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Portugueses só querem gastar €138 mil a comprar casa

Para elaborar o estudo, foram entrevistadas 
810 pessoas com mais de 18 anos que tenham comprado ou pensem comprar casa nos próximos 12 meses ou que tenham colocado ou pensem colocar o seu imóvel
 à venda. Os contactos foram feitos entre 20 de março e 5 de abril de 2018 


FOTO José Carlos Carvalho

Estudo. O desfasamento entre a oferta e a procura é cada vez mais evidente e a maioria das pessoas já abdica de muitas das características que procura num imóvel

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Encontrar a casa de sonho ou a casa ideal está a tornar-se uma missão cada vez mais complicada em Portugal e a dificuldade começa logo no preço. De acordo com um estudo da Sigma Dos, encomendado pela Century 21, os portugueses só querem gastar, em média, €138.623 a comprar uma casa, mas os preços do que há à venda neste momento rondam, também em média, os €173.252, ou seja, mais €34.629.

Pior que isso é que quem pensa comprar casa nos próximos meses quer gastar ainda menos: €131.699. Aliás, quase 40% dos 810 inquiridos para elaborar este estudo só querem gastar até €100 mil, mas só 26,1% das casas que estão no mercado é que têm preços dentro desse intervalo. Neste momento, a maior parte da oferta — 30,1% — é de casas entre os €200 mil e os €700 mil, mas só 13,4% dos inquiridos quer gastar esses valores.

Não é, por isso, de admirar que 35,3% dos inquiridos admitam recorrer ao crédito para comprar uma casa. Mas mesmo neste caso, têm restrições, estando apenas disponíveis para pagar até €500 por mês pela hipoteca. A boa notícia, adianta ao Expresso o diretor-geral da Century 21 em Portugal, Ricardo Sousa, é que “as prestações praticadas estão ajustadas a esta realidade” e que os portugueses ainda não se começaram a endividar. “Estamos muito longe dos montantes de empréstimos concedidos a particulares para crédito à habitação praticados até 2007. Na rede Century 21 Portugal, apenas 60% das transações são financiadas com crédito à habitação e, em média, por 70% do valor do imóvel”, adianta.

Com os preços tão desfasados daquilo que se procura, arrendar podia ser uma alternativa considerada pelos inquiridos, mas não é. De acordo com o estudo, quase 90% da amostra diz preferir comprar em vez de arrendar. Até porque a maior parte das casas que estão agora no mercado têm rendas acima dos €500. Aliás, o estudo diz mesmo que existe “um excesso de casas com valores de arrendamento entre os €801 e os €900”. Preços que só são considerados por 3% da amostra.

4 em 10 não encontra o que quer

O desfasamento entre a oferta e a procura não se dá apenas no preço. Muito pelo contrário. De acordo com o mesmo estudo, o mercado atual revela uma escassez de quase tudo o que os portugueses querem numa casa (ver tabela ao lado), de tal forma que quatro em cada 10 não encontra o que quer.

Por exemplo, quanto à localização, faltam habitações no centro das cidades — que é a zona mais procurada (ver tabela ao lado) e sobram nos subúrbios. Faltam ainda imóveis com áreas entre 91 e 120 m2 (há muitas entre 76 e 90 m2 e entre 150 e 200 m2); e também casas com um e três quartos, com duas casas de banho e com arrecadação e garagem. Em contrapartida, grande parte do que há no mercado tem varandas, mesmo que os inquiridos não valorizem muito essa característica.

Onde a oferta e a procura mais se encontram é no tipo de casa e nos serviços e equipamentos situados nas proximidades, como supermercados, jardins ou estacionamento. O estudo mostra que mais de 60% dos inquiridos querem apartamentos em segunda mão, mas sem necessidade de fazer obras e, de facto, o que mais existe no mercado são casas usadas prontas a habitar. Há, contudo, uma pequena fatia que procura uma casa nova, mas elas só representam 3,1% da oferta.

“Conseguir imóveis ajustados à procura atual tem sido cada vez mais difícil e a oferta disponível em venda tem diminuído nos últimos nove meses. É também um desafio ajustar as expectativas dos proprietários de casas usadas para o valor real dos seus imóveis”, diz Ricardo Sousa. Inevitavelmente, tanto o comprador como o vendedor “têm sido obrigados a abdicar de algumas características que pretende”.

Obrigados a ceder

Segundo o responsável da Century 21, do lado do comprador, há aspetos dos quais não abrem mão: como os espaços para arrumação, arrecadações, o número de quartos e de casas de banho. Por oposição, “a piscina é o aspeto mais dispensável (38,4%), segue-se o tamanho da habitação (26,9%), e depois o desejo de ter uma casa sem necessidade de remodelações. Por último, 23,2% dos consumidores diz que poderia abdicar da zona pretendida”. Aliás, isso já se nota, porque está a crescer a procura — e as transações — nos subúrbios, onde os preços, apesar de estarem a subir, ainda são muito mais baixos que no centro.

“Já do lado de quem vende, a flexibilidade centra-se sobretudo no preço. 46,6% daqueles que pensam vender nos próximos meses planeiam baixar o preço até 5% e praticamente a totalidade das descidas de valor previstas situa-se, no máximo, em 10% do preço. Apenas 1,8% pondera baixar o valor mais de 10%”, nota Ricardo Sousa.

É por isso que o diretor da Century 21 considera que “este estudo disponibiliza um conjunto de dados úteis sobre o mercado habitacional, para que os operadores privados possam identificar as necessidades reais dos portugueses”.