angela Merkel fez da aposta nas renováveis uma bandeira, um caminho sem regresso. A Iberdrola, que embarcou nessa missão, acaba de inaugurar em águas alemãs um projeto de 1,4 mil milhões de euros. Para Alex, que nos guia numa viagem no Báltico, as renováveis não são uma alternativa, são uma obrigação

Miguel Prado

Miguel Prado

em Sassnitz, no Mar Báltico

Jornalista

Com mais de 50 quilómetros de comprimento, Rügen é a maior ilha da Alemanha. Foi aí que Adolf Hitler iniciou, em 1936, a construção do que seria uma gigantesca estância balnear, Prora. Um enorme edifício estendia-se por quatro quilómetros, junto ao mar, para funcionar como destino de férias do regime nazi. Mas, com a eclosão da II Guerra Mundial, a infraestrutura, quase completa, não serviu o seu propósito. Está hoje a ser reabilitada, para habitação e turismo, por várias empresas. Mas não é só pelo legado de Prora que a ilha de Rügen ficará para a História.

Prora fica numa baía que liga as localidades de Binz e Sassnitz. É junto a Sassnitz que está hoje o armazém com as tubagens que serão usadas no troço alemão do gasoduto Nord Stream 2. E é também aqui que a empresa espanhola Iberdrola instalou a sua base operacional para construir, a partir de 2016, o seu primeiro parque eólico offshore na Alemanha.

O parque, inaugurado esta segunda-feira, leva o nome Wikinger, e, números redondos, traduz-se nisto: 1400 milhões de euros de investimento, 350 megawatts (MW) de potência, 70 torres eólicas no mar, eletricidade suficiente para abastecer 350 mil famílias.

O parque de Wikinger fica junto a um outro complexo eólico offshore, explorado pela empresa alemã E.On, perto da fronteira marítima com a Dinamarca

O parque de Wikinger fica junto a um outro complexo eólico offshore, explorado pela empresa alemã E.On, perto da fronteira marítima com a Dinamarca

d.r.

O novo parque eólico é fruto da vontade alemã em apostar nas energias renováveis. Em 2010 Angela Merkel reabilitou a expressão “energiewende”, sinónimo de “transição energética”. Essa missão ganhou sentido de urgência em 2011, após o acidente de Fukushima, no Japão, levando a Alemanha a decidir abandonar a energia nuclear, apostando mais nas renováveis. E a “energiewende” ficou, contagiando a política energética europeia. Não deixa de ser sintomático que na recente remodelação governamental em Portugal João Pedro Matos Fernandes tenha passado a ser o ministro do Ambiente e… da Transição Energética.

Política à parte, a verdade é que as renováveis fazem hoje parte de como produzimos e consumimos energia. Por vezes mais caras (como na eólica offshore), outras vezes mais baratas (como nas novas centrais solares), as fontes limpas de eletricidade são uma realidade do nosso dia a dia. E, em alguns casos, determinantes na vida dos cidadãos. É o caso de Alexander Vadell, um dos muitos engenheiros que de há dois anos a esta parte se envolveram em fazer nascer o parque de Wikinger.

Alexander, 36 anos, não é um estreante nestas andanças. “Nestas viagens é melhor comer alguma coisa do que não comer nada”, recomenda. A ondulação do Mar Báltico, nos 40 quilómetros que vão do porto de Sassnitz até ao novo parque eólico, não é violenta, será talvez metro e meio de onda. Mas as mais de duas horas de percurso vão moendo o estômago de quem não nasceu para marinheiro. Alexander, ou Alex, como se apresenta, está como peixe na água, habituado às múltiplas viagens de barco para acompanhar o andamento de Wikinger.

A 40 quilómetros da costa, a manutenção das torres pode ser feita por barco ou helicóptero

A 40 quilómetros da costa, a manutenção das torres pode ser feita por barco ou helicóptero

d.r.

Alexander Vadell já trabalhou num projeto de armazenagem subterrânea de gás da Gazprom. Mas acabou por se virar para os negócios das renováveis, descontente com a forma como as indústrias ligadas aos combustíveis fósseis vinham conseguindo afirmar-se na economia alemã. Alex trabalha desde 2015 para a Global Tech, empresa alemã que fornece serviços a promotores de parques eólicos offshore.

Para aqui chegar precisou de fazer cerca de 20 formações técnicas e respetivas certificações. E não basta isso. “Se se vai trabalhar nesta indústria [offshore] tem de se ser flexível, porque são 14 dias de trabalho e 14 dias de descanso. Mas até acho isso melhor do que trabalhar cinco dias por semana e descansar dois”, conta Alexander, que no projeto de Wikinger assumiu uma posição de coordenação entre várias áreas, garantindo que as normas de segurança são cumpridas.

