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FMI revê em baixa crescimento mundial. Previsão para Portugal mantém-se

Fundo Monetário Internacional

José Carlos Carvalho

O Fundo Monetário Internacional desceu as projeções de crescimento do PIB mundial até 2023. A taxa estaciona em 3,7% até 2020 e baixa depois para 3,6%. A escalada da guerra comercial é a principal razão do pessimismo. As previsões para Portugal mantêm-se em 2,3% e 1,8% para 2018 e 2019

A dinâmica da economia mundial pode ter entrado numa espécie de “planalto”, com a taxa de crescimento estacionada em 3,7% até 2020, prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI) no World Economic Outlook (WEO), publicado esta terça-feira, no âmbito da assembleia-geral que decorre esta semana em Bali, na Indonésia. E, de seguida, o crescimento não levanta voo, e, pelo contrário, abranda para 3,6% até 2023, adiantam as projeções do FMI.

O FMI não mexe nas previsões para o crescimento da economia portuguesa, mantendo-as em 2,3% em 2018 e 1,8% no ano seguinte, em linha com o que já havia apresentado no relatório de análise do país ao abrigo do Artigo IV publicado em setembro.

O WEO é o mais importante documento de análise económica e de previsões elaborado pelo FMI e dirigido pelo economista-chefe Maurice Obstfeld, que está de saída do lugar no final deste ano.

A revisão em baixa de 3,9% para 3,7% no crescimento mundial é a primeira desde julho de 2016, quando o FMI se convenceu do "novo normal medíocre" e cortou em uma décima as previsões para aquele ano e o seguinte. A previsão para 2016 já era muito próxima da linha vermelha dos 3%. A economia mundial acabaria por reagir e registar crescimentos de 3,3% em 2016 e 3,7% no ano seguinte, a taxa mais elevada desde 2011.

Previsões anteriores eram "demasiado otimistas"

O FMI introduziu, esta semana, uma nova expressão na sua comunicação sobre o estado da economia global. Christine Lagarde, a diretora-geral, avançou, em 2016, com a ideia de um "novo normal", assente num crescimento "medíocre".

Agora, o Fundo fala de um "planalto". O crescimento mundial está ‘aprisionado’ num planalto, ou seja, sem descolar. Esta é a nova imagem que o Fundo escolheu para simbolizar o período que a economia global está a atravessar desde 2017 e que se vai arrastar até 2020.

Maurice Obstfeld fez-se eco dessa nova visão na apresentação que fez do WEO esta terça-feira em Bali. O economista francês sintetizou as novas previsões falando dos "planaltos do crescimento global à medida que os riscos económicos se materializam”.

De seguida, penitenciou-se: "Considerando os desenvolvimentos desde abril [quando foi publicada a primeira edição do ano do WEO], o número de 3,9% [então, apresentado como projeção para o crescimento da economia mundial em 2018 e 2019] revela-se demasiado otimista".

O culpado do pessimismo

O novo número - 3,7% - para o crescimento global nos próximos dois anos é igual ao registado em 2017 e à previsão para 2018.

Os técnicos do Fundo reviram em baixa as previsões que haviam feito em abril, cortando em duas décimas a taxa de crescimento mundial para 2018 e 2019, que, então, se pensava poder ficar próxima de 4%, o que seria o crescimento mais elevado desde 2011. O FMI está, agora, muito mais pessimista do que em julho quando não reviu em baixa o crescimento global.

O principal culpado da mudança de avaliação da situação mundial por parte do Fundo é apontado a dedo: “A escalada das tensões comerciais e o afastamento de um sistema multilateral do comércio baseado em regras são ameaças chave para a perspetiva global”, refere o WEO. A expetativa de que a situação não vai melhorar é notória. "A possibilidade de surpresas desagradáveis supera a probabilidade de boas notícias imprevisíveis", lê-se no documento. A razão geopolítica foi explicada por Obstfeld na apresentação do WEO: "A política comercial reflete a política, e essa política permanece instável em vários países, colocando riscos adicionais".

O FMI está, de facto, seriamente preocupado com o impacto do protecionismo no comércio internacional. Em abril começou por fazer uma primeira revisão em baixa do crescimento do comércio internacional para 2018 e 2019, e, agora, voltou a cortar nas projeções. De uma taxa de crescimento de 5,2% em 2017, a dinâmica anual vai descer para 4,2% no ano em curso e para 4% no ano seguinte. A revisão em baixa nos dois anos foi de 1,6% em termos acumulados, o corte mais elevado de todos os que o FMI fez agora.

Planaltos e cortes nas previsões para todos os gostos

A condição de prisioneiro num planalto não é exclusiva da escala global. O mesmo sucede com a dinâmica de crescimento das economias emergentes e em desenvolvimento, que não vai subir acima de 4,7% entre 2017 e 2019. Também a mesma sina está reservada para a Alemanha e a França, as duas economias-chave da zona euro, cuja previsão para a taxa de crescimento é idêntica para 2018 e 2019, respetivamente 1,9% e 1,6%.

O FMI distribuiu revisões em baixa por várias geografias. As maiores, em relação à atualização das previsões em julho, registam-se para a África do Sul, Brasil e Alemanha.

No entanto, apesar de não serem os mais elevados, os cortes de duas décimas nas projeções para 2019 nos casos da China e dos EUA, as duas maiores economias do mundo, tornam-se relevantes.

Depois da economia norte-americana dever crescer 2,9% em 2018, num quadro que muitos analistas consideram de 'sobreaquecimento', a tendência vai cair para 2,5% no ano seguinte e, dramaticamente, para 1,4% em 2023, no final do período de projeções.Os efeitos do pacote de estímulos orçamentais da Administração Trump desvanecem-se.

A projeção para o crescimento da China em 2019 foi reduzida para 6,2%, o que indicia que a trajetória de abrandamento até 2023 vai ser ainda maior do que a prevista em julho. Taxas de crescimento inferiores a 6% provavelmente chegarão mais cedo do que em 2022. Ostfeld admite, no entanto, que "provavelmente as políticas internas da China poderão evitar um declínio ainda mais acentuado do que o que projetamos, mas isso será à custa de prolongar os desequilíbrios financeiros internos".

Escaparam aos cortes nas previsões duas economias exportadoras do ouro negro: a Arábia Saudita, a líder da OPEP; e a Rússia, que, atualmente, cooperam na gestão deste mercado. Graças à subida do preço do petróleo, os efeitos positivos vão sentir-se este ano e no próximo, e o FMI reviu em alta as projeções de crescimento: a economia russa crescerá 1,8% em vez de 1,5% em 2019, e a economia saudita 2,4% em vez de 1,9% nesse ano.