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“Temer os robôs não é, nem deve ser, a questão”

Joaquim Oliveira Martins, conselheiro da OCDE, defende uma política de gestão regional assente na descentralização assimétrica para minimizar os impactos da automação no emprego

nuno botelho

Joaquim Oliveira Martins Conselheiro e diretor-adjunto do Centro de Empreendedorismo, PME, Regiões e Cidades, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)

Catia Mateus

Catia Mateus

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Centrar o debate sobre os efeitos da automação no número de empregos que a tecnologia pode eliminar é ter uma visão redutora da questão. A reflexão não pode deixar de fora a qualidade dos novos empregos que estão a ser criados e o papel da gestão regional e do desenvolvimento local na capacitação dos trabalhadores e das comunidades para os novos contextos do mercado de trabalho. O argumento é do diretor-adjunto do Centro de Empreendedorismo, PME, Cidades e Regiões da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Joaquim Oliveira Martins, que o Expresso entrevistou em exclusivo à margem do Fórum de Desenvolvimento Local, que a Organização promoveu, esta semana, no Porto, onde divulgou o seu último estudo sobre os impactos da automação na criação de emprego e no desenvolvimento local.

Este estudo, no qual colaborou, aponta para a instalação nas empresas de 1,4 milhões de novos robôs, a nível mundial, já no próximo ano. De que impactos estamos a falar quando falamos de automação, além da possível eliminação de postos de trabalho?
A tecnologia é sempre um imperativo de produtividade e isto existe em todos os países da OCDE. Na generalidade dos países, a taxa de crescimento da produtividade do trabalho está muito baixa. Há 20/30 anos, era de 2% ao ano, agora está abaixo de 1% e em alguns países ronda os 0,5%. Pensava-se que a crise iria acelerar a produtividade — porque tem normalmente o efeito de deslocar o investimento de sectores pouco produtivos para outros mais produtivos. Mas esta crise não tem tido esse efeito. E isto é um enorme problema em todos os países. Por outro lado, este impacto que a automação está a gerar na eliminação de postos de trabalho e na reconfiguração do mercado laboral vem acompanhado de outro problema: a polarização de competências dos profissionais.

Mas no caso português tem-se tentado promover a crescente qualificação dos recursos humanos...
Sim, e essa opção mudará radicalmente o país dentro de 15 a 20 anos. Mas o desafio atual é que temos um mercado de trabalho caracterizado por uma população ativa de pessoas com baixas, médias e elevadas competências. E o que se observa em quase todos os países da OCDE é que há cada vez mais procura para as altas e baixas competências, e cada vez menos procura para as médias competências. Este fenómeno da polarização associado ao impacto da tecnologia no emprego pode tornar a transição para o novo cenário do mercado de trabalho muito preocupante. Tanto mais que as políticas que têm sido definidas estão orientadas para trazer pessoas das baixas para as médias competências, quando são essas que estão a ter mais problemas de empregabilidade.

Como se corrigem os riscos dessa polarização de competências?
A questão da gestão territorial e do desenvolvimento local é particularmente relevante nessa matéria. Esta polarização é um fenómeno muito urbano, é nas cidades onde é mais visível. Nas regiões intermédias, onde ainda há sectores industriais ativos, este fenómeno é menos recorrente. Isto traduz-se também num impacto diferenciado dos efeitos da automação nas diferentes regiões.

Essa é uma das conclusões do estudo que sugere que a automação pode ampliar os níveis de desemprego nas localidades onde ele já é mais elevado.
É por isso que este relatório defende a adoção de uma política territorial que tome em conta as características diferenciadas de cada região. Os impactos decorrentes da automação no emprego e na produtividade serão muito diferentes nas grandes cidades, nas regiões intermédias e nas zonas rurais remotas, que em Portugal são um problema.

