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Bolsas perderam perto de €3 biliões na pior semana do ano

Cada período gera riscos e fragilidades específicos que a qualquer momento podem pôr em causa a estabilidade financeira

TIMOTHY A. CLARY

O índice mundial dos mercados de ações recuou 3,9% esta semana. O estrago na capitalização bolsista é equivalente à soma do PIB de Espanha e Itália e foi pior do que na semana negra de 5 a 8 de fevereiro. Quatro fantasmas de crises tomaram conta do palco mundial, apesar da recuperação de sexta-feira

Os mercados financeiros viveram a pior semana do ano nas bolsas. As perdas à escala mundial foram de perto de €3 biliões, o equivalente à soma do PIB de Espanha e de Itália.

Os fantasmas de várias crises regressaram ao palco mundial e agitaram o ‘sentimento’ dos investidores – espectro de nova Guerra Fria, crise nos emergentes, contágio italiano e colapso nas tecnológicas que exibem alguma “exuberância” nas valorizações bolsistas. Surgiram em pleno dia em Bali, na Indonésia, onde o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM) realizaram, esta semana, a assembleia anual conjunta.

A ameaça de uma nova guerra fria, arrastando uma escalada na atual guerra comercial e a abertura de uma frente de guerra cambial, foi tão forte que as quatro principais organizações multilaterais – o FMI, o BM, a Organização Mundial do Comércio e a Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Económica – se viram obrigadas, em Bali, a uma declaração conjunta contra a estratégia global da Administração Trump.

Apesar da recuperação registada nas bolsas na sexta-feira, sobretudo nos mercados emergentes, na Ásia e em Nova Iorque, o índice mundial MSCI recuou 3,9% durante a semana, com os piores desempenhos na zona euro e nos EUA, com quebras acima de 4%. O estrago no mercado de ações em todo o mundo acabou por ultrapassar as perdas de 2,9% registadas na semana de 5 a 9 de fevereiro.

Pânico financeiro domina Wall Street na quarta-feira negra

O tsunami financeiro fez os piores estragos, em termos relativos, nas duas bolsas chinesas, em Milão e em Estocolmo. As quedas da semana foram lideradas pelo afundamento dos índices de Shenzhen, com uma quebra de 10%, e de Xangai, com um recuo de 7,6%. Na Europa, o índice MIB de Milão perdeu 5,4% e o índice OMXS30 de Estocolmo caiu 6%.

O índice para as duas principais bolsas do mundo, o NYSE e o Nasdaq em Nova Iorque, perdeu 4,1%. O Dow Jones, o índice dos 30 pesos pesados de Wall Street, destacou-se com uma quebra de 4,2% e registou na quarta-feira a terceira maior queda em pontos da sua história. O pânico financeiro dominou a quarta-feira negra em Nova Iorque. O índice que o mede, tecnicamente designado por VIX, disparou quase 44% esta semana.

Na sexta-feira, o abalo terminou, com um ganho mundial de 1%, ainda que, na zona euro, se tivesse registado um recuo de 0,33%, com as praças das economias mais importantes a fecharem em queda, lideradas por Madrid, onde o Ibex 35 perdeu 1,2%. Os investidores tomaram boa nota da expetativa de que se realize um encontro entre Trump e Xi Jinping à margem da cimeira do G20 a 30 de novembro e 1 de dezembro que possa travar a escalada na guerra comercial e evitar o passo seguinte de abrir a frente da guerra de divisas. Os mercados receberam com alívio que o Tesouro norte-americano não deverá declarar a China como país “manipulador de divisa”, apesar da pressão política da Sala Oval para que o secretário do Tesouro Steven Mnuchin o faça na próxima semana.

Apesar destes alívios no final da semana, os riscos permanecem e o FMI deu destaque a quatro ao longo da semana na reunião que realizou num resort de Bali.

O confronto geoestratégico entre EUA e China está para durar

O vice-presidente norte-americano Michael Pence já o declarou oficialmente – a postura geopolítica da Casa Branca em relação a Pequim é de “competição” e não de “cooperação”. Traduzido no plano económico, a guerra comercial é uma arma geopolítica que está para durar.

Se houver uma escalada, o seu efeito na economia mundial poderá chegar ao ‘rombo’ de 1% do PIB mundial em 2019 e 2020, alertou um estudo do FMI divulgado esta semana. Inclusive, como alertou Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, poderá alastrar para o campo da guerra cambial. O secretário do Tesouro Mnuchin transmitiu em Bali ao governador do Banco Popular da China que o tema da desvalorização recente do yuan face ao dólar terá de ser discutido obrigatoriamente em qualquer ronda de negociações que se venha a efetuar no futuro.

