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Portugueses não conseguem beber mais. E abrem as garrafas ao mundo

Mathew Spolin

Vinho: o panorama do sector vinícola português e os possíveis caminhos de crescimento da produção foram o tema de destaque do Summit do Dão

Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa”, já dizia o início da canção tornada famosa pela voz de Amália Rodrigues. Não há dúvidas de que o sector vinícola (“não lhe chamem indústria”, pediu, entre risos, o presidente da ViniPortugal, Jorge Monteiro) desde cedo atingiu uma importância relevante, acompanhando o contributo económico essencial para muitas regiões. Num consumo que sempre viveu muito do mercado interno e que só nos últimos anos se começou a abrir ao exterior.

Estas são questões a que a região demarcada do Dão não escapa e a que os principais intervenientes oferecem respostas distintas a partir dos desafios reconhecidos pelos convidados do Summit do Dão. O Hotel Montebelo, em Viseu, foi palco da mais recente etapa do projeto “Os Nossos Campeões” — que junta SIC Notícias, Novo Banco e Expresso para dar a conhecer empresas que estão a liderar em todo o país —, que desta feita partiu da apresentação do estudo “O Sector do Vinho, Caracterização e Outlook” (cujas principais conclusões pode conhecer na página ao lado) para perceber os principais desafios que os produtores regionais enfrentam.

No dia que marcava o arranque da Festa das Vindimas na cidade, o edil, Almeida Henriques, lembrou que este ano se celebram os 110 anos da elevação do Dão a região demarcada e agradeceu a “uma nova geração de enólogos e produtores” o “salto fantástico que a região deu nos últimos anos”. Uma mudança radical desde que “dois australianos vieram ao Dão nos anos 80 ensinar- -nos a fazer vinho de acordo com as normas internacionais”, contou Jorge Monteiro, e que os números não desmentem. Presentes em 76 mercados, os vinhos do Dão atingiram os 18 milhões de litros vendidos em 2017, o que representa um crescimento de 42% face a 2015 e uma quota de mercado em Portugal de pouco mais de 2%. Só que ainda falta fazer muita coisa.

“O desenvolvimento terá de passar pelo meio humano, que é ainda escasso”, segundo Carlos Lucas. O responsável pela Magnum Vinhos acredita que, “mais do que o vinho em si”, este é o “grande desafio que a região enfrenta” e que exige um esforço mais concertado de investimento por parte das entidades responsáveis. É necessário criar “valor acrescentado no sector para cativar as pessoas a instalarem-se aqui”, defende Pedro Figueiredo, da Quinta da Falorca. Problema agravado pelo que José Matias, da Casa da Insua, considera ser “uma grande falta de formação”.

Por outro lado, é preciso enfrentar alguns problemas relacionados com a interioridade, como é o ter de se “pagar para entrar e sair” da região. “Enquanto exportador, custa-nos mais do que a qualquer outra região vinícola.” Quando assim é, “há algo a fazer”, revela Carlos Lucas, enquanto José Matias destaca a falta de acessibilidades, que complica o transporte e a entrada e saída de pessoas. A falta de acesso a financiamento também foi alvo de críticas, com Pedro Figueiredo a aproveitar mesmo para dizer que “a banca não entende bem o nosso negócio”.

São as lacunas endémicas que precisam de ser enfrentadas para continuar num caminho de crescimento. Que passa, todos concordam, por abrir mais as portas da produção vinícola. Até porque, como o chief economist do Novo Banco, Carlos Andrade, demonstrou na sua apresentação, praticamente não há margem para que o consumo doméstico cresça mais, e os mercados encontram-se agora focados “no valor e na qualidade, com clientes dispostos a pagar mais”. E aqui é que entram em cena duas visões contrastantes para o futuro.

Vender muito ou vender bem?

De um lado da cerca, Jorge Monteiro acredita que temos “um problema de escala”, que se reflete também em “olharmos muito para o preço por litro e não para o rendimento por hectare”. Elemento que pode fazer aumentar a produção, diminuir os custos e fazer subir a rentabilidade. Visão com que José Matias não concordou, ao defender que “o futuro não é massificar” e que não lhe “interessa vender muito”, mas sim “vender bem”. O que vai de encontro à ideia de Pedro Figueiredo, que prefere “aumentar o prato da venda, porque diminuir o dos custos é quase impossível” e não é “serviço para a região”.

Uma diferença entre opções que, apesar de tudo, não desvia os produtores dos dois grandes objetivos para o caminho a seguir: exportar e atrair turistas. “É evidente que o mercado externo paga melhor. Para quem consegue fazê-lo, é um mercado a longo prazo”, afirma Carlos Lucas, com toda a certeza de que “a ideia é cada vez mais vender lá para fora”. Sem perder a identidade do vinho português e a apostar nas castas autóctones, que representam mais de 85% do que produzimos e são algo que nos distingue, garante Jorge Monteiro.

