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Vem aí o cartão pós-pago para os transportes de Lisboa

Viaduto Engenheiro Duarte Pacheco, 9h da manhã. 
Entram em Lisboa mais 
de 300 mil carros por dia

Nuno Fox

Novidades: é uma das muitas soluções em curso para melhorar a mobilidade nas cidades. Em cima da mesa está também o corredor BUS na A5, que poderá ser uma realidade dentro de três anos

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

De certeza que já lhe aconteceu estar com pressa para apanhar aquele metro, mas como ainda tem de carregar o cartão acaba por ter de esperar pelo próximo. Agora imagine que tinha um cartão que não precisava de ser carregado. Em breve isso vai mesmo existir em Lisboa. “Espero lançar um pós-pago já este ano, entre outubro e novembro. Basicamente, é um cartão com o qual ando à vontade nos transportes públicos e que faz o débito direto em conta, como se fosse uma espécie de via verde”, revelou o vereador da Mobilidade e Segurança da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Miguel Gaspar, durante o encontro “Conversas de Inovação” organizado pelo Expresso e pela BP.

Vai chamar-se Viva Go e, para já, funcionará apenas na Carris e no Metro, onde os preços são fixos e não variam consoante a distância ou o destino. Quem quiser aderir apenas tem de ter o cartão Lisboa Viva — o de plástico e não o de papel — e adaptá-lo a esta nova modalidade. Segundo Miguel Gaspar, esta é uma das muitas soluções que a autarquia está a desenvolver para melhorar a mobilidade em Lisboa e para aumentar o uso dos transportes públicos e, dessa forma, reduzir o uso do automóvel dentro da cidade. Outra das soluções passa pelo já muito falado BRT, o corredor BUS da A5, que está a ser pensada em parceria com a Câmara Municipal de Cascais (CMC) e que poderá estar a funcionar em breve. Miguel Gaspar estima que seja dentro de três anos, mas o presidente da CMC, Carlos Carreiras, acredita que possa ser uma realidade daqui a dois anos. A ideia não é suprir uma das vias da A5, mas sim alargar a autoestrada e ter uma via própria só para autocarros. Estes partiriam de Cascais, passariam por Carcavelos e entrariam em Lisboa pela 2ª Circular, parando depois em Benfica, Colégio Militar, Torres de Lisboa, Entrecampos e até mesmo Oriente. Ou seja, em pontos de ligação com o metro ou autocarros.

Para Carlos Carreiras, esta é uma solução imperativa para resolver a falta de transportes públicos adequados entre Cascais e Lisboa e, de forma geral, entre Lisboa e as periferias. Para o líder da CMC — que não poupou críticas ao ministro das Infraestruturas, Pedro Marques, também ele um dos convidados da sessão —, “há alguma incoerência ao que se dá prioridade na Área Metropolitana de Lisboa”. Carlos Carreiras referia-se à falta de investimento na linha ferroviária de Cascais, que espera por melhorias e investimento há anos, mas também ao facto de se ter dado prioridade aos transportes dentro da cidade e só agora se estar a pensar na ligação às periferias. Isto quando o problema da mobilidade em Lisboa são os mais de 300 mil carros que entram todos os dias na capital, dos quais mais de 80 mil vêm da linha de Cascais. Miguel Gaspar responde que a prioridade que se deu à Carris foi porque “ela tinha um mau contrato”, mas concorda que “o problema da mobilidade de Lisboa se resolve fora de Lisboa” e que “tem de haver melhores soluções para ir e vir para as periferias”.

De facto, integração foi a palavra-chave do debate de quarta-feira, o segundo destes encontros, neste caso dedicado à mobilidade. Todos os oradores concordam que sem integrar sistemas e soluções e sem haver parcerias entre diferentes entidades não se resolverão os problemas. Esta integração é ainda mais evidente quando o objetivo é comum: reduzir o número de carros que circulam dentro das cidades, não só o transporte individual mas também o de mercadorias. Já há muitos exemplos a funcionar em pleno, como os carros e bicicletas partilhadas (o Drive Now e a GIRA, por exemplo) ou a utilização de cada vez mais veículos elétricos para entrega de mercadorias, como mencionou o CEO do Grupo Rangel, Nuno Rangel.