Para este jovem engenheiro, a indústria eólica offshore está longe de estar esgotada. Há mar e mar. Há espaço para novos parques eólicos. E quem diz o contrário, que a eólica offshore na Alemanha já não crescerá muito mais? “É treta, os media às vezes vêm com isso, mas são fakenews”, desabafa Alex. Que também contesta a ideia de que as eólicas offshore matam aves em migração. “Estamos obrigados a contratar empresas de estudos ambientais. Elas monitorizam este parque. E nada! Não há aves a serem apanhadas pelas pás”, acrescenta este funcionário da Iberdrola em Wikinger, notando que as plataformas das torres até são usadas por muitas aves como poiso para descanso.

Alex mostra gostar do que faz. Ganha-se bem. Para quem pensa trabalhar nesta indústria é uma questão de se habituar ao ritmo. Metade do mês deslocado de casa, em serviço. Doze horas diárias de trabalho, sete a dormir, quatro ou cinco para alimentação e lazer. Os colegas jogam Playstation. Alex prefere ler. A bordo não há cerveja. E ao fim de 10 ou 11 dias “começa-se a contar as horas para ir para casa”. Mas vale a pena, acredita Alex.

UMA APOSTA CARA

A transição energética que Angela Merkel quis fomentar não é apenas, claro está, a criação de empregos como o de Alex. É, acima de tudo, uma política que visa pôr um país a depender mais de si mesmo do que dos outros, apostando nas fontes endógenas, renováveis. Mas a “energiewende” alemã não é uma máquina perfeita.

O impulso que a Alemanha deu às fontes renováveis incluiu alguns estímulos que nos próximos anos ainda pesarão na fatura dos consumidores. O projeto agora inaugurado pela Iberdrola é apenas um exemplo disso. Adquirido pela elétrica espanhola já em 2010, a iniciativa Wikinger assegurou, da legislação alemã, o direito a vender à rede a sua eletricidade a 194 euros por megawatt hora (MWh), durante 11 anos.

Ora, este preço é o quádruplo do que custa atualmente a eletricidade no mercado grossista alemão (48 euros por MWh). E mais do triplo do preço do MWh no Mercado Ibérico de Eletricidade (Mibel), 60 euros. Se toda a energia futura viesse a custar o que custam as eólicas offshore hoje em exploração, as carteiras das famílias alemãs sentiriam um aperto.

É também verdade que ao fim de pouco mais de uma década os alemães poderão ter importantes volumes de energia limpa a um preço virtualmente próximo do zero (o investimento estará amortizado e o custo que os parques precisarão de recuperar é o da manutenção). Mas o custo de alguns projetos antigos que agora veem a luz do dia vai à fatura dos consumidores.

O governo de Merkel promoveu entretanto vários leilões para licenciar novos projetos de energia eólica e solar. O objetivo é que a Alemanha até 2030 tenha 65% da sua eletricidade proveniente de fontes renováveis (no primeiro semestre deste ano foram 36%). Para isso o Executivo comprometeu-se a lançar vários leilões até 2020.

No entanto, tem havido alguma demora no lançamento de concursos para eólicas em terra, alegadamente devido a dúvidas sobre a existência de locais suficientemente interessantes, em termos de recurso eólico, para a construção de novos parques.

IBERDROLA: UM LUGAR AO SOL

Certo é que a Iberdrola, com Wikinger mas não só, já garantiu o seu lugar ao sol (e ao mar). “Estamos claramente a apostar nas renováveis e no mar”, conta Patrícia Salamanca, responsável pelos projetos offshore da elétrica espanhola. “Investimos em países com regulação estável e condições técnicas”, acrescenta.

O discurso de Patrícia parece (e provavelmente é) estudado e ensaiado. Para gigantes cotados em bolsa como a Iberdrola a incerteza regulatória é pior que uma tempestade em alto mar. Mas para já a empresa pode contar com os projetos seguros e licenciados, que a ocuparão nos próximos anos.

Na Alemanha, a Iberdrola acrescentará ainda 10 MW a Wikinger e irá desenvolver, também junto à ilha de Rügen, um novo parque de 476 MW. A estes projetos o grupo espanhol soma outros parques offshore para construir em França, Reino Unido e Estados Unidos da América. Há mar e mar. E para quem se lançou nesta aventura, a eólica offshore é cada vez mais um caminho sem regresso. A tal transição energética. Ou Energiewende, conforme as águas em que naveguemos.

O jornalista viajou a Sassnitz a convite da Iberdrola