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Nobel. Em 1998 Paul Romer já era um guru da economia e o Expresso entrevistou-o

andré kosters/arquivo

Há pouco mais de 20 anos, em Maio de 1998, Paul Romer, o economista que esta segunda-feira dividiu o Nobel com William D. Nordhaus já era candidato à distinção da academia sueca. Na altura, o Expresso entrevistou-o na Universidade de Stanford e, apesar de estar paredes meias com Silicon Valley, alertava para os riscos de um entusiasmo excessivo em relação à nova economia. Veja aqui a entrevista feita em 1998 pelo jornalista Jorge Nascimento Rodrigues

Paul Romer lecciona e investiga na Graduate School of Business da Universidade de Stanford, em pleno coração do Silicon Valley. Mas isso não significa que ele se deixe permear aos exageros do que por aqui se alcunha de «digital hype». Os seus trabalhos sobre o papel da mudança tecnológica no crescimento económico transformaram-no no guru mundial da corrente da "nova teoria do crescimento". Corre nos corredores académicos que é urn forte candidato a Prémio Nobel. Em entrevista ao Expresso alerta para algumas das ilações macroeconómicas menos correctas que se poderão tirar da euforia em torno do digital.

Quando ouvimos falar da "nova economia", trata-se de exagero jornalístico ou está mesmo a emergir uma economia digital, como refere o último relatório do Departamento de Comércio norte-americano divulgado recentemente?
Há de facto, algum exagero quando se fala da "nova economia". Mas é importante distinguir o que é discurso e o que é verdade, nesta matéria. Há duas teorias em voga em relação às quais é preciso haver agum cuidado. A primeira diz que havendo inovação tecnológica não poderá haver mais inflação. Logicamente e do ponto de vista dos factos, isto é um puro e simples exagero. A outra, também em voga, começou a divulgar a ideia de que não haverá mais recessões...

Mas, então, o que há de verdade no meio de toda esta euforia com a nova economia digital?
O que eu considero correcto é o seguinte: nos últimos quinze anos, as políticas macroeconómicas melhoraram substancialmente. Os bancos centrais, em particular, aprenderam a desempenhar melhor o seu papel. E correcto afirmar-se que a macroeconomia poderá ser muito melhor "gerida" daqui para a frente do que o era; por exemplo, nos anos 70. Isso é indiscutível, mas nada tem a ver com a teoria do papel da mudança tecnológica no crescimento económico que eu defendo. É possível que as recessões possam vir a ser menos frequentes e mais pequenas, mas isso não pode ser imputado abusivamente à mudança tecnológica.

Mas será que poderemos definir um momento recente apartir do qual se observa claramente a emergência da economia do saber e da economia digital?
Eu não falaria de um "momento". As forças de mudança tecnológica que tenho estudado presentes em todas as etapas, desde o início, da história humana. O que tem acontecido, ao longo do tempo é que a economia tem evoluído gradualmente — sublinho este aspecto "gradual" — para uma situação em que essa actividade de descobrir novas ideias se tornou cada vez mais importante. Como é que essa evolução pode ser medida? Olhando para a fracção da força de trabalho que se dedica à descoberta ou refinação de novas ideias. No início, seria muito pequena; mas esta actividade aumentou imenso ao longo do tempo. O que aconteceu foi que subitamente os «media» e a opinião pública começaram a dar muita atenção a esta parte da economia. Nos anos 90 "descobriu-se" a ideia do "sector do saber" na economia. Mas o que eu quero sublinhar é que ele sempre esteve na nossa história e cresceu gradualmente. Não apareceu do nada. Uma coisa é a realidade histórica, outra é a tomada de consciência do papel de algo.

Mas não terá havido um crescimento gradual do papel do saber que atingiu uma «massa crítica», se, assim o podemos dizer, que alterou radicalmente a situação ultimamente?
Essa é uma explicação atraente, mas o conceito de «massa crítica» dá uma ideia que não me parece aplicar-se — a de que antes de ser atingida, nada aconteceria de relevante, o que não é verdade. O peso do saber tem acelerado na economia, mas antes também desempenhou o seu papel no progresso tecnológico e social. Tendo a discordar das pessoas que andam sempre à "procura" de cortes, de fracturas, nesta matéria.