E há outras soluções em estudo, como os carros autónomos ou mesmo autocarros. Em breve, a Câmara de Cascais vai ter um autocarro autónomo entre Cascais e o novo campus da Universidade Nova, em Carcavelos. Ou ainda os “pontos de mobilidade”, espaços bem localizados onde as pessoas possam recolher as suas mercadorias, diz ainda Nuno Rangel. É com tudo isto que será possível caminhar para atingir as ambiciosas metas de descarbonização do Acordo de Paris, diz o diretor comercial da BP, Jorge Gonçalves. “Porque, mesmo com todas as inovações que existem hoje, estamos a ter um aumento das emissões”, notou.

Citações

O carro vai estar sempre aqui, quanto muito é preciso reduzir ou melhorar a sua utilização
Miguel Gaspar
Vereador de Mobilidade e Segurança 
da Câmara Municipal de Lisboa

Os cenários apontam para um aumento 
de veículos, mas muitos serão elétricos, partilhados e autónomos
Jorge Gonçalves
Diretor comercial da BP Portugal

Em 10 anos podemos ter toda a frota de entregas last-mile [a parte da entrega em casa das pessoas] elétrica
Nuno Rangel
CEO do Grupo Rangel

Para que serve o passe metropolitano se depois não há comboios [porque não se investe na linha de Cascais]?
Carlos Carreiras
Presidente da Câmara Municipal de Cascais

SEIS PERGUNTAS A
Pedro Marques
Ministro do Planeamento e das Infraestruturas

Qual a sua visão para o problema da mobilidade?
Temos de fazer um esforço muito grande no planeamento de políticas públicas para travar a tendência do aumento do transporte individual. É aí que entra o carro elétrico e, agora, até o de hidrogénio. Ainda estamos a preparar as infraestruturas para a mobilidade elétrica e já começou a aparecer o hidrogénio. Mas entra também a mobilidade coletiva. Isso faz-se baixando os preços dos transportes públicos e integrando modos de transporte.

Nas infraestruturas vamos continuar a apostar em estradas?
Neste programa nacional de investimentos vamos apostar no transporte público e continuar a apostar no modo ferroviário de pessoas e bens.
E agora, na reprogramação do Portugal 2020, quais serão as apostas?
Já demos um passo para o investimento no metro de Lisboa e do Porto e na linha de Cascais, mas estão previstos mais investimentos nas mobilidades urbanas e suburbanas.

No debate que está a haver sobre o Programa Nacional de Investimentos sente que há consenso político?
Esperamos que sim. Estamos numa fase inicial de conseguir esses consensos, para que o programa também reflita tudo o que é necessário para o país. Procuraremos que este instrumento seja consensual a nível político, para na próxima década não estarmos a rasgar planos para as infraestruturas e a programar os mesmos investimentos só para depois dizer “fui eu que fiz”. Há muito essa tentação em Portugal. Se programarmos os investimentos nas infraestruturas agora, queremos garantir que eles serão desenvolvidos nos próximos anos, porque vão demorar cinco a dez anos a executar.

Não chegou tarde a aposta na ferrovia?
Chegados ao Governo, vimos o que estava contratualizado com Bruxelas, e neste momento todos os corredores ferroviários com financiamento comunitário assegurado estão em obras, principalmente nos corredores de mercadorias, que eram a prioridade nesse programa.

Quando se fala de reprogramação dos fundos comunitários, onde entram as apostas mais inovadoras?
O tema da inovação é crítico na reprogramação dos investimentos. Vivemos um dos momentos mais incertos quando se programa o futuro, porque a intensidade da mudança é muito rápida. Há tendências para incorporar, mesmo quando se fala em investimentos em infraestruturas. Por exemplo, vamos reabilitar o IP3 e aproveitar para fazer dele uma estrada inteligente dotada de tecnologia sem fios.

“Conversas de Inovação”

é um ciclo de conferências organizado pelo Expresso e pelos respetivos parceiros. Estes momentos de reflexão estratégica juntarão as pessoas e as empresas mais relevantes da nossa economia. Depois da sustentabilidade e da mobilidade, o debate de 2 de outubro será sobre a inovação na saúde

Textos originalmente publicados no Expresso de 29 de setembro de 2018