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Portugueses desconfiam mais das notícias divulgadas nas redes sociais do que nos motores de busca

© Dado Ruvic / Reuters

Entre 2015 e 2018 registou-se uma quebra de confiança nas notícias, conclui o Reuters Digital News Report. Apesar disso, Portugal é, juntamente com a Finlândia, o país onde mais se confia nos conteúdos noticiosos - mas também um dos países onde menos se paga por eles na internet

Os portugueses são, a par dos finlandeses, aqueles que mais confiam nas notícias. A conclusão é do Reuters Digital News Report 2018, a que o Expresso teve acesso, no qual se conclui que 62% dos inquiridos no país mostram confiança nas notícias em geral. Segue-se o Brasil (59%), a Holanda (59%) e o Canadá (58%) e, no fim da tabela, a Hungria (29%), a Grécia (26%) e a Coreia do Sul (25%).

Embora Portugal tenha subido do terceiro para o primeiro lugar do ranking dos 37 países analisados, entre 2015 e 2018 registou uma quebra de confiança nas notícias em geral de 65,6% para 62,1% (3,5 pontos percentuais). Já a confiança nos conteúdos efetivamente consumidos caiu de 71,3% para 62,3%.

Afirmar que se tem, regra geral, confiança nas notícias não é o mesmo que confiar numa determinada marca ou produtor. “Os portugueses podem consumir notícias, ter confiança genérica nelas e, simultaneamente, ter opinião negativa face às marcas que as divulgam”, lê-se no comunicado de imprensa.

A forma como acedem a estas também tem impacto, com os motores de busca a oferecerem maior segurança aos consumidores do que as redes sociais. Quase metade (48,2%) dos portugueses afirma confiar em notícias acedidas através de motores de busca, mas apenas 28,9% diz confiar nelas se forem obtidas através de redes sociais.

Ainda assim, as redes sociais são uma importante fonte de notícias, sendo utilizadas com esta finalidade por 15% dos portugueses - só na semana anterior à realização do inquérito, mais de metade dos portugueses utilizaram o Facebook como forma de aceder a notícias.

“Os baixos níveis de confiança nas redes sociais e as suspeitas sobre a legitimidade dos conteúdos online levanta preocupações sobre quanto tempo irá esta [confiança] durar”, notam Ana Pinto Martinho, Gustavo Cardoso e Miguel Paisana, do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e do OberCom - Observatório da Comunicação.

Desconfiar do ecossistema noticioso, confiar em marcas específicas

Notícias falsas, manipulação e má qualidade do jornalismo são algumas das preocupações da população portuguesa. Quase metade dos inquiridos diz ter-se deparado com erros factuais, histórias simplistas e títulos enganadores na semana anterior à realização do inquérito. Muitos garantem ter visto títulos que parecem notícias, embora sejam anúncios (41,6%), e 37,7% afirmam ter visto notícias com factos manipulados para servir agendas específicas.

Mas cerca de um quarto dos portugueses reconhece que o termo ‘fake news’ é também utilizado para desacreditar os meios de comunicação social com opiniões opostas. O estudo conclui ainda que, embora os portugueses desconfiem do ecossistema noticioso, “têm tendência a confiar em marcas específicas”: RTP, Expresso, Público e SIC são as que apresentam os maiores níveis de confiança.

A televisão e a internet são as principais fontes noticiosas, mas a primeira continua a conquistar 55% dos portugueses inquiridos no estudo (e a internet, incluindo redes sociais, apenas 34%). O domínio da televisão é também evidente ao verificar-se que as marcas mais utilizadas pelos portugueses são todas estações televisivas: SIC Notícias e SIC estão na liderança, seguidas pela TVI24, TVI e RTP.

Se analisarmos apenas o universo online, é o portal Sapo que está na linha da frente, seguido pela SIC Notícias, Notícias ao Minuto, Jornal de Notícias e Público. E no caso dos jornais em papel, os diários Jornal de Notícias e Correio da Manhã foram os mais lidos na semana anterior à resposta do inquérito.

Pagar pouco e bloquear anúncios

Apesar das notícias online serem quase tão populares como a televisão em termos de alcance semanal, ainda não existe uma solução eficaz para as monetizar. Em Portugal o desafio é particularmente grande, uma vez que o país é um daqueles onde menos se paga por notícias em formato digital.

Apenas 8,6% dos portugueses - especialmente homens mais velhos - pagaram por notícias online em 2017, menos 0,9% do que no ano anterior. Portugal equipara-se assim ao Chile e ao Canadá, situando-se abaixo da média de 12%.

Acresce ainda o facto de cada vez mais pessoas recorrerem ao adblocking para bloquear a publicidade associada às notícias: entre 2016 e 2018 a utilização deste software aumentou mais de 5% para 31,1%. Portugal é assim um dos nove países com maiores índices de bloqueio de publicidade online.

Embora a monetização continue a ser um desafio, os autores destacam algumas iniciativas no país que consideram positivas. Entre elas está a plataforma Nónio - financiada pela Google Digital News Initiative e criada pelos maiores grupos de comunicação no país para concorrer com gigantes como a própria Google ou o Facebook -, que permite aos consumidores acederem a mais de 70 sites noticiosos portugueses e aos media partilharem dados entre si de modo a aumentarem a sua quota no mercado publicitário.

O relatório, contudo, não pinta um futuro animador para o jornalismo. A apetência dos portugueses para pagarem por notícias caiu: apenas 31% pagou por publicações impressas na semana anterior ao inquérito (menos 6 p.p. que no ano anterior) e 9% por qualquer notícia em formato digital no ano passado. Este decréscimo, combinado com o aumento do recurso ao adblockling, “coloca uma enorme pressão sobre as receitas dos media tradicionais”, concluem os autores.

O Reuters Digital News Report 2018, o sétimo relatório anual do Reuters Institute for the Study of Journalism, é o quarto a incluir informação sobre Portugal, através da colaboração com o OberCom - Observatório da Comunicação. O estudo assenta numa amostra de 74194 inquéritos online realizados em 37 países durante o final de janeiro e o início de fevereiro, tendo sido aplicado em Portugal a uma amostra representativa da população (2008 inquiridos).

  • Consumo de notícias no Facebook está em declínio

    Apesar do uso geral desta rede social continuar elevado, o número de pessoas acedem a notícias através do Facebook diminui, conclui o Digital News Report do Reuters Institute for the Study of Journalism. Mudança de algoritmo do Facebook, notícias falsas, debates tóxicos e questões de privacidade são algumas das explicações