A situação de confronto traduziu-se na reunião do G20 realizada em Bali à margem da assembleia geral do FMI e do BM. Não foi publicado nenhum comunicado final do G20 e o ministro das Finanças argentino Nicolas Dujovne, que preside este ano às reuniões do grupo, reconheceu a incapacidade desta plataforma multilateral das vinte maiores economias do mundo em resolver as “diferenças que persistem”.

O fantasma de uma crise nos emergentes regressou

Tudo indica que a principal zona de embate da escalada da guerra comercial e da ‘normalização’ da política monetária do banco central dos EUA (com a subida, mesmo que gradual, da taxa diretora) será o grupo das economias emergentes, que representam 48% do comércio mundial, segundo divulgou o Banco Mundial. Em 2000 pesava 33%.

No pior dos cenários simulado pelo FMI, o impacto da subida da taxa diretora da Reserva Federal nos juros dos títulos do Tesouro norte-americano que já estão acima de 3% no prazo a 10 anos, tornando-os mais atraentes, poderá provocar uma saída dos mercados emergentes de capitais num montante de 100 mil milhões de dólares (€87 mil milhões) nos próximos quatro trimestres. “Um montante similar em magnitude ao que ocorreu durante a crise financeira global”, sublinhou o FMI. Com o ataque simultâneo dos EUA à China, que desempenha um papel crucial na dinâmica dos emergentes, este horizonte suscitou grande preocupação em Bali. O fantasma da crise de 1994 e 1995 nos emergentes, batizada, então, de 'crise da tequila' (por ter começado no México), e da crise asiática de 1997-1998 regressou aos debates em Bali.

O contágio italiano e o regresso de uma crise na zona euro

No capítulo da ‘incerteza política’ que o FMI aponta como risco global, o confronto entre Roma e Bruxelas surge em primeiro lugar, por ora. As duas câmaras do Parlamento italiano aprovaram na quinta-feira a meta do défice de 2,4% do PIB para 2019, em claro desafio à pressão feita pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo próprio FMI em Bali para que a Itália não parasse com a consolidação orçamental com que se tinha comprometido o anterior governo.

O fantasma de que o confronto pode agravar-se na segunda metade de outubro e em novembro, após o orçamento italiano ser apreciado em Bruxelas, também esteve presente em Bali, tanto mais que os juros da dívida italiana a 10 anos chegaram durante a semana a 3,7%, um máximo de quatro anos. A consultora italiana Calipso sublinhou, no entanto, que o risco maior não é um incumprimento da dívida pública (apesar do nível superior a 131% do PIB), mas um precipitado clima de Italexit (saída da Itália do euro), se um compromisso não for obtido. Em Bali, segundo a Reuters, já se alvitravam cenários de resgate a Itália.

O efeito deste braço-de-ferro poderá ser um contágio italiano ao resto dos periféricos do euro, entre eles Portugal e Espanha, e de algumas economias do centro, como a Bélgica.

Exuberância em valorizações nas tecnológicas

O FMI alertou para valorizações excessivas em alguns segmentos dos mercados financeiros e em algumas economias, nomeadamente desenvolvidas (por exemplo, o problema, de novo, da bolha imobiliária). Um dos riscos que esteve presente esta semana foi o de uma ‘correção’ no sector das tecnológicas, nomeadamente em Nova Iorque.

Esta semana assistimos a um queda de 3,3% no Nasdaq 100 e da mesma dimensão no índice FANG Plus das dez ‘estrelas’ da nova economia (que inclui Facebook, Apple, Amazon, Netflix, Google, Alibaba, Baidu, Nvidia, Tesla e Twitter).

  • O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a OCDE e a Organização Mundial do Comércio assinaram esta quarta-feira em Bali uma declaração conjunta contra o protecionismo dos EUA. Num debate promovido pelo FMI, Christine Lagarde apelou a uma reversão da escalada protecionista

  • O índice mundial caiu na quarta-feira 2,15%, a terceira maior queda diária depois das quebras de 5 e 8 de fevereiro. Em Nova Iorque, o Nasdaq sofreu a maior queda em pontos em dezoito anos. O índice de pânico financeiro teve o segundo maior disparo do ano. Lisboa registou a segunda maior queda do ano. O Dow Jones viveu a terceira maior queda da sua história