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Queria ganhar um computador, acabou entre os 50 melhores líderes mundiais de empresas de software

Tiago Paiva lidera a Talkdesk, que tem escritórios em Lisboa, Porto, São Francisco e Salt Lake City

Marcos Borga

Há um português na 24ª posição da lista dos 50 melhores líderes mundiais de empresas de desenvolvimento de software enquanto serviço (SaaS), da publicação “SaaS Report”. É Tiago Paiva, cofundador da Talkdesk. É o único português no ranking e antes já tinha sido referenciado pela revista norte-americana “Forbes”, na sua lista anual “30 under 30”, talentos com menos de 30 anos que se destacam nas mais variadas áreas

O título resume a história. E a história é a do português Tiago Paiva, cofundador da Talkdesk, a empresa de desenvolvimento de software baseado em cloud para centros de contacto que permite criar um contact center em menos de cinco minutos, que acaba de ser eleito, entre cerca de cinco mil nomeados, o 24.º melhor diretor executivo (CEO) mundial de empresas de desenvolvimento de software enquanto serviço (SaaS), pela publicação norte-americana “SaaS Report”.

Mas entre o princípio desta história e o seu estágio atual há todo um percurso de desafios e dificuldades próprias de quem sai da universidade certo de que não tem perfil para trabalhar das 9 às 5, mas muito longe de imaginar que um dia poderia liderar uma empresa que é por vários apontada como um dos potenciais unicórnios nacionais (empresa com uma valorização acima dos mil milhões de dólares – 864 milhões de euros).

A necessidade é que move o negócio

A história de Tiago Paiva e da Talkdesk, que fundou em 2011, em parceria com uma ex-colega do curso de Engenharia de Redes do Instituto Superior Técnico, Cristina Fonseca (que deixou a gestão diária da empresa em 2016), pode ser contada de várias formas. Uma delas é em números. Em sete anos, a empresa passou de dez para perto de 400 funcionários (deverá chegar aos mil dentro de dois anos e está a contratar para Lisboa), abriu escritórios em Lisboa, no Porto, em São Francisco e em Salt Lake City, acumula um portfólio de mais de 1400 clientes em 50 países e facilitou mais de 100 milhões de chamadas através da sua plataforma.

Para Tiago Paiva foi fundamental saber vender o conceito da Talkdesk a clientes e investidores

Para Tiago Paiva foi fundamental saber vender o conceito da Talkdesk a clientes e investidores

MARCOS BORGA

Mas embora os números traduzam a dimensão atual do negócio e ajudem a justificar o lugar de Tiago entre os melhores do mundo na sua área, eles estão longe de conseguir espelhar os desafios que enfrentou até aqui chegar. Para isso, é necessário recuar à essência do empreendedor e ao que serviu de base ao lançamento do projeto: a necessidade, do mercado e dos seus mentores.

Parecerá provavelmente demasiado simplista dizer que a Talkdesk nasceu porque Tiago Paiva queria ganhar um MacBook Air que a Twillio, uma plataforma de comunicações na nuvem com sede em São Francisco (Califórnia) estava a oferecer como prémio para uma competição de ideias inovadoras que utilizasse a mais recente tecnologia da empresa, a Twillio Client. Mas foi na verdade o que aconteceu.

Recém-licenciados e convictos de que não se imaginavam a trabalhar numa empresa com horário rígido e funções repetitivas, Tiago e Cristina desenvolveram o primeiro projeto do que viria a ser a Talkdesk, uma plataforma na nuvem que permitisse criar e tornar operacional um call center de forma rápida e simples, permitindo às empresas garantir um melhor serviço aos seus clientes.

“A Talkdesk foi criada para mostrar às empresas tudo o que precisam de saber sobre um cliente antes de atenderem a chamada, funcionando em integração com outros sistemas e possibilitando uma sincronização total de dados em tempo real”, explicavam os fundadores numa das primeiras entrevistas realizadas pelo Expresso.

Um computador, uma empresa e dez mil dólares de investimento

A dupla venceu a competição, Tiago o computador e ganhou ainda um passaporte para apresentar a Talkdesk na sede da Twillio, em São Francisco, onde conquistou um investimento de dez mil dólares (8640 euros). Sempre que lhe perguntam como um jovem estudante, que até acumulou alguns trabalhos como freelancer, se transformou num CEO reputado que em 2016 entrou na mira da revista “Forbes”, ao integrar a lista anual de 30 talentos com menos de 30 anos que se destacam em várias áreas de especialidade, diz que foi com “trabalho, capacidade para arriscar e crença no projeto”.

Para Tiago Paiva foi fundamental saber vender o conceito da Talkdesk a clientes e investidores. E fê-lo, aparentemente, bem. A startup portuguesa foi, recentemente, uma das 100 empresas europeias destacadas pela revista britânica “Wired” pela solução disruptiva que desenvolve e pelo seu potencial de escalabilidade, e mereceu também uma distinção pela Frost & Sullivan como a empresa que registou um crescimento mais acelerado no mercado de software de centros de contacto.

O estudo destaca a taxa de crescimento anual da empresa como a mais alta no competitivo mercado de fornecedores da América do Norte. Em 2017, as receitas anuais da empresa superavam os 25 milhões de dólares (21,6 milhões de euros).

A distinção agora alcançada coloca o CEO português entre os líderes da indústria SaaS. “É uma honra ter obtido este reconhecimento e estou muito contente por estar entre alguns dos grandes nomes da indústria, como Adam Miller da Cornerstone OnDemand, da Tracy Young da PlanGrid, do Stewart Butterfield do Sclack e do Marc Benioff da Salesforce”, admite Tiago Paiva.

O gestor português foi selecionado entre cinco mil nomeados, com base em avaliações detalhadas dadas pelos colaboradores e colegas da indústria, onde constavam critérios como a integridade do líder, inteligência, energia, cultura empresarial, crescimento da empresa e outras.

Além do reconhecimento que o CEO tem merecido a nível internacional, a Talkdesk é também apontada como um dos potenciais unicórnios nacionais, depois da Farfetch e da Outsystems e a par com a Feedzai, a Veniam e a Uniplaces. O relatório ScaleUp Portugal, da Building Global Innovators em conjunto com a EIT Digital, referencia-as como as scaleups (empresas de acelerado crescimento) que mais financiamento atraíram entre 2011 e 2016, recebendo perto de 70% do investimento total em startups portuguesas.