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Guerra comercial pode ‘roubar’ 1% ao PIB mundial

No pior cenário de escalada de guerra comercial e de reação negativa dos mercados, a taxa de crescimento da economia mundial pode reduzir-se perto de 1 ponto percentual nos anos de maior impacto negativo em 2019 e 2020. A zona euro pode ser a menos afetada. A China, os mercados emergentes e os EUA serão os mais castigados

No pior cenário de escalada da guerra comercial e de choque na confiança dos investidores e reação negativa dos mercados financeiros, o crescimento mundial pode reduzir-se perto de 1 ponto percentual em 2019 e 2020, no período de maior impacto negativo, e o desvio em relação ao cenário de previsões atuais pode chegar a 0,4% no longo prazo (ver gráfico).

A má notícia foi dada por Maurice Obstfeld, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), na apresentação do World Economic Outlook em Bali, na Indonésia, já esta terça-feira. “Eu não tenho a certeza se incorporámos totalmente o pior cenário. Tentámos no FMI olhar para o tipo de ações que foram discutidas e a retaliação contra essas ações. Também procurámos incorporar o que acreditamos serem efeitos bastante realistas sobre a incerteza política, que pode prejudicar o investimento e a confiança, o que afetará os mercados de ativos”, disse Obstfeld. E concluiu: “Mas é definitivamente possível, no conjunto desses cenários, chegar a uma perda de um ponto percentual no crescimento do PIB mundial se todos os países agirem e retaliarem”.

A região menos afetada, tanto no curto como no longo prazo, é a zona euro, que, no período de pior impacto, não ultrapassará um recuo de 0,4%, com um efeito a longo prazo inferior a 0,1%. Segue-se o Japão, entre os menos afetados. A avaliação do FMI parte do princípio que o Banco Central Europeu e o Banco do Japão não responderão ao agravar da situação mundial com novos estímulos. Mas, se, pelo contrário, reagirem, avançando com mais estímulos monetários, o efeito negativo será reduzido para metade.

China, emergentes e EUA, os que mais têm a perder

As economias que mais sentirão o choque, no período crítico, serão a China e as economias emergentes do G20, que verão a redução da dinâmica económica em 1,6% e 1,2% respetivamente. Mas, o economista chefe do FMI admitiu, que, no caso da China, em 2019, o impacto líquido negativo da guerra comercial possa ser de, apenas, 0,2% em vez de 0,7%, face às medidas de estabilização da economia que Pequim tomar. No caso dos EUA, no pior período, o efeito poderá ser uma redução de quase 1 ponto percentual.

Os impactos são ainda piores se a comparação for feita não em relação ao atual cenário base do FMI, que já incorpora as medidas protecionistas em vigor, mas face a uma situação em que a Administração Trump não tivesse tomado nenhuma medida protecionista. Nesse caso, a longo prazo, a redução poderá ser de quase 1 ponto percentual para os EUA e de meio ponto percentual para a China.

O WEO incorpora, este ano, uma simulação de quatro cenários alternativos ao cenário base do FMI, em que as medidas protecionistas no comércio internacional se vão sobrepondo umas às outras até gerarem um ambiente de perda de confiança dos investidores internacionais e de reação negativa dos mercados financeiros. A simulação é publicada numa caixa sobre “Tensões comerciais globais” no capítulo 1 do WEO.

Os quatro cenários alternativos previstos pelo FMI partem de um cenário-base que incorpora as medidas protecionistas já em vigor para evoluir por camadas que adicionam a escalada sucessiva na guerra comercial e os impactos nos investidores e nos mercados financeiros. O primeiro cenário alternativo envolve a imposição em 2019 de taxas aduaneiras de 25% sobre as importações da China para os EUA em mais 267 mil milhões de dólares (€232 mil milhões) e a retaliação respetiva de Pequim. O segundo cenário incorpora uma eventual decisão da Administração Trump em taxar em 25% todas as importações de automóveis e das suas componentes num valor de 350 mil milhões de dólares (€305 mil milhões) e a reação dos parceiros comerciais. O terceiro estima o impacto de um crescente protecionismo na confiança dos investidores e nos planos de investimento das empresas. Finalmente, o último cenário avalia o impacto de um aperto potencial das condições financeiras para as empresas no caso das medidas protecionistas de Trump evoluírem para uma taxa de 25% sobre todas as importações da China, gerando uma retaliação de Pequim. O estudo admite, no entanto, que “as distorções sectoriais impostas pelas taxas não estão totalmente capturadas pelas simulações”.

O FMI já incorporou no cenário-base de previsões do WEO divulgado esta semana uma redução da taxa de crescimento anual do comércio internacional de 5,2% em 2017 para 4,2% em 2018 e 4% em 2019.

A guerra comercial ainda não é total. Em 2019 esperam-se novas "fases", mas há, ainda, incerteza sobre até onde irá a escalada. Maurice Obstfeld espera que, apesar de "haver possivelmente menos espaço político em alguns países, implicando ser mais difícil obter consensos em torno de políticas sólidas" se perceba "que não haverá melhor altura do que agora para uma ação positiva".