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Casafari. A startup que quer ser uma ‘Google’ do imobiliário

Nils Henning e Mila Suhareva são os fundadores da Casafari

nuno botelho

Foi criada há dois anos por dois alemães a viver em Espanha para ajudar a limpar o caos de dados do mercado. Este ano escolheu Lisboa para sede

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

A história da Casafari é igual à de muitas outras startups. Começou com duas pessoas, neste caso um casal de alemães, que estavam à procura de casa numa pequena aldeia das Ilhas Baleares e que em vez de informação correta sobre as casas encontraram um caos de dados tão grande que viram ali uma falha no mercado, ou seja, uma oportunidade de negócio. Porque “todas as boas ideias nascem para resolver um problema”, conta Mila Suhareva ao Expresso.

Mila, de 39 anos, e Nils Henning, de 41 (e ainda a pequena cadela “Nikki” que os acompanha para todo o lado, mesmo em viagens à Índia), são os fundadores desta empresa — ainda startup — que agrega e analisa, em tempo real, os imóveis que estão à venda nos sites de compra e venda de casas dos seus clientes a quem depois disponibiliza essa análise através de um acesso fechado ao seu website.

Ou seja, usando inteligência artificial e análise de dados (data science), a Casafari consegue saber quantas casas estão à venda nesses sites e depois analisá-las uma a uma para perceber se todos os dados estão introduzidos corretamente. Por exemplo, explica Mila, conseguem perceber se a palavra “quinta” se refere a um tipo de propriedade ou se é “Quinta da Marinha” ou “Quinta do Lago”; conseguem detetar se há anúncios que tenham o preço, a localização ou a área (m2) escrita de forma errada ou ainda se há imóveis em duplicado à venda nos sites ou se e quando houve alteração do preço pedido num dos sites.

Essa análise é depois trabalhada, também de forma automática, e disponibilizada às empresas, neste caso, mediadoras imobiliárias como a Century 21, Sotheby’s, Remax Prestige ou a Porta da Frente, para que possam corrigir o que está mal. E há muitas mais incorreções do que se possa imaginar.

“Nós não corrigimos nada, mas queremos, com a nossa tecnologia, ajudar as empresas a limpar o mercado e a torná-lo mais transparente”, diz Mila. É por isso que Nils diz que a Casafari não é um site de classificados, mas sim um motor de busca para profissionais, como se fosse uma junção entre o Google, o Google Pictures e o Skyscanner. “O que queremos é fazer um Google para o mercado imobiliário”, conta ao Expresso. E estão a fazê-lo a partir de Lisboa.

De Lisboa para o mundo

Nils, formado em Direito e Gestão, e Mila, formada em Finanças e Matemática e especializada em programação, conheceram-se há 14 anos quando estavam na equipa que fundou uma startup de jogos de vídeo chamada Big Point. Também esta empresa começou com cinco pessoas numa garagem e cresceu tanto que foi comprada pela NBC e agora faz os jogos de vídeo de filmes como a “Idade do Gelo” ou de séries como a “Battlestar Galactica”.

Juntos fundaram outras startups que foram compradas por empresas maiores, investiram noutras como business angels e pelo meio apaixonaram-se e tornaram-se um casal. Em 2016 decidiram tirar uma licença sabática para desenvolver ideias para novas startups. “Somos viciados em ver algo ter sucesso e a nossa cabeça não para, estamos sempre a pensar em novas ideias”, conta Nils.

Estiveram seis meses na Índia e depois foram parar às Baleares, em Espanha, “porque é onde os alemães passam férias e têm segundas casas”, brinca Nils. Só que, quando estavam à procura de casa perceberam que a informação que havia era “horrível” e que os mediadores faziam pesquisas que também eles podiam fazer sozinhos.

Estava encontrada a falha no mercado e a oportunidade para criar um negócio e nasceu a Casafari, nome que junta as palavras “casa” e “safari”. O primeiro cliente surgiu nas Baleares (foi a mediadora alemã Engel & Volkers) e daí decidiram rumar a Barcelona no final de 2016 para ali fazer a base da empresa. Nessa altura já tinham mais uma pessoa a colaborar com eles, “mas entretanto ela apaixonou-se por um rapaz espanhol e foram viver para Valência”, conta Mila. Ou seja, eram apenas os dois a tentar angariar pessoas para trabalhar com eles. Só que Barcelona estava em plena luta pela independência e de relações cortadas com Madrid. “Começámos então a pensar onde poderíamos abrir esse espaço e lembrámo-nos de Lisboa. Já cá tínhamos estado de férias e percebemos que havia muitas empresas de tecnologia e muito apoio às startups. Marcámos então duas reuniões, mas ao fim do primeiro dia passaram a ser dez. Ao segundo dia já tínhamos pré-arrendado um espaço para instalar a base da Casafari no Lx Factory a partir de janeiro de 2018”, conta Mila. “Ficámos impressionados com a rede de contactos que havia e como tudo foi tão rápido”, acrescenta. “E Lisboa tem uma vantagem, todos falam inglês, e isso não acontece em Espanha. A língua não devia ser uma barreira para contratar pessoas”, desabafa Nils.

Engenheiros precisam-se

Quando se mudaram para Lisboa a ideia não era arranjar clientes, mas sim fazer aqui a base do negócio e angariar talentos que permitissem a empresa crescer. Mas com o interesse de Portugal para startups e com o imobiliário ao rubro, conseguiram o talento e os clientes. “E sem gastarmos um euro em marketing”, diz Nils.

Assim, em menos de oito meses, já contam com uma série de clientes e tiveram de arrendar mais um espaço no Lx Factory porque, nesse período de tempo, passaram de dois funcionários (eles próprios) para 20 — 15 de várias nacionalidades e cinco portugueses — e até ao final do ano vão ser 30 ou 40, diz Nils. Ou seja, neste momento estão a contratar engenheiros que saibam de ciência de dados e de inteligência artificial. E tudo isto apenas com recurso a capitais próprios conseguidos com os rendimentos que retiram das cinco mil agências/clientes que têm em Portugal e Espanha (Lisboa e Barcelona) onde analisam já mais de seis milhões de anúncios de casas.