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Porquê startups? As fábricas também são sexys

No painel do encontro “Empresas Mais Fortes”, moderado por João Vieira Pereira (Expresso), juntaram-se à secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehmann (em baixo à dir.), o responsável da coordenação das Universidades do Santander, Marcos Ribeiro, o diretor-geral da Gilead Sciences, Vítor Papão, e o partner da Deloitte, Gonçalo Simões

Nuno Fox

Futuro: captar talento é um processo cada vez mais desafiante e é preciso mostrar aos jovens que até as profissões mais tradicionais conseguem ser inovadoras

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Estes casos não foram dados nesta conferência, mas na Casafari, uma startup que usa inteligência artificial para analisar o mercado imobiliário e que está a contratar engenheiros, chegaram 100 candidaturas para menos de 30 lugares. A Unbabel, uma tecnológica que gere uma rede digital de traduções, começou com cinco pessoas e, em cinco anos, já são 150.

Na sociedade digital em que vivemos atualmente, captar talento para este tipo de empresas parece ser mais fácil do que para profissões mais tradicionais, mas as vagas não chegam e as exigências são muitas. Por exemplo, dos 100 candidatos que a Casafari entrevistou só um foi escolhido.

Ora, tendo em conta que o desemprego jovem, apesar de estar a cair, ainda é de 16% em Portugal, é preciso mostrar que há outras empresas, mesmo que tradicionais, que precisam de talento e de jovens para trabalhar e onde também se faz inovação e se usa tecnologia e, em alguns casos, até se paga melhor. Aliás, de acordo com o partner da consultora Deloitte, Gonçalo Simões, “o salário continua a ser o mas importante quando se procura um emprego”.

Mostrar que estas empresas existem é um dos grandes desafios da secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehmann, que abriu mais um encontro “Empresas Mais Fortes”, organizado pelo Expresso e pelo Santander, este sob o tema ‘Captar e Formar Talento’.

“Há um grande desafio de recrutar trabalhadores para algumas PME e, principalmente, para as fábricas e para a indústria pesada. Existe muita procura por soldadores, por exemplo, a quem se oferece três mil euros de salário, mas não há candidatos. E há aí muitas pequenas e médias empresas e fábricas que são mais inovadoras que muitas startups”, conta. E até dá exemplos: “Recentemente, visitei uma empresa em Loureiro, perto de Santa Maria da Feira, onde dois jovens fazem máquinas pesadas para a indústria metalomecânica. E numa empresa de Braga, o pintor não toca na tinta, programa um robô que pinta sem falhas e com segurança.”

Campanha pela indústria
É por isso que o Governo está a preparar uma campanha para atrair jovens para a indústria, que irá lançar durante o primeiro semestre de 2019 e que consiste em levar jovens a fábricas modernas, incluindo até os pais nessas visitas. “Muitas vezes são eles que não querem que os filhos tenham esse tipo de emprego, porque antigamente era mal visto. As pessoas pensam que a indústria é algo sujo, mas é cada vez mais digital e tecnológico. Temos de mudar algumas mentalidades sobre o que é trabalhar numa fábrica e afastar a ideia de que é uma profissão menos nobre”, diz Ana Teresa Lehmann. Ou seja, mostrar que há vida além das startups e que as fábricas também são sexys.

No âmbito desta campanha, a secretária de Estado quer ainda trabalhar com as escolas básicas e secundárias e com as universidades e até nas redes sociais para divulgar os bons exemplos que existem. Porque, “as universidades devem incentivar os alunos a arriscar e a serem mais empreendedores, até nas salas de aula”, comenta Vítor Papão, o diretor-geral da Gilead Sciences, uma empresa de biofarmacêutica americana com presença em Lisboa, incluindo um centro de investigação.

Usar tecnologia não é, contudo, a única forma de captar talento para as empresas que, além das capacidades técnicas, procuram hoje que os jovens tenham boas competências humanas e que demonstrem que têm potencial para crescer e evoluir.

Como referido, o salário é ainda um dos fatores mais relevantes e segundo Gonçalo Simões, “Portugal está a ficar para trás. São muito baixos para o custo de vida, que está a aumentar, e a levar muitas pessoas para o estrangeiro”. Só que as prioridades estão de facto a mudar (ver infografia). Agora os jovens procuram empresas com valores morais específicos, com horários e métodos de trabalho mais flexíveis, sem horários fixos e com a possibilidade de trabalhar a partir de casa ou de poder ir para o estrangeiro. Mas, acima de tudo, os jovens procuram trabalhos desafiantes. Aliás, quanto mais melhor. “Temos 15 ensaios clínicos a correr e isso ajuda na captação de talento”, conta Vítor Papão.

Quando se fala em digitalização da economia, dos processos industriais e dos serviços de mobilidade (carros autónomos), inevitavelmente fala-se em perda de emprego, mas não tem de ser assim, comenta Ana Lehmann. Aliás, a secretária de Estado é até bastante otimista e, apesar de reconhecer que há grandes desafios pela frente, considera que nos empregos do futuro, apesar de incertos, “pode ser possível combinar as máquinas e os humanos”.

