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Há dez anos Wall Street registou a terceira maior queda da história

Em Nova Iorque, Wall Street terminou em baixa na terça-feira, com o Dow Jones a cair 0,16%, para 18.011,94 pontos

JUSTIN LANE / EPA

A 29 de Setembro de 2008, uma segunda-feira, no auge da crise financeira, a bolsa de Nova Iorque sofreu um terramoto com o seu principal índice a dar um trambolhão de 777,68 pontos, até então a maior queda diária da história do índice criado em 1896

Passavam apenas duas semanas desde a surpresa provocada pela falência em Nova Iorque do banco de investimentos Lehman Brothers quando Wall Street foi abalada por uma queda de que não havia memória. O principal índice bolsista norte-americano, o Dow Jones dava um trambolhão diário de 777,68 pontos, até então o maior da história daquele índice desde a sua criação em 1896 por dois jornalistas financeiros, Charles Dow e Edward Jones. Nesse dia, o índice MSCI mundial perdeu 6%, a maior queda da sua história desde que foi criado em 1970.

A queda a pique do Dow Jones naquela sessão de uma segunda-feira foi provocada pela rejeição pelo Senado dos Estados Unidos de uma proposta de resgate do sistema financeiro apresentada por Henry Paulson, então secretário do Tesouro da Administração George W. Bush, e por Ben Bernanke, um especialista na Grande Depressão de 1919, então presidente da Reserva Federal (Fed), o banco central dos EUA. O Congresso só aprovaria a proposta em outubro.

A queda histórica de 29 de Setembro há dez anos foi depois ultrapassada recentemente. A 5 de fevereiro de 2018 o Dow Jones afundou-se 1175,21 pontos – precisamente neste ano em que recordamos os acontecimentos de Nova Iorque que provocaram uma crise financeira de que não havia memória há mais de três gerações. E três dias depois, a 8 de fevereiro, o Dow Jones afundava-se 1032,89 pontos.

Se as quedas do Dow Jones forem avaliadas em termos relativos, a galeria de crashes coloca o terramoto de 29 de Setembro de 2008 em 20º lugar, com um recuo de 6,98%. Os mais devastadores ocorreram a 19 de outubro de 1987, com uma quebra de 22,61% daquele índice, e em 28 de outubro – o fatídico mês de outubro, sempre reincidente – de 1929, com uma queda de 12,82%. Com uma diferença, em outubro de 1929, a crise financeira norte-americana geraria uma Grande Depressão à escala mundial; em 1987 ficou-se pelo episódio que começara em Hong Kong, se estendera pela Europa e depois chegaria a Wall Street.

Da ignorância dos economistas …

No aniversário da crise de 2008 neste mês de setembro, Rob Johnson, o presidente do Institute for New Economic Thinking, acusou: “A crise foi produto de políticas destrutivas e da ignorância académica”. A alimentação da ‘bolha’ especulativa está suficientemente estudada nos seus eventos e detalhes. Mas a “ignorância” académica está menos.

A maioria dos economistas e dos analistas financeiros não tinham, em 2008, memória de dois padrões do capitalismo: a incerteza radical e a instabilidade financeira crónica. A primeira é aquela que as estatísticas e a avaliação de risco não captam, e para a qual chamaram a atenção, há muitas décadas atrás, o economista britânico John Maynard Keynes e o norte-americano Frank Knight, da Universidade de Chicago. A segunda é aquela que quase todos se esquecem passada a crise e foi explicada pelo economista norte-americano Hyman Minsky nos anos de 1960 e 1970, quando avisou que a grande crise de 1929 se podia repetir.

… ao bufê de Paul Krugman

Finalmente, os padrões das crises existem, sobrevivem através da história do capitalismo moderno, mas os eventos não são gerados pelas mesmas causas necessariamente e não se repetem do mesmo modo.

O perfil do que se passou há dez anos não é necessariamente o “modelo” da próxima crise, de que tanto se começou a falar por ocasião deste aniversário da crise de 2008. Como ainda escreveu, recentemente, Paul Krugman no seu blogue no The New York Times, a próxima pode advir de uma confluência “de pequenas coisas, mais do que de uma dominante”.

O Nobel baptizou este “modelo” de geração de crise um “smorgasbord” - a refeição sueca de múltiplos pratos. Ou seja, pode ser um bufê de causas em curso do que um prato único, como o rebentar da bolha de crédito.

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