Como é que se operacionaliza essa estratégia?
Quando falamos de impactos da automação no emprego, geralmente, a questão centra-se nos receios da eliminação ou não de postos de trabalho e se temos ou não razões para temer os robôs. Ora, temer os robôs não é, nem deve ser, a questão. O foco dos profissionais a nível individual deve ser procurar uma apropriação da tecnologia, uma complementaridade entre homens e máquinas que permita aos profissionais utilizar a tecnologia para aumentar o seu potencial e a sua produtividade. É por esta via que se pode gerir a transição para o novo contexto do mercado laboral. No campo da produtividade, que é determinante para o bem-estar e nível económico dos países, a gestão é mais complexa. Quando se fala de produtividade, fala-se sempre de uma estratégia macro ou sectorial, procurando compreender quais os sectores que serão motores da produtividade. Olhando para a questão de forma mais territorial ou regional, percebemos que há dois tipos de países na Europa: os extremamente concentrados, onde o crescimento da produtividade é todo feito numa só região (França, Reino Unido, Suécia, Hungria)m e os que são mais distribuídos no crescimento da sua produtividade (Alemanha, Áustria, Espanha e até um bocadinho Portugal). O pouco crescimento da produtividade em Portugal não foi gerado em Lisboa, mas sim na região Norte e até no Centro, com um custo muito elevado em termos de ajuste de mão de obra.

Quantos postos de trabalho se eliminaram?
O ajustamento que houve na região Norte entre produtividade e emprego foi absolutamente brutal. Perderam-se mais de 200 mil postos de trabalho entre o ano 2000 e os anos após a crise. O sector não-transacionável reduziu a criação de emprego, que estava numa trajetória pouco sustentável, mas gerou um bocadinho de produtividade.

A tecnologia pode agravar as desigualdades regionais?
Pode agravar, mas também pode gerar inúmeras oportunidades. O estudo mostra-nos que há o risco de regiões que estão mais longe das cidades, e que têm problemas de especialização e produtividade, poderem vir a ter ainda mais problemas, porque o que têm em termos de emprego está ainda mais exposto à automação. Para este tipo de regiões tem de existir uma estratégia específica de intervenção. Pode haver um empurrão fiscal, criando-se vantagens para as regiões do interior, mas a estratégia tem de ir além disso.

Esse empurrão é sustentável a médio/longo prazo?
É uma forma de abordar a questão. Mas não, não creio que seja sustentável. O que é sustentável é criar uma estratégia de desenvolvimento local e governança, que contemple as diferenças e especificidades de cada região. É isso que defende a ideia de “especialização inteligente” que a Comissão Europeia tem andado a desenvolver. É fundamental que sejam os organismos locais, conhecedores dos seus problemas, realidades e desafios, a apoderarem-se da estratégia de desenvolvimento local, em articulação com os Governos, para melhor abordarem a gestão dos impactos tecnológicos nas empresas e no emprego. É muito difícil para um Governo central que tem todas estas regiões rurais, cada uma com um problema diferente, conseguir desenhar uma estratégia local. É ai que entra a descentralização. Mas não uma descentralização qualquer. O modelo que, tendencialmente, mais se defende é o de uma descentralização assimétrica. Ou seja, as competências devem ser transferidas para os municípios em função das suas necessidades/capacidades, porque as regiões não têm todas os mesmos problemas. Isto é difícil. Privilegiar uma região em relação a outra, dando-lhe maior ou menor autonomia, é complexo. Mas ou se faz ou não se faz.

Parece-lhe mais importante abordar a questão da automação na perspetiva dos empregos que pode retirar aos humanos ou da qualidade dos empregos que tem eliminado e dos que está a ajudar a criar?
Da natureza e qualidade dos empregos que cria. Até porque, a par com a automação, em muitos países da OCDE (e muito por força dos avanços tecnológicos), estamos a criar muito emprego com vínculos pouco convencionais e com enquadramentos de proteção estatutária fracos. E isso é preocupante.

perfil

Mestre em Econometria e doutorado em Economia, Joaquim Oliveira Martins é professor associado da Universidade de Paris-Dauphine e membro da Academia de Ciências Sociais, no Reino Unido. Integra os quadros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) desde 1991, somando no seu percurso várias posições de liderança na organização. É atualmente diretor-adjunto do Centro de Empreendedorismo, PME, Regiões e Cidades, trabalhando em articulação direta com o diretor para desenvolver o trabalho da OCDE no campo das Pequenas e Médias Empresas e políticas de empreendedorismo, bem como o desenvolvimento local das cidades e regiões. Coordena também o trabalho do Trento Centre for Local Development da OCDE. No passado, o economista português liderou a divisão de Políticas de Desenvolvimento Regional e Governança Pública da organização. É autor de inúmeros trabalhos académicos e estudos da OCDE nas áreas da produtividade das regiões, emprego, investimento na educação, gestão do envelhecimento ativo das populações, competitividade, desenvolvimento territorial e empreendedorismo.