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FMI alerta para seis riscos que podem abalar o sistema financeiro mundial

Escalada na guerra comercial, alteração na perceção da geopolítica, incerteza política em grandes economias, dúvida sobre a resiliência das economias emergentes, aumento da dívida depois da crise, e normalização menos gradual da política monetária, sobretudo dos EUA, são fatores de risco, segundo o Global Financial Stability Report do FMI divulgado esta quarta-feira em Bali, na Indonésia

O sistema financeiro mundial, uma década depois da grande crise financeira de 2008 e dos progressos feitos na regulação e na sua robustez, permanece vulnerável a um choque súbito e agudo, alerta o Fundo Monetário Internacional (FMI) no Global Financial Stability Report (GFSR), divulgado esta quarta-feira em Bali, na Indonésia, no âmbito da assembleia geral da organização.

O “aperto súbito e agudo” nas condições financeiras mundiais pode ser provocado por seis riscos principais. O rastilho tanto pode surgir de um desses riscos como da convergência de vários.

Guerra comercial

O risco mais presente atualmente é uma escalada na guerra comercial iniciada pela Administração Trump. O seu efeito no abrandamento do comércio internacional já se reflete nas previsões do FMI divulgadas esta semana no World Economic Outlook (WEO). O impacto negativo nos próximos anos no crescimento económico mundial e nas principais economias do G20 já foi simulado pelo WEO. A escalada na guerra comercial pode gerar um outro efeito global: "um choque na confiança dos investidores", concluiu Tobias Adrian, o conselheiro financeiro do FMI, diretor do Departamento de Mercados de Capitais e Monetários e responsável pelo GFSR.

O FMI promove esta quarta-feira um debate sobre "como o comércio mundial pode promover o crescimento para todos", moderado por Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo, e com um painel incluindo, entre outros, Pierre Moscovici, o comissário europeu para a Economia e Finanças, Roberto Azevedo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, e Ernesto Zedillo, diretor do Centro para o Estudo da Globalização na Universidade de Yale.

Nas palavras introdutórias ao debate, Lagarde apelou a aproveitar-se o momento para mudar "da tensão para a reaproximação" e para promover a reversão da escalada na guerra comercial. Ainda recentemente, o presidente Trump apelidou de "crianças" os opositores às taxas aduaneiras como arma de negociação.

Alterações na Geopolítica

Mas, também, não pode ser menosprezado o risco de uma mudança no ‘sentimento’ dos investidores face a alterações geopolíticas. Ou seja, de um momento para o outro, os investidores podem perceber que o contexto das relações entra as grandes potências mudou e que isso vai gerar a deterioração das relações internacionais, a começar pelo quadro multilateral de resolução dos conflitos políticos, económicos e militares. Ainda que o GFSR não concretize o risco, a recente afirmação pela Administração Trump de que a sua estratégia em relação à China dá prioridade à “competição” em detrimento da “cooperação” altera o quadro da relação entre as grandes potências.

Incerteza política

O regresso da incerteza política e sobre as políticas em grandes economias da zona euro ou do G20 é outro fator negativo. O relatório cita o conflito crescente recente entre Itália e a Comissão Europeia a propósito das regras de consolidação orçamental e o risco de um Brexit sem um acordo. No caso de Itália, o GFSR chama a atenção que o agravamento do confronto entre Roma e Bruxelas pode levar a uma reação dos mercados financeiros que ative, de novo, o risco de exposição na zona euro da banca nacional à dívida pública do seu país. Os países mais vulneráveis a esse risco são a Itália, Portugal, Bélgica e Espanha. Ainda que não referido, o Brasil, um dos BRICS, é outro candidato à incerteza política.

Vulnerabilidades dos emergentes

Pode gerar-se, ainda, nos mercados um acumular de dúvidas sobre a resiliência das economias emergentes à pressão da saída de capitais, revertendo os anteriores fluxos, e ao aperto no refinanciamento da dívida externa, sobretudo da denominada em divisas estrangeiras. O relatório do FMI refere que os países em que a dívida externa é mais elevada em relação às exportações representam 40% do PIB das economias emergentes, excluindo a China. Há casos em que essa dívida é superior a 200% do valor das exportações e em que o nível de cobertura por parte das reservas é considerado insuficiente, como na Argentina, Paquistão, Turquia e Ucrânia. Uma projeção de curto prazo, num contexto de "cenário adverso", aponta para a possibilidade de uma saída acumulada de capitais da dívida dos emergentes (excluindo a China) na ordem dos 100 mil milhões de dólares (€87 mil milhões) no curto período dos próximos quatro trimestres.

Aumento da dívida

A dimensão da dívida mundial reforçou-se depois da crise financeira. “A dívida total do sector não financeiro nos 29 países com sectores financeiros sistemicamente importantes subiu de 113 biliões de dólares (mais de 200% do PIB acumulado desse grupo) em 2008 para 167 biliões (perto de 250% do PIB) agora”, refere o GFSR. O grosso dessa dívida concentra-se em economias desenvolvidas. “Uma dívida mais elevada tornou o sector não financeiro mais sensível às mudanças das taxas de juro”, acrescenta o relatório.

Normalização da política monetária

Finalmente, uma normalização mais acelerada do que o antecipado, menos gradualista, da política monetária dos principais bancos centrais, nomeadamente por parte da Reserva Federal (Fed) dos EUA, será um acelerador dos riscos globais. A própria Fed pode ser empurrada para uma subida mais acelerada da taxa diretora como reação a um movimento inflacionário mais acentuado. O processo do contágio é bem explicado pelo FMI – subida das taxas diretoras do banco central em Washington, impacto no aumento dos juros da dívida norte-americana, dólar mais forte, pressão sobre o refinanciamento da dívida externa dos emergentes, exacerbamento de fatores negativos internos específicos a cada país, e aperto da política monetária por parte dos bancos centrais dos próprios emergentes. O processo pode terminar com a necessidade de um resgate pelo FMI, como aconteceu, recentemente, com a Argentina. Esta semana, o Paquistão solicitou também um resgate.

Outros riscos são, ainda, abordados no GFSR - ciberataques ao sistema financeiro, atuação das fintech e outras entidades financeiras fora do perímetro de regulação, bolha imobiliária em algumas economias desenvolvidas (e onde o endividamento das famílias é superior a 80% do PIB, com destaque para Austrália, Canadá e países nórdicos), e valorização excessiva de alguns ativos em grandes mercados (sobretudo nos EUA).

Face a este conjunto de riscos, o relatório do Fundo sugere duas recomendações. A primeira que não haja a tentação de reverter a regulação que foi implementada após a crise financeira de 2008. A segunda é que os investidores não podem ser “complacentes” em relação a sinais de que pode surgir um aperto súbito das condições financeiras globais.

Tobias Adrian começava por perguntar “se o sistema financeiro está hoje suficientemente seguro”, para responder que há “nuvens no horizonte”.

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