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Zanga de comadres em Angola atinge Ricardo Salgado

Foto Luís Barra

Álvaro Sobrinho quebrou esta semana cinco anos de silêncio sobre a falência do BES Angola. Os acionistas já qualificaram as suas afirmações de “falsas e caluniosas”

Gustavo Costa em Luanda

Depois de cinco anos de silêncio, Álvaro Sobrinho, antigo Presidente da Comissão Executiva do Banco Espírito Santo Angola – BESA – quebrou o silêncio na "Grande Entrevista" da Televisão Pública de Angola (TPA), e fez deflagrar esta semana em Luanda uma verdadeira “bomba” cujos estilhaços atingiram em cheio Ricardo Salgado e um grupo de acionistas angolanos próximos do ex-Presidente Eduardo dos Santos.

O ex-banqueiro português é acusado de ter “mentido” e de ter evidenciado durante uma assembleia geral do BESA uma “hostilidade brutal” contra Álvaro Sobrinho através de “ataques pessoais” que mereciam “uma queixa-crime”.

Já os acionistas angolanos são apontados como estando por detrás da “decisão política” que culminou com o seu afastamento da liderança da instituição e com a declaração de falência do banco.

Particularmente gravosa foi acusação de perseguição atribuída ao general Leopoldino Nascimento e a alegada “chantagem” imposta pelo antigo Secretário Geral do MPLA e Presidente do Conselho de Administração do BESA, Paulo Kassoma para que “aceitasse assumir a responsabilidade” pela elevada carteira de crédito mal parado sob pena de sofrer “retaliações” que poderiam culminar na sua “prisão”.

A “zanga de comadres” não tardou e, em resposta, os acionistas vieram a público qualificar de “falsas e caluniosas” as declarações de Álvaro Sobrinho ao mesmo tempo que refutam a alegada falta de solidariedade da parte angolana “face ao recurso excessivo ao redesconto e às dificuldades no mercado interbancário”.

Esta situação, recorda o comunicado dos acionistas, esteve na origem de uma reunião de emergência promovida pelo governo presidida pelo então Ministro de Estado e chefe da Casa Civil, Carlos Feijó.

Negando desconhecer as razões que terão levado o ex-Presidente Eduardo dos Santos a anular a garantia soberana que havia mandado emitir a favor do Banco Espírito Santo, Álvaro Sobrinho confirmou que a lista dos beneficiários de empréstimos milionários concedidos pelo BESA incluía muitas figuras políticas do regime normalmente encaminhadas pelos acionistas que está agora em pé de guerra.

Apontado como acionista do BESA, Manuel Vicente em declarações ao Expresso nega também qualquer participação na sua estrutura societária. “Tive apenas uma reunião com o antigo Presidente do BES que na altura era o maior acionista do BESA, na qualidade de Ministro da Coordenação Económica durante a qual manifestei as preocupações do governo relativas à situação do Banco” – esclareceu o antigo vice-presidente de Angola.

O governador desta instituição, José Massano considera, por sua vez, “absolutamente transparente todo este processo” que, para os acionistas angolanos foi acelerado face “ao risco de descontinuidade da atividade e da existência de perdas elevadas na carteira de créditos e outros ativos não cobertos por provisões” que colocavam “em causa a viabilidade do banco”.

Sobrinho contrapõe os argumentos dos acionistas adiantando que em 2013 deixou o banco com uma carteira de crédito de 6,5 mil milhões de dólares e, que, um ano depois, o seu sucessor, Rui Guerra elevou esse montante para os 9 mil milhões de dólares. “Os nossos créditos não representavam qualquer ameaça e inseriam-se na média de risco da banca angolana” – disse Sobrinho.

Ao ter superado a frente da gestão do BESA a barreira dos 400 milhões de dólares em lucros, afirmando-o então com o maior banco em ativos com 10 mil milhões de dólares e fundos próprios de mil milhões de dólares, a declaração de falência para aquele banqueiro “ só faz sentido se a nível dos acionistas maioritários houve uma concertação” do ponto de vista político ou dos seus interesses.

Tese que é desmentida por estes que, ancorando-se num relatório do Banco de Portugal datado de 2014, dando conta “de práticas de atos de gestão gravemente prejudiciais aos interesses do Banco Espírito Santo” e acusam Sobrinho de “erros de gestão “, de ter retirado do banco dinheiro “ para as suas contas e para contas de familiares e amigos, nomeadamente a Ocean Private, Wayd Capital ou inoHolding.

Com um desfecho para já imprevisível, os acionistas do Banco Economico sucedâneo do BESA, desafiam agora a Procuradoria Geral da República a desencadear um processo de averiguação dos factos que estiveram na origem da intervenção do BNA.

O Procurador Geral da República, Hélder Pita Gróz admite investigar as denúncias públicas feitas por Álvaro Sobrinho mas considerou não só “prematuro” avançar para já com qualquer processo, como revelou não ter recebido, em sentido contrário, até à, data pedido algum de intervenção por parte dos acionistas do antigo BESA.

Revelando ter abandonado a intenção de continuar a investir nas Ilhas Maurícias onde há três semanas foi ouvido durante três dias pela justiça local por alegado caso de corrupção, entretanto já esclarecido, aquele empresário anunciou agora a disposição de apostar no mercado angolano nas áreas da aquacultura, produção de medicamentos genéricos e eventualmente no apoio ao clube desportivo Petro-Atlético.