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Organizações internacionais levantam a voz contra Trump

O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a OCDE e a Organização Mundial do Comércio assinaram esta quarta-feira em Bali uma declaração conjunta contra o protecionismo dos EUA. Num debate promovido pelo FMI, Christine Lagarde apelou a uma reversão da escalada protecionista

“Todos sabemos os riscos de uma escalada [nas tensões comerciais]. Riscos para a economia e para o próprio sistema do comércio internacional, que multiplicarão os riscos económicos no longo prazo. Por isso, não podemos deixar que isso aconteça”, dizem os dirigentes das quatro principais organizações económicas internacionais numa declaração conjunta assinada esta quarta-feira em Bali, na Indonésia, no âmbito da assembleia geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (BM).

A declaração assinada por Angel Gurria, secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, Jim Kim, presidente do BM, e Roberto Azevedo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), admite que “o sistema de comércio internacional não é perfeito”, mas “representa o melhor dos esforços dos governos de todo o mundo, trabalhando em conjunto durante 70 anos”.

Os quatro dirigentes das instituições que melhor representam o sistema multilateral no plano económico e financeiro apelam, por isso, a que se “explorem todos os caminhos que possam acalmar as atuais tensões e fortalecer o sistema de comércio internacional”.

OMC ameaçada de paralisia

O mesmo tom marcou um debate realizado, depois, e moderado por Lagarde, onde participaram Roberto Azevedo, Pierre Moscovici, comissário europeu, Ernesto Zedillo, diretor do Centro para o Estudo da Globalização a Universidade de Yale, nos EUA, e Ulrik Knudsen, secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca.

Nas palavras introdutórias ao debate, a diretora-geral do Fundo apelou para que se aproveite o momento para mudar a agulha "da tensão para a reaproximação" e para promover a reversão da escalada na guerra comercial. Recorde-se que o World Economic Outlook, o principal documento de previsões económicas e recomendações do FMI, divulgado esta semana, simulou os efeitos negativos de uma escalada na guerra comercial, que poderão levar a uma redução do crescimento do PIB mundial em 1 ponto percentual nos próximos dois anos. Ainda recentemente, o presidente Trump apelidou de "crianças" os opositores às taxas aduaneiras como arma de negociação.

Robert Azevedo sublinhou que “é vital que todos os que acreditam no sistema [multilateral] ergam a sua voz”. A organização que ele dirige, a OMC, corre o risco de paralisia, como ele próprio sublinhou sem mencionar o culpado desse cenário extremo. Adiantou que a OMC está a estudar “alternativas” na maior confidencialidade, no caso de se chegar a uma situação crítica. Quem acabou por chamar os bois pelos nomes foi Zedillo, o ex-presidente do México que enfrentou a crise global nos mercados emergentes em 1994 e 1995, que ficou conhecida como “crise da Tequilla”. O mexicano alertou que a OMC “vive uma crise existencial” provocada pela guerra comercial em curso desencadeada pela Administração Trump, uma atuação norte-americana que considerou “ilegal”, e deplorou que a OMC não consiga “reagir a este confronto provocado pelos EUA”.

Lagarde, Azevedo e Moscovici tentaram colocar água na fervura. A diretora-geral do Fundo acha que há “alguma margem de manobra depois do acordo entre os EUA, o Canadá e o México”, que valorou como positivo, abrindo uma janela de esperança para procurar uma “reaproximação”. O diretor da OMC respondeu a Zedillo que há que insistir no “diálogo”. Finalmente, o comissário europeu resumiu numa máxima a visão da Comissão Europeia face à ameaça protecionista: “Melhor comércio, mas não menos comércio. Reformar o multilateralismo, mas não desmantelá-lo”. Acrescentou que, para isso, é preciso “ser firme, mas também apostar na flexibilidade, flexibilidade, flexibilidade”.

  • Escalada na guerra comercial, alteração na perceção da geopolítica, incerteza política em grandes economias, dúvida sobre a resiliência das economias emergentes, aumento da dívida depois da crise, e normalização menos gradual da política monetária, sobretudo dos EUA, são fatores de risco, segundo o Global Financial Stability Report do FMI divulgado esta quarta-feira em Bali, na Indonésia

  • No pior cenário de escalada de guerra comercial e de reação negativa dos mercados, a taxa de crescimento da economia mundial pode reduzir-se perto de 1 ponto percentual nos anos de maior impacto negativo em 2019 e 2020. A zona euro pode ser a menos afetada. A China, os mercados emergentes e os EUA serão os mais castigados