“Há mercados que desaparecem, mas aparecem outros e essas pessoas que ainda são válidas têm de se dedicar a outras coisas”, diz. Opinião partilhada pelo responsável da direção de coordenação das Universidades do Santander, Marcos Ribeiro. “Os estudos apontam que inúmeros empregos vão ser eliminados, mas outros tantos ou mais serão criados e julgo que serão mais interessantes”, confessa.

Contudo, ambos entendem que é preciso ajudar nessa adaptação. Aliás, para todos os oradores deste debate, a requalificação dos trabalhadores é um dos maiores desafios da digitalização da economia. E para se conseguir isso é preciso recorrer à formação continuada nas empresas, a cursos profissionais ou cursos para trabalhadores nas universidades. “Enquanto trabalhadores nunca vamos deixar de aprender. Um curso não prepara para a vida. O ensino é uma palavra datada”, conclui.

Inês Oom de Sousa, administradora do Santander, abriu o encontro

Inês Oom de Sousa, administradora do Santander, abriu o encontro

Nuno Fox

Citações

Como trabalhadores, nunca podemos deixar de aprender. Do trabalhador de base ao grande gestor, a única certeza é que tem de haver um processo de aprendizagem contínua
Ana Teresa Lehmann
Secretária de Estado da Indústria

Hoje vivemos uma quarta revolução industrial e espera-se uma transformação profunda na forma de trabalhar. As tarefas a desempenhar por humanos serão mais qualificadas
Marcos Ribeiro
Direção de Coordenação das Universidades do Banco Santander

Há coisas que continuam a ser transversais às diferentes gerações. O papel das universidades não se deve esgotar na formação e deve ser também de ajuda às empresas. Tem que haver colaboração para dar as ferramentas necessárias para preparar estas pessoas para o futuro
Vítor Papão
Director-geral da Gilead Sciences

É muito natural que as pessoas procurem a experiência de trabalhar fora. Acho bem, desde que haja condições para acolher estas pessoas de volta. E muitas vezes, isto não acontece. Temos que ter retorno com uma parte deles. Há todo um conjunto de benefícios que podem ser importantes
Gonçalo Simões
Partner da Deloitte

Captar e formar talento é um tema muito atual e que afeta vários sectores. É um tema estratégico para nós ajudarmos os nossos clientes nos grandes desafios
Inês Oom de Sousa
Administradora do Banco Santander

A secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehman, foi uma das convidadas do debate

A secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehman, foi uma das convidadas do debate

NUNO FOX

O que pensam os millennials e a geração Z sobre as empresas?

A Deloitte publicou em maio um estudo a nível mundial sobre como os millennials (jovens trabalhadores) e a geração Z (estudantes) olham para o mercado de trabalho e para as empresas e aquilo que procuram de um emprego

O que são os millennials? São pessoas nascidas entre 1980 e 2000, mas neste estudo a amostra é mais específica: nasceram entre janeiro de 1983 e dezembro e 1994, têm um curso superior e estão empregados a tempo inteiro, a maioria em empresas privadas.

O que é a geração Z? São os jovens que nasceram entre 1990 e 2010, mas neste caso específico nasceram entre janeiro de 1995 e dezembro de 1999. Estão todos a estudar ou acabaram agora a faculdade e alguns estão já empregados.

O que pensam os millennials?

  • As empresas estão cada vez menos éticas (48% em 2018 contra 65% em 2017) e os seus líderes não estão empenhados em ajudar a sociedade (47% contra 62% no mesmo período).
  • A indústria 4.0 assusta-os porque parte dos empregos pode ser substituído. 17% acredita nisso.
  • Para eles a flexibilidade é mais importante que a fidelidade. 43% planeiam deixar o atual emprego dentro de dois anos.
  • Caso deixem o emprego, a opção não é ir para um trabalho com contrato efetivo, mas sim aderir à “gig economy”, ou seja, um mercado de trabalho caracterizado por contratos de curto prazo e trabalho freelance.

O que pensa a geração Z?

  • Apenas 3 em cada 10 jovens que já trabalham acreditam que têm competências para ter êxito na indústria 4.0
  • Dizem que grande parte dos empregadores não os prepara para a indústria 4.0 (só 42% disseram que sim).
  • A fidelidade e os contratos de longa duração são ainda mais baixos na geração Z — 61% afirmam que dentro de dois anos podem deixar a empresa.
  • Esta geração pensa também em aderir à “gig economy”.

CONCLUSÃO O que os millennials e a geração Z estão à procura nas escolas e empresas não é conhecimento técnico, mas sim ajuda para desenvolver competências como a confiança, relações pessoais, ética e integridade. E entendem que não é isso que está a acontecer.

Empresas Mais Fortes

Trabalhar no mercado global
A sexta e última conferência do projeto do Expresso e do Banco Santander, que olha para os desafios que esperam as PME portuguesas, realiza-se em finais de outubro e é sobre “Trabalhar no Mercado Global”. A retoma mundial está a levar as empresas portuguesas para outras geografias. Superar os desafios dos novos mercados é absolutamente essencial para o sucesso das PME, que estão a internacionalizar-se para crescer. Assista aos debates através do Facebook do Expresso e participe enviando-nos as suas perguntas

Textos originalmente publicados no Expresso de 29 de setembro de 2018