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Sector automóvel tem de contratar 10 mil

Qualificar o sector automóvel é um dos caminhos para eliminar as dificuldades de contratação

FOTO VCG via Getty Images

Crescimento do sector está a agravar a escassez de talento qualificado. Empresas não conseguem contratar

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

Nos primeiros oito meses do ano, a produção de automóveis ligeiros de passageiros aumentou em Portugal 117,3% face a igual período de 2017. Os dados da Associação do Comércio Automóvel de Portugal (ACAP) são o retrato de um sector dinâmico, que exporta 96,4% da sua produção, mas que não consegue atrair talento. E o problema não reside apenas em recrutar profissionais altamente qualificados. Os menos qualificados também não estão disponíveis. Às empresas que compõem a indústria automóvel nacional faltam, no imediato, cinco mil profissionais. Em quatro anos serão dez mil, segundo as contas de José Couto, presidente da Mobinov, a associação do cluster automóvel nacional. O líder falou ao Expresso à margem da conferência “O Futuro das Qualificações e do Trabalho na Indústria Automóvel”, esta semana realizada, e que promoveu o debate em torno dos desafios de contratação no sector.

Até 2022, a produção nacional de veículos deverá acelerar, aumentando as necessidades de contração por parte das empresas em, pelo menos, dez mil novos profissionais. Um terço terá de possuir competências técnicas muito específicas. A manterem-se as atuais dificuldades de recrutamento, os planos de expansão do sector podem estar comprometidos, alerta José Couto. O presidente da Mobinov confirma que “muitas das multinacionais que se têm instalado no país não estão a conseguir satisfazer as suas necessidades de mão de obra”. Esta limitação, explica, “leva a que, em alguns casos, investimentos previstos sejam desviados para outros países, como por exemplo Marrocos”.

As cerca de mil empresas que operam no sector automóvel nacional (produtores e fornecedores de peças e componentes para esta indústria) empregam atualmente 75 mil trabalhadores. No último ano o sector registou um volume de negócios superior a €10,5 mil milhões, o equivalente a 6% do PIB nacional. Resultados que dependem diretamente do investimento, mas também da qualidade dos recursos humanos. E com a crescente transformação tecnológica das empresas, as dificuldades em matéria de recursos humanos podem mesmo acentuar-se. “As empresas têm de perceber o que precisam de fazer para atrair talento e capacitar os profissionais que já têm disponível para enfrentar o salto tecnológico que se avizinha”, defende José Couto.

Escassez em toda a linha

Segundo um levantamento ao sector automóvel realizado este ano pela consultora Deloitte, em parceria com a Mobinov, 21% dos trabalhadores ligados à fabricação automóvel em Portugal possuem qualificações superiores. Mas, garante José Couto, as dificuldades de contratação são transversais aos profissionais com menores e maiores qualificações. Até porque, enfatiza, “o problema não é só o grau de qualificação. É a associação dessa qualificação à experiência, que é muito importante num sector com a especificidade deste”.

Pedro Silva, diretor da consultora de formação OPCO que assegura formação aos profissionais do sector, corrobora: “Se entre os profissionais com menos qualificações não encontramos pessoas disponíveis para trabalhar no sector, entre os mais qualificados encontramos, junto das universidades com competências mais transversais e abrangentes, mas não com as competências específicas que a indústria exige.” A emigração dos últimos anos e a saída de muitos profissionais para o estrangeiro terá a sua quota parte de responsabilidade neste cenário. E José Couto confirma que há já empresas a lançar planos de recrutamento focados em trazer de volta estes profissionais. Mas, “competir com os salários praticados no estrangeiro não é fácil”, reconhece.

Segundo o levantamento realizado pela Deloitte, a remuneração no sector, para trabalhadores com qualificações médias, ronda os €22.450 brutos anuais. Na restante indústria transformadora a média é de €17.220. A maioria das empresas recruta profissionais com qualificações ao nível do 12º ano e ensino profissional, mas há também procura de licenciados em áreas como as engenharias mecânicas, engenharia de processos, tecnologias ou outras. Nenhum destes grupos está isento da necessidades de formação específica assegurada pelas empresas. Presidente da Mobinov e diretor da OPCO estão em sintonia na convicção de que um dos grandes desafios atuais do sector é trabalhar em parceria com as universidades, escolas profissionais e demais entidades formativas para capacitar os trabalhadores e formar novos profissionais.

E há já bons exemplos desta cooperação entre a indústria e a academia. O Instituto Politécnico da Guarda, associou-se às empresas do sector para criar um curso técnico superior profissional de indústria automóvel e um centro tecnológico que servirá para apoiar o sector. “Sabemos que só teremos uma indústria competitiva e capaz de atrair talento se tivermos profissionais de excelência”, defende José Couto, que relembra “enfrentar a Indústria 4.0 exige um incremento da qualificação dos profissionais. Mesmo os operários de chão de fábrica são hoje mais qualificados e precisamos dessa crescente qualificação”.

A OPCO realizou um estudo às necessidades de qualificação das empresas do sector automóvel que espelha um investimento crescente das empresas na formação dos seus quadros. A empresa que lidera forma entre 750 a 1000 profissionais por ano em áreas específicas da indústria automóvel. “As empresas investem e muitas vezes, depois de obterem as qualificações, os profissionais tornam-se apetecíveis para a concorrência“, explica o diretor sugerindo que o custo de não qualificar é sempre muito superior ao de investir num profissional que depois ‘foge’ para a concorrência.