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Contágio italiano. Spread para a dívida dos periféricos sobe em outubro. Portugal não foi o mais castigado

O chumbo de Bruxelas ao orçamento apresentado por Itália culminou um mês de tensões entre a terceira maior economia do euro e a Comissão Europeia. Os spreads da dívida dispararam para Itália e subiram significativamente para a Grécia, Eslovénia e Espanha. O prémio exigido a Portugal e à Irlanda aumentou muito menos

O contágio italiano fez-se sentir em outubro no mercado da dívida dos periféricos do euro, sobretudo para a Grécia, Eslovénia e Espanha. Portugal e Irlanda foram menos afetados.

O prémio de risco de Itália, o spread exigido pelos investidores na compra de dívida pública, disparou em outubro 37 pontos-base (0,37 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã que serve de referência), fechando o mês em 303,7 pontos-base. O prémio para Portugal subiu apenas 6 pontos-base, de 140,3 para 145,5 pontos no mesmo período. O spread exigido a Itália é, atualmente, mais do dobro do pedido a Portugal.

O prémio de risco transalpino chegou a um máximo de quase cinco anos, registando 338 pontos-base no auge do braço de ferro entre Bruxelas e Roma a propósito do orçamento expansionista do governo italiano para 2019, o qual foi chumbado pela Comissão Europeia. Roma tem até 13 de novembro para responder com retificações dos objetivos orçamentais, ou manter a estratégia.

Os economistas discutem até onde pode subir aquele spread sem que haja uma situação crítica para o sector financeiro italiano (banca, seguros, fundos) que detém 36,6% da dívida pública do país. As linhas vermelhas variam entre 400 e 500 pontos-base (4 a 5 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã), o que apontaria para juros da dívida a 10 anos entre 1 a 2 pontos percentuais acima do nível atual que está em 3,5%, se os juros para as Bunds alemãs, naquele prazo, se mantiverem numa banda entre 0,4% e 0,5%.

Itália em 7º lugar no ‘clube’ de maior risco de default

Um outro indicador vermelho vem do custo dos seguros contra o risco de incumprimento de Itália num prazo de cinco anos, instrumentos financeiros conhecidos pelo acrónimo CDS (de credit default swaps, em inglês), que subiram de 247,8 pontos-base para 267,98 ao longo do mês. O que coloca a Itália em 7º lugar no ‘clube’ dos 10 países com os CDS mais elevados, onde se encontram, também, a Venezuela, Argentina, Ucrânia, Grécia, Turquia, Egito, África do Sul, Brasil e Indonésia, por ordem decrescente.

A probabilidade implícita de incumprimento a 5 anos da dívida italiana ainda é ligeiramente inferior a 5%, mas é mais de quatro vezes superior à para Portugal, que se situa em 1,7%, com um custo dos CDS de 100,9 pontos.

O governador do Banco de Itália, Ignazio Visco, advertiu, esta semana, que a subida do prémio de risco e do custo dos CDS implica em 2019 um aumento de €5000 milhões na fatura de juros anuais. Visco sublinhou que esta dinâmica negativa é alimentada pelo aumento do risco de incumprimento da gigantesca dívida italiana (€2,3 biliões, a maior da zona euro, quase 10 vezes a portuguesa) e pela possibilidade de saída do euro, de redenominação da moeda – dois fatores, disse o governador, que se “alimentam mutuamente”.

Grécia, Eslovénia e Espanha foram os mais contagiados nos restantes periféricos do euro em outubro. Os prémios subiram respetivamente dezanove, dezassete e quinze pontos. Para Irlanda e Portugal, a subida foi apenas de 6 pontos.

Lisboa e Roma pagaram mais em leilões de dívida

Apesar do juro (yield) a 10 anos no mercado secundário da dívida ter fechado em outubro praticamente idêntico ao valor do encerramento de setembro, ficando ligeiramente abaixo de 1,9%, o Tesouro português pagou no leilão de 10 de outubro a taxa mais alta desde fevereiro, quando a linha de Obrigações do Tesouro a vencer em 2028 foi lançada.

Na operação realizada a 10 de outubro, o Estado português pagou 1,939%, face a um mínimo histórico de 1,67% em maio e a 1,854% pago no leilão de setembro. No primeiro leilão desta linha, em fevereiro, o Tesouro teve de pagar 2,046%.

No caso do Tesouro italiano, no leilão realizado na terça-feira, Roma pagou 3,36%, face a 2,9% na operação similar anterior.

  • Adivinhe quem é o principal credor da dívida italiana

    A primeira tentação é pensar que é alguma troika. Frio. A Itália não foi resgatada. Pelo menos ainda não. A segunda tentativa será apontar o dedo ao BCE. Morno. Não, não é o banco chefiado por Draghi. A resposta certa é: o Banco de Itália, que, naturalmente, pertence ao sistema de bancos centrais nacionais do euro e que tem assumido o risco de comprar o grosso das obrigações italianas ao abrigo do programa que Draghi decidiu colocar em marcha desde março de 2015