O enoturismo também é visto como uma das apostas mais prementes para o futuro do sector, com Jorge Monteiro a considerar que é “um dos elementos mais importantes na promoção das marcas privadas”. Só que, aqui, a escala também aparece como problema, pois, se quisermos “encher um avião de enoturistas, não temos onde os alojar a todos”. Até lá chegar, é preciso antes trabalhar na promoção e “trazer cá as pessoas para as cativar”, diz Carlos Lucas. Através, por exemplo, de um convite aos “melhores jornalistas da área e sommeliers do mundo para virem cá por dois ou três dias”. Para José Matias, a região “tem de ser capaz de transmitir a sua identidade” e não ter receio de investir, só “porque os resultados não aparecem logo no ano seguinte”.

Tudo somado, e apesar de considerar a “consolidação do sector” como um fator crítico, o CCO do Novo Banco, Vítor Fernandes, mostrou-se muito otimista em relação ao futuro do sector e à região do Dão, num sentimento partilhado por toda a sala. Por isso mesmo, Pedro Figueiredo não tem meias-palavras: “O mundo é muito grande, há muita gente a beber vinho.”

De volta do vinho, a olhar para o futuro: com Pedro Santos Guerreiro a moderar, Carlos Lucas, Jorge Monteiro, José Matias, Pedro Figueiredo e Vítor Fernandes (da esq. para a dir.) debateram os números apresentados ao longo da sessão e discutiram a história da região demarcada do Dão e o que o seu futuro pode significar para o resto do sector em Portugal

De volta do vinho, a olhar para o futuro: com Pedro Santos Guerreiro a moderar, Carlos Lucas, Jorge Monteiro, José Matias, Pedro Figueiredo e Vítor Fernandes (da esq. para a dir.) debateram os números apresentados ao longo da sessão e discutiram a história da região demarcada do Dão e o que o seu futuro pode significar para o resto do sector em Portugal

Paulo Duarte

Retrato global do sector

3,2
foi a percentagem que o mercado do vinho cresceu em volume em Portugal, registando-se um aumento de 5,2% em valor, segundo o estudo do sector apresentado no Summit do Dão, em Viseu

€644
milhões em 2007 e €304 milhões na primeira metade deste ano foi a contribuição do sector para os saldos comerciais positivos

7,7%
foi o crescimento em exportações no ano passado em Portugal, o que diz da relevância do sector do vinho na economia do país

61%
do volume de negócios no sector do vinho é gerado pelas empresas exportadoras

Enriquecer a herança artística: o CEO do Novo Banco, António Ramalho, passa à frente de uma das duas obras de Jean-Baptiste Pillement que, na sequência de um acordo com o Estado, saiu do acervo do banco para o Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu, uma instituição para o futuro, de acordo com a mensagem enviada pelo ministro da Cultura, Luís Castro Mendes

Enriquecer a herança artística: o CEO do Novo Banco, António Ramalho, passa à frente de uma das duas obras de Jean-Baptiste Pillement que, na sequência de um acordo com o Estado, saiu do acervo do banco para o Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu, uma instituição para o futuro, de acordo com a mensagem enviada pelo ministro da Cultura, Luís Castro Mendes

Paulo Duarte

3 ideias para o vinho

O que podemos esperar para o futuro de um dos sectores mais marcantes da economia portuguesa? Três dos protagonistas do Summit do Dão deixam a sua sugestão

1. ANTÓNIO RAMALHO, CEO do Novo Banco
“Qualidade, marketing e imagem. São as três palavras-chave que permitirão que o vinho português que hoje em dia já é muito exportado — somos o 11º produtor mas o 9º exportador — possa elevar o nível das nossas vendas. Nós ainda vendemos a menos de metade daquilo que é o valor médio de França, que é talvez um exemplo extremo, e 10% abaixo da média mundial. Se conseguirmos melhorar isso, as nossas empresas serão também mais rentáveis e melhores.”

2. ALMEIDA HENRIQUES, Presidente da Câmara Municipal de Viseu
“Nestas questões tem de se pensar sempre à frente. Inovação, promoção e qualidade. Fazer com que as pessoas descubram cada vez mais estas paisagens ainda não descobertas do Dão, como os seus solares. Queremos juntar tudo isto para que efetivamente a região crie cada vez mais valor, não só em torno do negócio que o vinho em si traz mas também por todo o aspeto cultural que ele comporta, numa história que já é milenar.”

3. JORGE MONTEIRO, Presidente da ViniPortugal
“Nós andamos aqui a dizer que os vinhos portugueses vão ser o próximo hotspot da cena internacional de vinhos, e continuamos a acreditar nisso. Hoje já somos relevantes. O primeiro desafio foi entrar nos dez mais dos principais mercados. Em alguns, como Japão e Coreia, ainda estamos em 11º, mas nos países mais importantes do sector falam de nós. E é importante que se continue a falar, porque esta mensagem já chegou aos produtores, mas é preciso que chegue ao consumidor. Obviamente que o momento turístico que hoje vivemos vai ajudar-nos nisso, e acho que vamos ter um futuro melhor do que o presente.”

Textos originalmente publicados no Expresso de 22 de setembro de 2018