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Até ao lavar dos cestos é turismo

d.r.

Um ano de trabalho é jogado nas vindimas, com os turistas em campo, entre 
as videiras, numa colheita de aventuras

O seu nome é Basílio Lopes da Silva, personagem humorística criada pelos Gato Fedorento e especialista em assuntos fraturantes, um homem “magoado e indignado” com algo inaceitável. “O que se passa com as vindimas, no nosso país, é um escândalo”, denuncia. E o motivo, de acordo com o próprio, assenta numa discriminação linguística. “Porque as vindimas, no fundo, é apanhar uvas e as pessoas que estão em casa sabem que aquilo que estou a dizer é verdade”, constata este pensador de temáticas polémicas. “Como é que se chama a apanha da maçã? Apanha da maçã. Como é que se chama a apanha da laranja? Apanha da laranja. Como é que se chama a apanha da uva? Ai, ui, vindimas. Mas o que é isto?!”, interroga, com a consternação, bem vincada, no discurso inflamado. O que torna, então, o ato de colher os cachos e pisar as uvas um ritual diferenciado?

Mais do que uma indispensável prática, a colheita dos bagos é também sinónimo de uma manifestação popular, com o trabalho na vinha e na adega a ser acompanhado pelas melodias enraizadas no folclore português. O escritor Miguel Torga, na obra “Vindima”, descreve certo em linhas igualmente certeiras o fascínio inerente a uma tradição milenar. “Vai-se à festa pagã da colheita dos cachos com a seiva da mocidade a florir ou com a secura da velhice a reverdecer”, poetiza o autor, para quem “a palavra vindima soa como uma senha de recurso e de libertação”.

Para esvaziar o copo de dúvidas, o Expresso foi falar com quem realmente percebe da poda, e o enólogo Anselmo Mendes responde à revolta capaz de deixar enrubescido o semblante trágico-cómico de Basílio Lopes da Silva. “Ninguém liga nenhuma à apanha do feijão, das abóboras ou dos melões”, enaltecendo que o ato de vindimar tem um “simbolismo diferente”, porque o que desse trabalho resulta “não é apenas uma bebida”, mas um “produto cultural e histórico”.

O reputado especialista e produtor vinícola, que aposta nas castas de Alvarinho e Loureiro, lembra os tempos em que as aulas só começavam quando os cachos já tinham sido extraídos das videiras, até porque, diz a sabedoria popular, “até ao lavar dos cestos é vindima”, ofício para o qual as crianças também eram recrutadas.

A iniciativa Vindima Mayor 2018, da Adega Mayor (um projeto vinícola do Grupo Nabeiro), harmoniza a arte do vinho com a arquitetura de Siza Vieira em Campo Maior

A iniciativa Vindima Mayor 2018, da Adega Mayor (um projeto vinícola do Grupo Nabeiro), harmoniza a arte do vinho com a arquitetura de Siza Vieira em Campo Maior

foyo GONCALO VILLAVERDe

O perito de 55 anos reconhece que nos dias correntes as colheitas são efetuadas com “falta de pessoal e com uma maior mecanização”, mas assevera que não deixa, ainda assim, de ser um “momento de festa”, no qual cada vez mais curiosos querem participar. “Há muitas pessoas que pagam para vindimar”, afirma, relativamente a esta vertente do enoturismo, sector que em 2016 atraiu 2,2 milhões de visitantes, de acordo com um estudo da Associação das Rotas do Vinho de Portugal. “Procuram integrar-se em todo o processo, conviver e saber como se faz o vinho”, explica Anselmo Mendes.

Uma colheita de experiências sensoriais em família

Um pouco por todo o país, multiplicam-se as quintas com programas especiais dedicados às vindimas, piscando o olho aos entusiastas. Na planície alentejana de Campo Maior brotou, em 2007, a Adega Mayor, um projeto vinícola do Grupo Nabeiro, onde a arte do vinho se harmoniza com a arquitetura de Siza Vieira.

A iniciativa Vindima Mayor 2018, estendida até 14 de outubro, convida a uma odisseia sensorial, idealizada para as famílias, pelas tradições e segredos da apanha da uva. A oferta tem no cesto um passeio pelas vinhas, desvelando todo o ciclo de cultivo das castas utilizadas, abarcando a oportunidade de vindimar manualmente. É ainda possível fazer uma visita guiada pelas zonas de vinificação e sala de barricas, onde os participantes são brindados com uma prova de mosto e de quatro vinhos, culminando com um almoço.

d.r.

Também a Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz, no distrito de Évora, celebra mais um ano de trabalho e abre as portas aos enoturistas, através de um programa semelhante, até amanhã, com um preço diário de 110 euros por pessoa.

A viagem prossegue até Melgaço, onde na Quinta de Soalheiro é possível ficar a conhecer, de forma mais íntima, as “meninas d’oiro”, com uma personalidade equilibrada entre a acidez e o álcool. Assim são chamadas, carinhosamente, as uvas de Alvarinho. A experiência de aromas e sabores inclui uma panóplia de atividades na vinha e na adega, desde a receção das uvas até à prova do mosto e à fermentação do néctar de Baco.

Celebrar os vinhos e reviver tradições é a proposta da Quinta de Santa Cristina, em Celorico de Basto. Os visitantes juntam-se à colheita, até 12 de outubro, e desfrutam de um piquenique com petiscos da gastronomia regional. Calcorreando as vinhas, podem observar as diferentes castas, sempre com tesouras nas mãos, participando ativamente na tarefa. Os participantes terão, depois, a possibilidade de conhecer a adega e todo o processo de vinificação, podendo pisar as uvas no lagar de granito, durante o dia em que estiver a decorrer a apanha das castas tintas. O preço por adulto é de 45 euros, enquanto as crianças pagam €22,50.

ana baião

Também as cadeias hoteleiras foram aromatizadas por uma tendência transbordante do enoturismo e, nesse sentido, surgiu o Monverde Wine Experience Hotel, um hotel rural na Quinta do Sanguinhedo, em Amarante. O espaço, eleito como “Best Wine Tourism”, em 2016, na categoria de arquitetura e paisagem, atribuída pela Great Wine Capitals, conta com dois programas: um pensado para a apanha da uva e outro destinado às famílias, com preços por pessoa de 65 e 80 euros, respetivamente.

Em todos os casos, leve roupa e calçado confortáveis. Arregace as mangas. É hora de trabalhar a felicidade no campo.