Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Austríaco paga €150 milhões por residências em Braço de Prata

O rio é o elemento-chave das novas residências. “Em todos os apartamentos projetados é possível ver o Tejo”, garante João Cabaça, gestor do empreendimento

NUNO BOTELHO

Projeto de €450 milhões muda de mãos quando os primeiros 28 apartamentos começam a ser habitados. Serão construídos cerca de 600 fogos, com vista para o rio, em Marvila. Investidor estrangeiro planeia trazer € 1000 milhões para Portugal

Há novidades em Braço de Prata. Os apartamentos que estão a ser construídos na frente ribeirinha de Marvila, em Lisboa, mudaram de mãos e pertencem, agora, a um investidor austríaco. É mais um episódio de uma história de quase 20 anos, feita de (poucos) avanços e (muitos) recuos, de um empreendimento imobiliário que, finalmente, está a ganhar forma nos terrenos que outrora albergaram uma fábrica de material de guerra.

O negócio ficou concluído em setembro, mas as negociações demoraram cerca de dois anos até chegarem a bom porto, conta João Cabaça, que é, agora, o responsável pelo imóvel Prata. O lançamento do empreendimento remonta a 1999, mas demorou 12 anos até ser aprovado pela autarquia lisboeta e, mesmo assim, o primeiro lote de 28 apartamentos só ficou finalizado a meio deste ano — os primeiros inquilinos estão a começar a mudar-se. Passaram quase oito anos, desde a cerimónia de lançamento da primeira pedra, em dezembro de 2010 — onde participou António Costa, à época presidente da Câmara de Lisboa.

O Prata é considerado o maior projeto residencial da capital e tem a chancela do galardoado arquiteto italiano Renzo Piano, autor de várias obras emblemáticas, como o Centro Georges Pompidou, em Paris. Aliás, o facto de ter ‘assinatura’ torna o projeto mais atrativo aos olhos de investidores que, em alguns casos, estão a comprar apartamentos para depois os arrendarem. “Uma senhora ficou com uma casa por ser fã do Renzo Piano”, revela João Cabaça. Estavam previstos cerca de 500 apartamentos, mas estão a ser feitas alterações nas tipologias e o número ficar próximo dos 600.

Insolvência e negociações

A aquisição implicou conversações com o administrador de insolvência e com credores da Obriverca, construtora fundada por Eduardo Rodrigues (outrora um dos grandes promotores imobiliários em Portugal), que detinha o projeto. O ‘aperto de mãos’ custou 150 milhões de euros e teve a assessoria jurídica do escritório de advogados Uría Menéndez — Proença de Carvalho, com apoio estratégico da GCS — Advogados. Nos últimos tempos e devido às dificuldades financeiras da Obriverca, a promoção do Prata esteve a ser feita pela gestora de fundos de investimento imobiliário Norfin. Ao Expresso, a Norfin confirma que “o fundo onde está enquadrado este empreendimento mudou de acionista”, remetendo para João Cabaça quaisquer esclarecimentos. A Obriverca também foi contactada, por e-mail e telefone, embora sem sucesso.

João Cabaça, 31 anos, estruturou, executou e agora vai gerir esta operação, através de uma sociedade de direito português criada para este efeito. A Vic Properties nasce com Braço de Prata mas tem no horizonte o objetivo de desenvolver outros projetos imobiliários em Portugal. Desde que acabou a sua formação, na área da Gestão, que João Cabaça vive em Londres, onde trabalhou na banca de investimento e, depois, em family offices, que se dedicam a ajudar famílias ricas a administrarem e a gerirem o seu património. É aqui que conhece o investidor austríaco, “um histórico investidor no sector do imobiliário” — cuja identidade prefere, por agora, não revelar —, e o ‘convence’ a olhar para Portugal. Trata-se de um promotor imobiliário com mais de 1,5 milhões de metros quadrados no seu portefólio para construção, na Alemanha, que é o seu principal mercado.

