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Mercados em setembro aguentaram-se. Mas riscos engordaram

Tiago Miranda

Índice mundial de bolsas registou ganhos pelo terceiro mês consecutivo. Escalada da guerra comercial, rebelião do défice em Itália, perspectiva de Brexit sem acordo e subida do preço do petróleo marcaram o final do mês. PSI 20 em Lisboa perdeu 1,2%. Agenda de outubro 'quente'

Os analistas anteviam que setembro iria ser, como habitualmente, o pior mês do ano para as bolsas, com o pânico a subir. O aniversário dos dez anos da falência do Lehman Brothers e do crash em Wall Street em Setembro de 2008 provocou o regresso do pessimismo com muitos economistas de nomeada a dizerem que as ‘lições’ da última crise já foram esquecidas.

Mas o índice MSCI para o conjunto das bolsas à escala mundial registou em setembro ganhos pelo terceiro mês consecutivo, ainda que muito modestos e claramente inferiores aos dos dois meses anteriores. Os índices de pânico financeiro desceram em Wall Street, na zona euro e na China. Nas praças importantes, a exceção foi Tóquio, onde a volatilidade subiu em setembro, mas o principal índice bolsista, o Nikkei 225, ganhou 5,6%.

Olhando os números, de facto, o índice mundial MSCI avançou 0,26% em setembro, com um bom desempenho das praças dos mercados emergentes da América Latina, da China e de quase todos os alcunhados de BRATS (acrónimo para Brasil, Rússia, Argentina, Turquia e África do Sul). O índice MSCI para as duas bolsas mais importantes do mundo em Nova Iorque registou um ganho mensal de 0,32%. Apesar da turbulência em Itália e na Argentina, os índices bolsistas MIB e Merval respectivos subiram em termos mensais.

Temia-se o pior para o mercado cambial nos BRATS em setembro. Contudo, a realidade foi outra: as moedas respetivas subiram face ao euro e ao dólar, salvo no caso do peso argentino que caiu para mínimos depois do Fundo Monetário Internacional (FMI) ter obrigado a que a moeda flutuasse dentro de uma banda em relação ao dólar. Christine Lagarde, a directora-geral do Fundo, subiu o resgate gigante à Argentina para 57,1 mil milhões de dólares (quase 50 mil milhões de euros) e antecipou injecções de dólares para 2019, mas colocou condições duras ao governo do presidente Macri.

O reverso da medalha

Contudo, os pessimistas não se enganaram totalmente sobre a maldição histórica do mês de setembro. O índice MSCI para as bolsas do conjunto dos emergentes perdeu 0,76% e as praças da zona euro e da Ásia Pacífico caíram 0,21% e 0,15% respectivamente. O pior desempenho nos grandes emergentes ocorreu na bolsa de Mumbai, com os índices a afundarem-se 6%.

O índice PSI 20, na bolsa de Lisboa, perdeu 1,2%; pior Amesterdão e muito pior Atenas (que se afundou 5,2%).

Nova Iorque subiu no índice global, mas o S&P 500 afundou-se 5,8%, o Nasdaq (bolsa das tecnológicas em Times Square) caiu 0,8%, e o índice para as acções dos bancos cotados (índice BKX) perdeu 4,7%. O índice FANG+ - que reflecte o comportamento das 10 principais ‘estrelas’ da economia digital mundial cotadas nos EUA – caiu 4,2%. O índice Baltic Dry, que serve de termómetro do comércio internacional, recuou 2,5%.

Herança pesada para outubro

Os mercados começaram a agitar-se na ponta final do mês, pois os riscos engordaram. A herança para os meses seguintes é pesada: guerra comercial, endurecimento do Brexit, desafio de Roma a Bruxelas, subida do preço do ouro negro, vulnerabilidades em economias emergentes, consolidação dos juros da dívida norte-americana acima de 3% tornando os títulos dos EUA um íman para os fluxos de capitais, desviando-os do resto do mundo.

