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Plataformas digitais devem partilhar receitas com os media? Google e Impresa divergem

studioEAST/Getty Images

Bernardo Correia não concorda com a ideia de que a Google não quer partilhar receitas com produtores de conteúdos. O diretor-geral da tecnológica em Portugal respondia às acusações do presidente da Impresa, que criticava "o dogmatismo do Google e do Facebook de não pagarem pelos conteúdos noticiosos"

O tom entre a Google, a RTP e a Impresa (dona do Expresso) foi conciliador durante quase todo o debate "O Estado da Nação dos Media", que esta quarta-feira decorreu em Lisboa no congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC). Mas um dos (poucos) pontos da discórdia passou pela partilha de receitas entre as plataformas digitais, como o Google e o Facebook, e os produtores de conteúdos, nomeadamente os produzidos por jornais, televisões e rádios.

Apesar de elogiar o fundo da Google para apoiar a inovação no sector dos media, o Digital News Initiative (que permitiu à Impresa dar resposta "a algumas necessidades tecnológicas ao nível das subscrições digitais" do Expresso), Francisco Pedro Balsemão aponta armas contra as plataformas digitais. "Não percebo o dogmatismo do Google e do Facebook de não pagarem pelos conteúdos noticiosos", sublinha, acrescentando que esta divergência entre a Impresa e a Google é conhecida. "Foi muito evidente no debate sobre a diretiva dos direitos de autor, que felizmente foi aprovada e conseguimos passar para a próxima fase."

Numa referência à luta dos taxistas contra a lei que regula plataformas como a Uber e Cabify, o presidente da dona da SIC e do Expresso realça que não é contra o progresso. "Não quero ser um ludita que vai ocupar a Avenida da Liberdade, como acontece noutras profissões." Mas aponta que é necessário remunerar a produção original. "Consideramos que os nossos conteúdos devem ser remunerados. Ponto final."

Bernardo Correia acredita que, no longo prazo, "todas as condições se unem" para a Google ter os seus interesses alinhados com a indústria de notícias. E rejeita a ideia de que a multinacional não queira partilhar receitas com os produtores de conteúdo. "Não concordo", diz o diretor-geral para Portugal.

"O nosso modelo é 'advertising-funded' [financiado pelas receitas de publicidade]. No Youtube damos mais de metade das receitas de publicidade aos produtores", diz, acrescentando que a tecnológica quer "dar mais controlo aos produtores de conteúdos" no Youtube. "No Google News não há anúncios, por isso não partilhamos receitas de publicidade.”

Como resposta, o líder da Impresa acusa a Google de ser má pagadora."Em relação ao Youtube, o revenue-share [partilha de receitas] é muito baixo. Já falámos sobre isso. E para os youtubers também: trabalham muito e recebem pouco."

Google quer parcerias com televisões em Portugal

Questionado sobre o futuro e principais desafios da televisão, Bernardo Correia afirma que "hoje a grande questão não é a evolução do formato", que passa por "sinergias e agarrar oportunidades".

O diretor-geral da Google Portugal aponta a transmissão de programas televisivos no Youtube como uma forma de criar essas sinergias. "Em Espanha a Operação Triunfo montou uma parceria enorme com o Youtube em que os diretos têm obtido enorme audiência e trazido mais pessoas ao programa na televisão", conta. "O futuro passa por parcerias entre as televisões tradicionais e os distribuidores como a Google e o Youtube." E adianta: "Queremos fazer algumas parcerias em Portugal."

Gonçalo Reis afirma que as televisões generalistas continuam a ser "marcas muito fortes" e diz acreditar "nos movimentos pendulares". "Há momentos em que as pessoas gostam de uma diversidade total, mas há momentos em que preferem alguma curadoria."

O presidente da RTP defende que o negócio da televisão generalista continua "animado" e "dinâmico", tendo um papel fundamental na sociedade. "Gostamos de viver numa sociedade com meios de comunicação fortes, com redações, com pluralismo e capacidade de produzir conteúdos nacionais. É esse papel que as televisões generalistas cumprem muito mais do que as outras."