Será que poderemos falar de "novas regras" na economia digital que tenham tornado obsoletas as definidas por Adam Smith para a economia capitalista?
Volto a insistir: penso sobretudo que há mudanças no que "nós" pensamos acerca da economia. As tais novas leis não tornam as velhas obsoletas. O que acontece é que colocamos as novas por cima das velhas. Por exemplo, o que Adam Smith dizia sobre o laissez faire ou a "mão invisível" continua a ser de uma grande profundidade e tem um impacto enorme na política e nas pessoas comuns. Neste século, podemos falar do mesmo modo de Keynes e da revolução keynesiana, sobre o papel do Estado na política macroeconómica. Quer Smith quer Keynes continuam a ter validade. Mas é preciso «equilibrá-los». A nova questão que está a emergir é a de saber o que podem hoje os governos fazer para influenciar o processo de crescimento. E aí o laissez faire não é suficiente. Há um papel importante para os governos ou para conjuntos de pessoas actuantes, não necessariamente governos. Mas é claro que há políticas e políticas — e aí está outra questão.

Se isso significa que o keynesianisno também não chega, então o que é necessário?
Julgo que há uma oportunidade para pensar em novas políticas. Veja-se, por exemplo, no campo da educação, o que se fez na América em relação ao papel das universidades, que se tomaram muito mais focalizadas na melhoria concreta da actividade económica. Outro exemplo de novas políticas aconteceu nos anos 50 com a iniciativa do Departamento de Defesa americano que levou à criação de uma nova disciplina académica — a das ciências da computação. Estes são bons exemplos de "políticas", que recomendo. E julgo que há hoje uma janela de oportunidade para criar este tipo de novas. políticas viradas para a gestão do crescimento económico, como aconteceu antes.

Quando fala do papel que podem desempenhar «conjuntos de pessoas actuantes», o que quer dizer com isso?
No fundo é a tal "vantagem da colaboração" entre gente da mesma área. Há dois casos aqui nos EUA que são interessantes. Um é a aliança existente na área dos semicondutores para investigação e a formação em comum — a célebre Semiconductor Research Corp. Outro é a Cable Labs, que junta empresas de TV cabo no plano técnico. Creio que vamos ver muitas mais organizações de cooperação empresarial deste tipo no futuro, mais do que agências governamentais.

Um dos seus artigos mais polémicos, ultiniamente, falava do "fim do mito do transístor", que escreveu, no ano passado, para a edição suplemento ASAP da revista Forbes a propósito do cinquentenário do transístor. Este ano comemorar-se-ão os 50 anos do Mark II, o primeiro computador electrónico. São agora tudo mitos?
Quando eu falo do "mito do transístor" é um bocado para caricaturar a visão popular de que a mudança tecnológica é como que uma dádiva da Natureza, que cria «leis» automáticas — como a tal lei de Moorç, por exemplo. O problema com estes mitos é que apagam o papel importante dos incentivos que têm de ser dados às pessoas para descobrirem coisas novas. A minha mensagem com a crítica do mito é que quando os incentivos são suficientemente fortes há muito mais potencial para a mudança tecnológica.

Mas esse fim do mito é também o fim de uma era? Estamos noutra revolução?
Sem dúvida que a revolução digital é importante para a mudança tecnológica. Eu não duvido disso. O que tento é levar as pessoas a pensar sobre o futuro, sobre qual será o próximo passo. Há imenso aí fora para descobrir, como, por exemplo, no campo da biotecnologia ou do genoma. É um erro, a meu ver, a focalização demasiada no computador e na rede. Se ficamos cegos com o transístor ou o chip, não nos damos conta dos seus próprios limites. Quando falei de acabar com o mito, também foi neste sentido.

Nota: Entrevista publicada a 1 de Maio de 1998