O analista norte-americano Mark J. Lundeen conclui no seu comentário de final do mês que "ao entrarmos em outubro, o meu pressentimento é que o mercado de ações está agora a oferecer aos investidores cada vez mais risco do que recompensa".

Wall Street ficou nervosa com o sinal negativo que a Reserva Federal (Fed), o banco central norte-americano, deu com o presidente Jerome Powell a distanciar-se claramente dos malefícios da guerra comercial da Administração Trump e a sublinhar que o “coro de preocupações” da comunidade empresarial dos EUA é cada vez mais ruidoso.

A Fed subiu na reunião de setembro a taxa directora para o intervalo entre 2 e 2,25% e os mercados de futuros dão uma probabilidade elevada para o anúncio de uma nova subida de 25 pontos-base (0,25 pontos percentuais) a 19 de dezembro. Na próxima reunião, a 7 e 8 de novembro, não se esperam mexidas na política monetária, mas Powell será certamente ‘apertado’ sobre o tema da guerra comercial e acerca dos efeitos nos mercados emergentes de uma taxa directora que poderá chegar a 3,5% em 2020. Historicamente não é, ainda, elevada, mas o suficiente para fazer mossa nos emergentes.

Olhos postos em Bali, Brasília, Londres e Roma

O risco de uma terceira fase no confronto aduaneiro entre os EUA e a China é elevado e a abertura ou reabertura de outras frentes proteccionistas está no horizonte, dependendo dos tweets do inquilino da Casa Branca. Continua pendente o fecho do acordo entre os EUA, o Canadá e o México para a revisão da NAFTA. A sua conclusão pode dar um sinal de desanuviamento pelo menos no espaço da América do Norte.

Há uma grande expectativa sobre a revisão de previsões económicas que o FMI vai anunciar na assembleia geral em Bali, na Indonésia, de 12 a 14 de outubro.

As eleições presidenciais no Brasil, com duas voltas a 7 e 28 de outubro, vão marcar o panorama político na América Latina e o futuro deste BRICS. O real perdeu 17% desde início do ano, mas o índice iBovespa da Bolsa de São Paulo já subiu 3,9% este ano e a taxa directora (Selic) do Banco Central do Brasil baixou para 6,5% em março. O Comité de política monetária do banco reúne-se a 19 de outubro, no intervalo entre as duas voltas.

O preço do petróleo, uma das matérias-primas críticas para a economia mundial, subiu quase 7%, fechou setembro em 82,88 dólares, um máximo de quatro anos, e os especialistas já discutem um cenário de 100 dólares o barril, depois de uma nova vaga de sanções ao Irão entrar em vigor em novembro.

Outubro promete ser ‘quente’ na zona euro com a rebelião do governo italiano quanto ao défice para o orçamento de 2019 na terceira maior economia do euro. A coligação no executivo, contra a vontade do ministro da Economia, aponta para um défice orçamental de 2,4% de 2019 a 2021 e um pacote de investimentos de 15 mil milhões de euros. Os juros dos títulos transalpinos a 10 anos estabilizaram acima de 3%, tendo registado um máximo de mais de quatro anos, em 3,26%, durante a sessão da última quinta-feira. O orçamento deverá seguir para Bruxelas a 15 de outubro. Pelas mãos de Mário Centeno, o presidente do informal Eurogrupo e ministro das Finanças português, vai passar este dossiê escaldante.

O Banco Central Europeu (BCE) vai reduzir para metade o volume mensal de compras de ativos a partir de outubro até descontinuar o programa no final do ano. A rebelião italiana vai ser um tema quente para Mario Draghi digerir na reunião de 25 de outubro do BCE destinada à política monetária..

O cenário de um Brexit sem acordo ensombra as negociações entre Londres e Bruxelas e a situação no Reino Unido é de contínua crise política. A conferência do Partido Conservador da primeira-ministra Theresa May começa este sábado em Birmingham e estende-se até 3 de outubro. O Conselho Europeu reúne-se a 17 e 18 de outubro.