“Ninguém na equipa, além de mim, por razões óbvias, olhava para o mercado português. Nas visitas regulares a Lisboa percebi que as coisas estavam a mudar, com este impulso do turismo e do imobiliário. Constatei que o ambiente estava mais favorável para investir, sobretudo, no que toca a melhorias na transparência e a redução da burocracia, assim como uma maior estabilidade política e fiscal”, relata este alentejano, natural de Beja.

Foram várias as hipóteses analisadas até decidirem pelo Prata. “Tinha de ter dimensão, nunca entraríamos em Portugal com uma coisa pequena — como comprar um prédio para reconstruir”. Não é esse o ADN dos novos donos destes imóveis na frente ribeirinha da capital. Aliás, a intenção é trazerem mil milhões de euros para Portugal — só em Braço de Prata deverão ser gastos cerca de 450 milhões de euros, o mesmo valor que já tinha sido estimado pelos anteriores proprietários.

Faltam casas novas

Têm debaixo de olho outras obras e o foco são habitações novas, “que fazem muita falta a Lisboa. São precisas, pelo menos, 100 mil casas para cobrir a procura que existe”, garante João Cabaça, aludindo que só assim deixará de haver preocupação com a especulação imobiliária e irão descer os preços do arrendamento. “Não existe construção de raiz e quando se fala em aumento dos preços, para comprar ou arrendar, tem que ver com esta realidade. Foi feito um trabalho importante na área da reabilitação, mas não é suficiente. Portugal, em particular Lisboa, precisa de habitações, pois nos últimos oito anos pouco ou nada se fez ao nível de nova construção no país”, sustenta o gestor.

Em Marvila estão a ser edificados 12 lotes de apartamentos novos, com uma área de construção, acima do solo, de 128.500 m2, num total de oito hectares. “O primeiro lote [o único concluído] já foi vendido e, cerca de metade dos 28 apartamentos, ficaram para portugueses”, adianta João Cabaça, acrescentado que o segundo lote vai contemplar 32 fogos, quase 50% comercializados.

O novo proprietário fez alterações ao projeto inicial e está a mexer, sobretudo, nas dimensões dos apartamentos, reduzindo a tipologia de alguns para abrir o leque de oferta a compradores mais modestos. “Praticamente só havia imóveis de tipologia T3 e T4” e, agora, há uma oferta desde T0 a T6. O preço médio por metro quadrado são €5 mil.

Bairro alfacinha

O alvo são famílias, mas também, por exemplo, “empreendedores que venham trabalhar para o Hub Criativo do Beato e a quem basta um apartamento mais pequeno, à semelhança do que se passou comigo quando comecei a viver em Londres”. Os desafios da mobilidade aliados às tendências ecológicas também estão a ser equacionados pela nova gestão. Além da ciclovia, situada frente ao rio e que serve uma larga extensão de quilómetros naquela zona, também está a ser pensada a colocação de pontos para carregamento de veículos elétricos.

O rés do chão dos edifícios deverá ser povoado por lojas e escritórios de empresas. “Andamos em encontros exploratórios com algumas marcas que gostariam de entrar em Portugal e que podem vir a estrear-se abrindo portas aqui.” Além disso, também está a ser estudada a hipótese de, na zona central do terreno, nascer uma espécie de Mercado do Ribeira.

As varandas, o pátio com jardim que liga os edifícios e promove o convívio e o revestimento a fazer lembrar azulejos remetem para a tipicidade lisboeta, faz notar João Cabaça. Aliás, a ideia é criar um novo bairro alfacinha, inspirado em elementos tradicionais, que seja acessível a portugueses, mesmo que não sejam ricos, e que proporcione a necessária ligação entre a zona do Parque das Nações com o Terreiro do Paço. “Toda esta zona de frente ribeirinha tem estado descurada”, lamenta João Cabaça, frisando que, finalmente, com os primeiros apartamentos a serem habitados, há uma série de outras iniciativas imobiliárias que estão a surgir nas proximidades.

O calendário para conclusão da obra será acelerado face ao previsto inicialmente. “Daqui a dois anos, no máximo três, queremos ter tudo feito”, afirma João Cabaça, revelando que neste momento estão a constituir equipas novas não só para a construção dos edifícios, mas também trabalharem ao nível da promoção e do marketing.