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Economia mundial ainda está a coxear, avisa o FMI

Uma maioria de países ainda não regressou à dinâmica de crescimento anterior à crise. E novos riscos podem levar o mundo a dar um novo trambolhão, alerta o World Economic Outlook, nos capítulos que o Fundo Monetário Internacional divulgou esta semana, nas vésperas da assembleia geral em Bali

Jorge Nascimento Rodrigues

Mais de 60% das economias ainda não regressou à dinâmica de crescimento anterior à crise de 2007 e 2008, avisa o Fundo Monetário Internacional (FMI) nas vésperas de iniciar a sua assembleia geral anual em Bali, na Indonésia. A economia mundial ainda está a coxear. “Entre as 24 economias que registaram crises bancárias [em 2007 e 2008], 85% continuam a operar com níveis de produto inferiores à tendência anterior à crise. Para as economias que não tiveram crises bancárias, a percentagem é menor, cerca de 60%”, refere o World Economic Outlook (WEO), no capítulo 2 divulgado esta semana. Das 24 que viveram crises bancárias, 18 são desenvolvidas.

Os economistas do Fundo sublinham que “as perdas no produto parecem ser persistentes”, devido a “um investimento preguiçoso”, que, ainda no ano passado, estava, em média, 25% abaixo da tendência anterior à crise. Uma das razões pode ser uma adoção mais lenta das novas tecnologias pelo tecido económico depois da crise.

Mesmo em economias que necessitavam de corrigir trajetórias insustentáveis, a análise agora feita pelo Fundo “sugere que as perdas foram muito para além daquela correção”. O WEO recupera a expressão lançada há dois anos por Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, que falou de “um novo medíocre” para a dinâmica da economia mundial.

Um segredo bem guardado

O FMI iniciou esta semana a publicação de alguns capítulos do seu mais importante documento de projeções económicas em antecipação à sua assembleia geral em conjunto com a do Banco Mundial a partir de segunda feira.

O principal capítulo do WEO só será divulgado na madrugada (hora de Portugal) de terça-feira e há uma grande expetativa sobre as projeções que vai apresentar. Um segredo guardado a sete chaves por Christine Lagarde é a projeção para o crescimento mundial este ano e no próximo. Na atualização realizada em julho, o FMI manteve a previsão de 3,9% para 2018 e do mesmo ritmo para o ano seguinte.

Riscos que se avolumaram após a crise

E o risco de um trambolhão da economia mundial não pode ser colocado de parte. A dívida pública média subiu de 36% do Produto Interno Bruto (PIB) antes da crise para 52% ao fim de dez anos.

Os balanços dos bancos centrais, sobretudo nas economias desenvolvidas, engordaram desmesuradamente, e estão “vários múltiplos acima dos níveis antes da crise”. Uma política monetária mais apertada é inevitável. Alguns dos instrumentos usados para combater a crise financeira em 2008 e 2009 estão fora de jogo, como os resgates bancários.

A geografia do dinamismo económico alterou-se radicalmente nesta década. As economias emergentes e em desenvolvimento representam agora 60% do PIB global face a 44% uma década antes, se o produto for avaliado em paridade de poder de compra. O que significa que turbulência neste grupo, em particular nos grandes mercados emergentes, terá, agora, um impacto maior na dinâmica mundial.

Há consequências de longo prazo da crise, como a quebra na taxa de fertilidade em diversas economias desenvolvidas na última década, que passou a estar abaixo de 2, e também nas economias emergentes onde a taxa desceu de 2,2 para 2. “Além do mais, a desigualdade nos rendimentos parece ter aumentado, especialmente onde as perdas no produto e no emprego foram mais elevadas depois da crise”, acrescenta o documento do FMI.

Tudo isto teve um “corolário” político, com “o apelo crescente das panaceias do protecionismo e do populismo”, conclui o documento.

Novos riscos financeiros

No plano financeiro, acentuaram-se riscos que já vinham a espalhar-se antes da crise, como a banca sombra que escapa à regulação, cujo peso subiu ainda mais desde 2010, sublinha o capítulo 2 do Global Financial Stability Report (GFSR), outro documento importante do Fundo.

Houve riscos que “migraram para novas áreas”, como os associados ao crescimento das tecnológicas financeiras (conhecidas pela designação em inglês de fintech) e aos ataques à cibersegurança, vital nos sistemas financeiros. Há um peso crescentes em diversos mercados financeiros das chamadas contrapartes centrais, instituições que agem como comprador para todos os vendedores e de vendedor para todos os compradores. Finalmente, alerta o GFSR, há sérios riscos de “reversão na regulação”, de “declínio no multilateralismo” e mesmo de “fadiga regulatória”.