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Trump “encosta a faca ao pescoço” de Pequim

As duas maiores economias do mundo estão em guerra.Trump aplica um novo pacote de tarifas alfandegárias sobre as importações chinesas. Pequim retalia, fala de “mentalidade de guerra fria” e cancela ronda negocial com os EUA

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EUA Washington põe em marcha a segunda fase do ataque às importações da China. As balas já não são de borracha e o mundo treme

O alerta contra a política protecionista do presidente Donald Trump é de Jim Hackett, presidente executivo da Ford, um dos maiores fabricantes automóveis dos EUA, e tem números concretos: “As tarifas aduaneiras sobre as importações de metal já nos tiraram mil milhões de euros de lucros (...). Se isto continua os danos serão ainda maiores.”

“Temos de negociar com a China”, defende o gestor numa entrevista à Bloomberg na mesma semana em que os EUA cumpriram a ameaça de lançar novas tarifas aduaneiras sobre seis mil produtos importados da China, no valor de 200 mil milhões de dólares (€170 mil milhões), e Pequim retaliou com novas taxas sobre produtos norte-americanos no valor de 60 mil milhões de dólares (€51 mil milhões).

Mas se as palavras de Hackett tiveram eco à escala mundial, enquanto as bolsas reagiam no vermelho à escalada da tensão entre as duas maiores economias mundiais, a Organização Mundial do Comércio revia em baixa as previsões de crescimento económico para 3,9%, contra os 4,4% avançados em abril, preocupada com “crescentes tensões comerciais” no globo, ou o gigante de comércio eletrónico Alibaba desistia dos planos de criar um milhão de empregos nos EUA, a Casa Branca optou por manter o confronto e assumir um tom de vitória.

Aproveitando o palco que teve no Conselho de Segurança das Nações Unidas, terça-feira passada, Donald Trump acusou a China de tentar interferir contra a sua administração nas eleições para o congresso, agendadas para 6 de novembro. Um dia depois, no Twitter, escreveu: “A China está efetivamente a colocar anúncios de propaganda no ‘Des Moines Register’ e noutros jornais, de forma a parecerem notícias. Isto acontece porque estamos a batê-los no comércio, a abrir mercados, e os agricultores vão fazer uma fortuna quando isto acabar”.

Na mesma linha, em nome do equilíbrio do comércio mundial, o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo aproveitou uma entrevista à Fox News para deixar claro que a Casa Branca olha para as relações comerciais entre os dois países “como uma guerra comercial” . “Se a China quiser ser uma potência global, um Estado de Direito, não pode roubar propriedade intelectual. É isso que o povo americano exige e que os trabalhadores americanos merecem”, acrescentou.

Há mais taxas anunciadas

A China não foge ao braço de ferro. No discurso político, acusa Trump de ter “encostado uma faca ao pescoço” de Pequim, fala de bullying comercial e de “guerra fria”. No terreno, suspendeu as negociações bilateriais entre os dois países. Na frente comercial, anuncia uma redução de taxas sobre produtos da maioria dos parceiros comerciais do país a partir de outubro, a par do contra-ataque direto com tarifas sobre as importações norte-americanas.

“Estamos num cenário real de guerra comercial”, diz ao Expresso Óscar Afonso, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto e especialista em comércio internacional. Trump assume, aqui “uma lógica mercantilista”, que encaixa em práticas económicas anteriores à revolução industrial, marcadas pela intervenção do Estado na economia e restrição das importações, refere Óscar Afonso, sublinhando que historicamente o crescimento mundial tem sido gerado por políticas de livre troca.

As balas já não são de borracha e os disparos prometem intensificar-se. Quando tudo começou, em março, Trump alegou razões de segurança nacional para anunciar ao mundo novas tarifas alfandegarias de 25% sobre as importações de aço e de 10% sobre o alumínio. Agora, com o foco na China, impõe novas taxas de 10% sobre uma lista mais alargada de produtos que junta alimentos, papel, tecnologia e equipamento, avisando que poderão subir até 25% em janeiro.

Em causa está também, dizem os analistas, uma reação ao plano “Made in China 2025”, desenhado em Pequim para transformar o país numa potência tecnológica, com capacidade em sectores de alto valor acrescentado como a inteligência artificial, a energia renovável, a robótica, a mobilidade elétrica.

E porque é que os EUA fazem tiro ao alvo às importações chinesas no valor de €200 mil milhões de dólares e a resposta de Pequim fica pelos 60 mil milhões? Exatamente pelo desequilíbrio das relações comerciais atuais entre os dois países, uma vez que a balança comercial da China com os EUA tem um superavit de €236 mil milhões.

A curto prazo, Trump pode conseguir investimento e criação de emprego, mas haverá sempre uma fatura a pagar pelo consumidor. Empresas como a Apple garantem que a guerra comercial encarece os seus produtos, enquanto a Intel fala do risco do país perder a corrida do 5G, nas telecomunicações móveis.