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Os riscos que vão complicar a vida a Centeno

'Ronaldo' Centeno veio de Bali com os mercados em polvorosa por causa do pessimismo do FMI

tiago miranda

Trump, Itália e emergentes podem estragar as contas do Excel do superministro das Finanças

Mário Centeno não trouxe boas notícias da Indonésia. O ministro das Finanças participou, esta semana, em Bali, na assembleia geral conjunta do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial e o seu proverbial sorriso deve ter-se perdido no resort indonésio. O FMI deixou um sério aviso ao rever em baixa as previsões de crescimento mundial e do comércio internacional até 2023.

Na fotografia tirada em Bali, Portugal também não ficou bem. As previsões do FMI para o crescimento da economia portuguesa são inferiores às de Centeno em cinco décimas nos próximos dois anos e em sete décimas em 2021 e 2022. Na redução do défice, o Fundo também é mais pessimista. Não acredita que se atinja um excedente orçamental antes de 2022, dois anos depois da meta do Programa de Estabilidade português apresentado em abril. Washington duvida, ainda, que se consiga reduzir o peso da dívida pública no PIB ao ritmo que Centeno prevê até 2022. Nesta data, o ministro aponta para 102% do PIB e o FMI projeta 105,8%. A ‘prenda’ mais amarga em Bali seria dada pelo ex-ministro Vítor Gaspar — Portugal é o país que tem a pior situação patrimonial pública em 31 países analisados (ver gráfico).

Portugal tem uma das piores situações patrimoniais públicas do mundo. o FMI fez as contas ao balanço do sector público de 31 países, ou seja, a diferença entre ativos e passivos, e Portugal é o que tem pior situação patrimonial. Tem um valor negativo a rondar 125% do PIB

Portugal tem uma das piores situações patrimoniais públicas do mundo. o FMI fez as contas ao balanço do sector público de 31 países, ou seja, a diferença entre ativos e passivos, e Portugal é o que tem pior situação patrimonial. Tem um valor negativo a rondar 125% do PIB

Pior, contudo, é o que ainda não está incorporado nas previsões do FMI e que poderá implicar uma atualização bem negativa em janeiro. Não foi só o ministro português, e presidente do Eurogrupo, que ficou abalado. Os mercados financeiros apanharam um choque. As bolsas registaram a terceira pior sessão deste ano na quarta-feira, no dia em que o FMI alertou que o sistema financeiro corre sérios riscos, com pontos de ignição potenciais no contágio italiano e na turbulência nos mercados emergentes. Há três riscos principais que podem atrapalhar as contas de Centeno.

Risco 1

Guerra comercial
O PIB mundial pode sofrer um impacto de 1% nos dois próximos anos no pior cenário de uma escalada na guerra comercial simulado pelo FMI. Este cenário mais adverso considera que a guerra comercial foi estendida a toda as exportações chinesas para os EUA, que Trump abriu a frente da guerra contra os automóveis e componentes importados de todos os seus parceiros, que a confiança dos investidores internacionais sofreu um abalo e que os mercados reagiram apertando o financiamento à economia real. O ministro português tem, contudo, uma folga. O impacto da escalada na guerra comercial na zona euro, onde se concentram os principais clientes do país, vai ficar em 2019 em metade do que é previsto para a economia mundial (ver gráfico).

Risco 2

Contágio italiano
O FMI incluiu a incerteza política italiana no risco de incerteza global. O contágio italiano pode afetar alguns periféricos do euro onde o sector bancário está mais exposto à dívida pública do país, avisou o Global Financial Stability Report, do Fundo. Além de Itália, o epicentro, Portugal, Bélgica e Espanha estão na linha da frente do contágio por via daquela relação entre banca e dívida pública (ver gráfico). Outubro está a ser um primeiro ensaio. Os juros da dívida italiana a 10 anos já atingiram um máximo de mais de quatro anos, consolidando-se acima de 3,5%, e as taxas pagas pelo Tesouro português no leilão desta semana de obrigações naquele prazo de referência foram as mais elevadas desde fevereiro. Centeno pode ter de contar com o fim de um custo de financiamento nas operações de mercado que está em mínimos históricos, abaixo de 2%.

Risco 3

Mercados emergentes
O FMI não diz, ainda, que pode vir aí uma crise nas economias emergentes com a dimensão das que ocorreram entre 1994 e 1999. Mas avisa que os riscos se acumulam. A subida das taxas da Reserva Federal dos EUA, alimentando um dólar mais caro, dificultam o financiamento da dívida externa dos emergentes, em larga medida dolarizada. Os juros da dívida norte-americana acima de 3% são mais atraentes para os capitais internacionais. O FMI simulou um cenário adverso em que ocorre uma saída de capitais dos emergentes na ordem de 100 mil milhões de dólares até final de 2019. Se tudo isto se conjugar com os impactos da guerra comercial na China, o epicentro das trocas comerciais de muitas economias emergentes importantes, temos um cocktail de risco perfeito.