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Como o colapso de um banco mudou as nossas vidas

Chris Hondros

Dez anos depois, os estragos provocados pelo estouro do Lehman Brothers ainda se fazem sentir. O mundo mudou bastante desde aquele fatídico dia 15 de setembro de 2008. Há taxas de juro negativas por toda a parte, os reguladores estão mais atentos, muitos bancos morreram ou foram resgatados e a zona euro já não é o que era. Para assinalar a data, o Expresso publicou uma série de trabalhos semanais ao longo dos últimos dois meses que agora disponibiliza

A crise financeira nasceu na primeira metade do ano 2007 quando surgiram os primeiros problemas em fundos de investimento americanos relacionados com o crédito hipotecário de alto risco - o maldito subprime. Mas o dia que ficará para sempre na memória de todos é 15 de setembro de 2008, o dia do colapso do banco de investimento Lehman Brothers que levou a crise para outro patamar. A economia mundial viveu a primeira recessão em mais de duas décadas, os governos e os bancos centrais avançaram com doses maciças de medidas para tentar evitar uma nova Grande Depressão e a banca viveu meses de verdadeiro pânico.

Faz hoje precisamente dez anos que o mundo acordou com a notícia da falência do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento norte-americano que valia mais do que a riqueza criada anualmente por muitos países, Portugal incluído. Foi o primeiro grande banco a falir numa altura em que já tinha havido diversas intervenções públicas nos EUA para salvar instituições em dificuldades. Mesmo assim, só ao longo dos meses seguintes se percebeu toda a dimensão daquela data histórica.

A falência do Lehman foi muito mais do que o fim de uma instituição centenária encharcada de ativos mal avaliados. Foi o rastilho que acabou pode conduzir à propagação de uma crise de desconfiança à escala global, levando os mercados a retraírem-se e os bancos a deixarem de emprestar entre si. Um pouco por toda a Europa e nos Estados Unidos, os governos abriram cordões à bolsa financiando resgates ou emitindo garantias para garantir o balão de oxigénio às instituições financeiras. Mas, dois anos depois do Lehman, foi a vez dos próprios Estados serem postos em cheque, com a Grécia a transformar-se no rastilho europeu da crise de dívidas soberanas.

A história que se segue é conhecida e ainda hoje em dia é contada através das cicatrizes que provocou em milhões de cidadãos um pouco por toda a Europa e os Estados Unidos.

A importância do banco na violenta crise que se abateu sobre Portugal e a Europa nos últimos anos levou o Expresso a assinalar a data da sua falência com uma série de trabalhos, publicados a partir da edição de 21 de julho, onde tentámos perceber o que mudou na economia e na finança dez anos depois, e em que medida as lições da crise foram assimiladas.

Começámos por olhar para a evolução dos juros da dívida pública, como isso se reflete no nosso dia-a-dia, no que pagamentos pelos empréstimos e como a hipersensibilidade dos investidores ainda não foi ultrapassada. Basta ver como qualquer perturbação em Itália ou noutro país da zona euro, faz tremer as yields por toda a Europa. Com Portugal na linha da frente.

Mas analisámos também as mazelas que ainda afetam o crescimento de muitas economias e de como o cenário de estagnação é, em alguns casos, uma possibilidade real. E fomos também tentar saber se a banca está melhor do que há dez anos e, pelo caminho, ouvimos o testemunho de cinco dos principais banqueiros portugueses.

Depois de termos visto milhares de investidores a ficar sem o dinheiro que aplicaram em produtos financeiros, tentámos também responder à pergunta sobre se os pequenos aforradores estão hoje mais protegidos de vendas agressivas e abusivas. "Está lá? Daqui é o seu gestor de conta e esta conversa está a ser gravada”. Já ouviu esta frase? É hoje uma realidade repetida muitas vezes.

O sistema fiscal é um tema incontornável, dado o papel que os offshores desempenham na ocultação de património e como facilitaram os bancos a mascarar a sua débil situação financeira. E, por isso, fomos analisar a revolução silenciosa que está a operar na abolição do sigilo bancário à escala mundial.

A carência de capital trouxe também consigo uma deslocação do poder político-económico, com a China a aspirar chegar ao primeiro lugar no tabuleiro económico.

Por fim, os riscos que pairam sobre a economia mundial e os riscos de emergência de novas crises são analisados numa entrevista ao economista norte-americano Kenneth Rogoff. E há também entrevistas com Alberto Alesina, da universidade de Harvard nos EUA, Nuno Valério do ISEG em Lisboa e do Nobel de 2017, Richard Thaler.

  • Para o mundo, a crise financeira internacional teve o seu auge no final do verão de 2008. Mais concretamente, no dia 15 de setembro, quando estourou o Lehman Brothers. Mas, para a zona euro, o pior chegou mais de um ano depois e, tal como a filosofia clássica, nasceu na Grécia. (Artigo publicado a 21 julho de 2018)

  • Dez anos depois da crise financeira, a banca europeia está melhor ou continua a representar um risco para a economia? (Artigo publicado a 4 agosto de 2018)

  • 10 anos depois da crise: as lições dos banqueiros portugueses

    A dobrar os 10 anos sobre uma das mais violentas crises financeiras da nossa história, fomos perguntar aos principais banqueiros o que aprenderam e o que os surpreendeu durante este período. Da falta de ética profissional, passando pelos egoísmos e a ligeireza na gestão, veja as respostas ao Expresso de Paulo Macedo, Miguel Maya, António Vieira Monteiro, António Ramalho e Licínio Pina

  • Nos últimos anos, milhares de clientes bancários viram as suas aplicações evaporar-se, ou porque se deixaram seduzir por rendibilidades de produtos complexos ou porque foram enganados. Dez anos depois há uma enxurrada de regras para prevenir que as más práticas se repitam, mas o seu verdadeiro alcance ainda está por testar. (Artigo publicado a 11 agosto de 2018)

  • Há dez anos, os líderes mundiais prometeram um combate sem fim às offshores. Uma década depois, elas continuam aí, mas parte da alma do seu negócio — o secretismo — começa a esboroar-se com a grande alteração de pradigma que se assistiu nos últimos tempos. Por exemplo, o Fisco vai passar a saber quanto os portugueses têm na Suíça, em Hong Kong e em muitas outras praças financeiras mundiais, coisa impensável há uns anos. (Artigo publicado a 25 agosto de 2018)

  • Depois do colapso global de setembro de 2008, a China foi o país que mais reforçou a sua posição na economia e na finança mundiais. Os EUA aguentaram-se e passaram ao contra-ataque. A zona euro vai cair para terceiro lugar. (Artigo publicado a 8 setembro de 2018)

  • Tem um recorde no xadrez inscrito no “Guinness” quando tinha 16 anos e foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional entre 2001 e 2003. Nesta entrevista ao Expresso, realizada por correio eletrónico, Kenneth Rogoff, Professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade de Harvard, em Boston, nos EUA, avisa que Portugal continua em risco, apesar do ciclo virtuoso que está a viver, e não descarta a possibilidade de saídas do euro. (Artigo publicado a 28 julho de 2018)

  • As fragilidades estruturais que o país tem na balança externa e com o endividamento excessivo desde meados do século XIX foram “maquilhadas” pela adesão ao euro e, quando sofremos um choque externo tão grande como o da crise iniciada há dez anos, Portugal acabou por ser mais um dos elos fracos na Europa. O olhar é de Nuno Valério, professor de História Económica no Instituto Superior de Economia e Gestão em Lisboa, e um especialista em história económica portuguesa. (Artigo publicado a 18 agosto de 2018)