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CEO saem da crise com 50% de aumentos

António Mexia, CEO da EDP

Foto Luís Barra

Nas empresas do PSI-20, os líderes estão a ganhar na comparação entre 2010 e 2017. Já os trabalhadores perdem 6,2%

Os presidentes-executivos (CEO) das empresas cotadas do PSI-20 ultrapassaram o período do resgate da troika com um aumento salarial de 49,7%. Já os trabalhadores perderam 6,2%. Como resultado, entre 2010 e 2017, o pay-gap (fosso salarial entre as remunerações auferidas pelos CEO das empresas e o salário médio dos trabalhadores) agravou-se. No ano passado, as remunerações brutas anuais dos CEO das empresas do PSI-20 eram, em média, 33 vezes superiores aos salários dos trabalhadores. Há oito anos, os líderes ganhavam 24 vezes mais. E casos há em que a remuneração do líder é 160 vezes superior ao salário médio auferido pelos trabalhadores que lidera. Os valores relativos a 2010 referem-se, ainda assim, a um ano anterior à chegada da troika a Portugal mas em que havia já alguns efeitos da crise financeira internacional. Quando se analisa o período da recuperação da economia, a partir de 2013, quando o PIB bateu no fundo, a diferença é também abissal: 35,8% de aumento nos CEO e 6% nos trabalhadores.

Na semana em que PS e Bloco de Esquerda levaram a questão da disparidade salarial a discussão no Parlamento, o Expresso analisou os relatórios e contas das 18 empresas cotadas que integram o índice principal da Bolsa portuguesa, para traçar a evolução das desigualdades salariais em Portugal entre 2010, o ano anterior à chegada da troika, e 2017, o último ano disponível.

Quase um milhão de euros era, no final do ano passado, a remuneração média dos presidentes executivos das empresas do PSI-20, considerando as componentes fixa e variável e excluindo complementos de reforma e outros benefícios sociais. Nesta contabilização não foi considerada a Pharol (ex-PT SGPS), pelo facto de a empresa não ser neste momento comparável com a PT SGPS, que era a holding do Grupo Portugal Telecom e incluía as várias operações em diferentes países que entretanto foram vendidas. No somatório das restantes 17 empresas, os CEO levaram para casa quase €17 milhões no último ano. A média das suas remunerações aumentou quase 50% nos últimos oito anos.

Do lado dos trabalhadores, as contas são inversas. Comparando com 2010, a média salarial dos trabalhadores (ponderada pelo número de funcionários em cada empresa cotada) sofreu, em 2017, uma redução de 6,2%. Há oito anos, o salário médio bruto anual ponderado nestas empresas era de €22.865. No último ano, o valor médio desceu para €21.451. Para esta redução terão contribuído empresas como a Altri, BCP, Grupo Ibersol, Mota-Engil, Navigator, Sonae Capital e Ramada, que nivelaram por baixo os salários praticados.

Fosso agrava-se

Durante estes anos, o gap salarial entre líderes e trabalhadores agravou-se. Se em 2010 os CEO ganhavam em média 24 vezes mais do que os profissionais da empresa, em 2017 a remuneração do CEO era 33 vezes superior. E a disparidade pode até ser maior. É que na análise realizada ficaram de fora os trabalhadores que integram estas empresas em regime de outsourcing (externalização de serviços). Isto porque a forma usada pelo Expresso para apurar o salário médio passou por dividir os custos com pessoal pelo número de funcionários. Ora, os custos com os trabalhadores em regime de outsourcing não são contabilizados nesta rubrica, estando incluídos na categoria de fornecimentos e serviços externos, o que não permite calcular o valor destes salários. Contudo, são normalmente inferiores aos praticados na empresa. Em sectores como o das telecomunicações, por exemplo, a percentagem de trabalhadores nestas condições será, à partida, suficiente para acentuar a desigualdade salarial face ao CEO.

E nem mesmo os efeitos da crise foram suficientes para corrigir as desigualdades. Se tomarmos como referência o retrato financeiro das cotadas do PSI-20 em 2013, ano em que a economia portuguesa bateu no fundo, percebemos que desde então os salários dos CEO continuaram a crescer (36%), tal como o fosso salarial entre líderes e trabalhadores. Há quatro anos, os presidentes executivos das empresas do PSI-20 ganhavam cerca de 27 vezes mais do que os seus funcionários, cuja média salarial anual bruta (ponderada) era €20.244. Recorde-se que em 2017 esta assimetria era de 33 vezes.

Porém, e ao contrário do que sucedeu nos anos iniciais da crise, a recuperação iniciada em 2014 teve um efeito positivo nos salários médios ponderados dos trabalhadores. Embora estes continuem a ganhar menos do que em 2010, face a 2013 a remuneração média bruta anual dos trabalhadores das cotadas sofreu um acréscimo de 6%. Um número, contudo, cerca de um quinto do aumento conquistado pelos CEO no mesmo período de tempo.

Para este incremento terá contribuído a recuperação do emprego, com o desemprego em forte queda, levando já alguns sectores a sentirem escassez de profissionais qualificados. Outro fator incontornável nesta análise é a subida do salário mínimo nacional, que passou de €485 mensais (2013) para €557 em 2017 e €580 já este ano. Fatores que podem justificar que empresas como NOS, Jerónimo Martins ou Mota-Engil tenham liderado os incrementos na média salarial dos trabalhadores entre os anos de 2013 e 2017. No operador de comunicações, a média salarial dos trabalhadores aumentou 109% neste período de tempo. Já a Jerónimo Martins e a Mota-Engil ficaram-se pelos 33% e 22,4%, respetivamente.

Os líderes da disparidade salarial

Na lista dos CEO mais bem pagos do PSI-20, António Mexia, CEO da EDP, é sucessivamente referido como exemplo. E confere. No último ano, o presidente executivo da elétrica nacional teve direito a uma remuneração de €2,2 milhões (entre componente fixa e variável), 39 vezes mais do que o salário médio dos seus trabalhadores. Mas António Mexia está longe de ser o maior exemplo de disparidade salarial entre líderes e trabalhadores nas cotadas, ainda que o salário dele tenha aumentado 116,9% entre 2010 e 2017, enquanto o salário médio dos trabalhadores não tenha ido além de um aumento de 23,7% no mesmo período.

O caso mais gritante é Pedro Soares dos Santos, presidente executivo da Jerónimo Martins. No último ano, o gestor faturou €2 milhões, 160 vezes mais do que o salário médio anual dos seus trabalhadores. E o fosso entre a sua remuneração e a dos seus funcionários tem estado a aumentar desde 2010. A média salarial praticada na empresa aumentou 31% nos últimos oito anos, fixando-se em €12.534 brutos anuais. O salário do líder subiu 161%. Em oito anos, o pay-gap da empresa mais do que duplicou.

Também a Sonae está nas posições cimeiras em termos de disparidade salarial. Paulo Azevedo, co-CEO da empresa, ganha 37 vezes mais do que a média dos seus trabalhadores. Contudo, em 2010 — quando havia apenas um presidente executivo e não dois como atualmente —, o fosso era ainda maior, atingindo as 70 vezes. Nesta lista está também a Mota-Engil, onde o CEO Gonçalo Moura Martins ganha 41 vezes mais do que os trabalhadores que lidera. O gestor auferiu no último ano uma remuneração de €537 mil, quando o salário médio bruto anual na empresa não vai além de €17.992.