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O que tem a economia a ver com transplantes de rins? Tudo

Alvin Roth Economista e vencedor do Prémio Nobel da Economia de 2012

O economista Alvin Roth defende que se os mercados não estão a funcionar bem “devemos arranjá-los”

O economista Alvin Roth defende que se os mercados não estão a funcionar bem “devemos arranjá-los”

Se quando se fala em mercados pensa em ações, obrigações, petróleo e outras commodities, onde uma transação depende apenas do ajuste do preço, pense melhor. Os mercados “são um fenómeno muito mais abrangente e tocam tudo o que fazemos”. Quem o diz é Alvin Roth, economista e vencedor do Nobel da Economia de 2012 (com Lloyd Shapley). Roth, cuja investigação incide na Teoria dos Jogos e no desenho dos mercados, desenvolveu sistemas para, por exemplo, ‘casar’ médicos com hospitais, crianças com escolas e dadores de órgãos, como os rins, com doentes.

Em Lisboa, onde recebeu o Doutoramento Honoris Causa da Universidade de Lisboa, por sugestão do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), Alvin Roth conversou com o Expresso e explicou que nem todos os mercados dependem apenas do ajuste de preços. “Em muitas das coisas mais importantes que fazemos importamo-nos com quem estamos a lidar.” Empregos, por exemplo. Ora, “mercados que dependem de construir relações têm de ter outras instituições [além do fator preço], de forma a que as pessoas que queiram transacionar se consigam encontrar. É por isso que gosto da analogia com o casamento: é preciso haver namoro”, frisa. São o que Roth chama de “matching markets” (mercados de encontro).

Um exemplo é o mercado de rins, que o economista ajudou a desenvolver nos Estados Unidos, para ajudar a resolver o problema da escassez deste órgão para transplantes. “Os rins são um órgão especial, porque as pessoas saudáveis têm dois e podem permanecer saudáveis apenas com um”, lembra Roth. Ou seja, “é possível dar um rim a alguém que se ama e que precise, como um irmão, se houver compatibilidade”. Mas, se não houver, o doente continua à espera de um órgão de um dador falecido, o que pode demorar muito tempo.

“É aqui que os economistas entram, com o mercado de rins”, destaca o economista. “Com um mercado deste tipo é possível encontrar outro par” compatível. Assim, “conseguem-se fazer dois transplantes”, explica, destacando que, hoje, nos Estados Unidos, “muitas vezes temos longas cadeias de pares — já tivemos com 80 pessoas”.

Como é que o sistema funciona? Em primeiro lugar é preciso construir uma base de dados, onde as pessoas se registam em pares de doente e doador. Depois, numa ‘troca’ de rins entre pares, habitualmente fazem-se as operações ao mesmo tempo, “para garantir que nenhum par dá um rim sem obter outro em troca, já que não é possível assinar um contrato”, explica Alvin Roth. Mas, os Estados Unidos deram um passo em frente. “Quando há um doador não direcionado, ou seja, alguém que quer doar um rim sem um destinatário específico, pode-se organizar uma cadeia em que cada doente recebe um rim antes de o doador com quem forma par dar o seu.” Resultado: “Se em determinado ponto a cadeia se quebrar não é uma tragédia.” Tudo porque o par que não receber um rim, por causa da quebra da cadeia, ainda não deu, por sua vez, um órgão. Por isso, “pode participar noutra troca”. E continua: “Temos empurrado a fronteira. E esperamos empurrá-la ainda mais, convidando a participação de pessoas de outros países.”

Transações repugnantes

O mercado de rins levou Alvin Roth a estudar o que chama de “repugnant markets” (mercados repugnantes). “Quando falo numa transação repugnante, o que quero dizer é uma transação em que algumas pessoas se querem envolver, mas outras pessoas consideram que não se deve fazer.” O que é diferente de país para país. O economista está envolvido num estudo que abrange Estados Unidos, Espanha e Alemanha, sobre três dimensões: mercado global de rins (ou seja, envolvendo pessoas de outros países); gestação de substituição; e prostituição.

“As leis nestes três países são todas diferentes”, aponta Alvin Roth. Na Califórnia, a troca de rins é legal e a gestação de substituição também, mas a prostituição é ilegal. Na Alemanha, a prostituição é legal, mas a gestação de substituição e a troca de rins não são. E em Espanha tem havido muita oposição profissional, por parte da autoridade nacional de transplantes, ao mercado global de rins, a gestação de substituição é ilegal e a prostituição está numa zona cinzenta. Mas “temos conduzido inquéritos representativos à população destes países e, com exceção do facto de os americanos realmente não gostarem da prostituição, os três são bastante similares. A população em geral aprova a troca global de rins, aprova a gestação de substituição e, na Alemanha e em Espanha, não desaprova muito a prostituição”, revela Alvin Roth.

Num mercado como o de órgãos, a repugnância está muitas vezes associada à questão de saber se há dinheiro envolvido na troca. “Se alguém me quiser dar um rim é uma coisa maravilhosa, mas se me quiser vender um rim é um crime nos Estados Unidos, em Portugal e na maioria dos países do mundo, com exceção da República Islâmica do Irão, onde há um mercado monetário legal para rins”, aponta Alvin Roth. Outra questão a estudar “é que quando tentamos banir certos mercados, às vezes estamos, de facto, a desenhar ‘mercados negros”, frisa o economista.

“Os mercados, incluindo os mercados ‘negros’ [isto é, ilegais], são artefactos humanos, são ferramentas que desenvolvemos para ajudar-nos a cooperar uns com os outros. E se não estão a funcionar bem, então, tal como fazemos com outras ferramentas, devemos arranjá-los. É nossa responsabilidade fazer os mercados funcionarem melhor”, defende Alvin Roth. E deixa uma última ideia: a investigação sobre o desenho dos mercados “pode ajudar” a resolver problemas globais como a recolocação de refugiados. “Se o nível do mar continuar a subir, vamos ter cada vez mais migrações em grande escala. E é melhor que aprendamos a fazer um trabalho melhor do que agora a lidar com elas.”