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Estes bichos são especiais

Rui Duarte Silva

Nascem em ouro, prata, pedras preciosas, mas são capazes de se movimentar e ajudaram a revolucionar a ourivesaria portuguesa. Nixon e Jacqueline Onassis não resistiram às criações de Luís Ferreira. A rainha de Inglaterra também não

Tudo começou num cisne de prata articulado, pronto a abrir as asas e a descer o pescoço de forma elegante. Depois vieram os outros bichos da terra, do mar e do ar. Nasceram veados, cavalos, touros, elefantes, girafas, esquilos, coelhos, rinocerontes, lagostas, peixes, avestruzes, galos, pássaros vários. Foram às centenas, criados à mão, com ouro, prata e outros materiais, dos ovos de avestruz às pedras preciosas, corais ou marfim para encherem uma verdadeira Arca de Noé da ourivesaria portuguesa. “O meu pai fez quase todas as espécies da natureza”, garante David Ferreira quando fala da obra do ourives portuense Luiz Ferreira, criador da coleção Bichos que rapidamente se espalhou pelo mundo.

O antigo Presidente norte-americano Richard Nixon comprou uma avestruz, a antiga primeira-dama dos EUA Jacqueline Kennedy Onassis quis uma rã, a princesa Margarida, de Inglaterra, entusiasmou-se com um cisne e levou-o mesmo antes da obra estar acabada, o duque de Windsor escolheu duas quimeras (figura da mitologia grega com aparência híbrida, de dois ou mais animais), a duquesa de Alba fez a sua própria coleção de bichos, com um cavalo de Troia incluído.

rui duarte silva

“Quando Isabel II, de Inglaterra, visitou Portugal, em 1985, recebeu uma salva de prata com uma cabeça de cavalo em marfim. Gostou tanto que quis saber quem era o autor e lá fomos a Lisboa conhecer a rainha”, recorda David, que hoje dá continuidade ao negócio da família ao lado da irmã Rosário, tendo como base a loja fundada por Luiz Ferreira na Rua Trindade Coelho, em 1970.

ADN de ourives

Filho e neto de ourives, Luiz Ferreira nasceu ali perto, na rua das Flores, em 1909. Esta era a rua que reunia mais ourivesarias na cidade e a família também começou por ter aqui a sua loja. Luiz, que andou por Inglaterra a aprender a língua e voltou pronto a revolucionar a ourivesaria clássica, já com sentido de marketing, preocupado em usar a montra como palco das suas peças, optou por abrir uma loja com a marca própria LF, na década de 70.

Tornou-se conhecido pelos bichos, que entraram pela porta principal em lojas de marcas de luxo como a Dior, Cartier, Chanel ou Tiffany´s & Co e acabaram por ser copiados um pouco por todo o lado. Mas fez muito mais, das fruteiras aos castiçais, candelabros e joalharia. “Olhava para um monte de 300 pedras, pegava numa e dizia que era o corpo de uma rã. Eu perguntava-me como é que ele decidia. Hoje, acho que as pedras é que falavam com ele. E sei que ele era um génio”, comenta David que cresceu a ver clientes portugueses e estrangeiros entrarem na loja, fez a sua própria coleção de bichos e deu continuidade à arte do pai, replicando clássicos e juntando novas espécies animais esculpidas em ouro, prata e pedras preciosas, quase sempre articuladas, prontas a mostrarem movimento e flexibilidade.

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Uma ourivesaria no Estoril ajudou a apresentar as suas peças ao mundo. Os clientes apareciam muito pelo “passa a palavra”, conta o filho. Enquanto junta rapidamente quatro bichos, admite que esse minizoo “vale uns 50 mil euros” e recorda que no seu portfólio a casa junta nomes como Juan Carlos, rei de Espanha entre 1995 e 2014, a fadista Amália Rodrigues, a pintora Vieira da Silva ou o cirurgião plástico brasileiro Ivo Pintanguy. No Vaticano, há um nicho do Santo António em prata da LF, oferta do governo ao papa Francisco quando este visitou Portugal.

A nova geração

No caso dos animais, os preços variam entre os 900 euros do caracol com uma concha às costas e os 50 mil euros de uma avestruz de 60 centímetros de altura e corpo em lapis lazuli, a pedra preferida de Luiz Ferreira. Um touro ronda os nove mil euros. Um pequeno veado custa 3500 euros. E o cavalo de Troia igual ao da duquesa de Alba? “Não está à venda”, responde simplesmente enquanto aponta para um letreiro onde se lê: “Peças antigas em prata não se destinam a venda”.

rui duarte silva

Aqui, o segredo parece ser a alma do negócio no que respeita ao números, mas David Ferreira vai dizendo que a loja aberta num hotel do Porto, entre a Boavista e a Foz, há 27 anos, “é um ponto de vendas melhor do que este espaço comercial no centro histórico do Porto”.

“Vinte cinco por cento do negócio será feito com hóspedes, mas a fatia principal vai para clientes de todo o país que se deslocam até lá. Preferem o hotel porque tem estacionamento. Sentem-se mais seguros do que numa loja de rua”, refere apesar da última aposta ter sido a abertura de uma terceira loja aberta no final do ano passado em Lisboa, na rua de S. Bento, na vizinhança de antiquários.

E esta frente comercial atraiu as netas de Luís Ferreira, garantindo a ligação da quinta geração da família ao negócio da ourivesaria. Na loja do Porto está Cristina, que foi casada com o presidente da Câmara Rui Moreira. A loja de Lisboa foi entregue à prima Matilde.

Resistir na Baixa do Porto

No estrangeiro, as vendas são feitas em leilões, em exposições e online. Há sete anos, num leilão em Paris, um veado que teve como base de licitação 20 mil euros foi vendido por 140 mil euros a um decorador francês com reputação internacional.

David Ferreira vai dizendo que a loja aberta num hotel do Porto, entre a Boavista e a Foz, há 27 anos, “é um ponto de vendas melhor do que espaço comercial no centro histórico do Porto”

David Ferreira vai dizendo que a loja aberta num hotel do Porto, entre a Boavista e a Foz, há 27 anos, “é um ponto de vendas melhor do que espaço comercial no centro histórico do Porto”

rui duarte silva

Na verdade, entre os clientes atuais da casa, há muitos decoradores, colecionadores e antiquários. O Brasil é o maior mercado no exterior, mas é no Gabão que a LF tem o seu maior colecionador de bichos na atualidade.

O boom do turismo trouxe novos clientes. “Param a ver a montra. Às vezes entram, vêm que temos peças para todas as bolsas e compram, mas não é isso que alimenta o negócio. Os grandes clientes não passam aqui por acaso. Vêm cá”, salienta o filho de Luís Ferreira, à frente de uma das últimas ourivesarias nesta zona da cidade. Já teve concorrentes em quase todas as portas vizinhas. Foi vendo essas lojas fecharem uma a uma, devido à mudança geracional, à crise, à pressão imobiliária.

“Esta zona estava morta há 20 anos. Ficamos por teimosia. Já tivemos grandes propostas imobiliárias, mas resistimos”, afirma antes de mostrar a trave de madeira que enquadra o fogão de sala, assinada por todos os convidados da festa de inauguração da loja, em 1970, o que significa que tem ali nomes das artes, da indústria, da banca, família Espírito Santo incluída.

Ganhar vida na oficina

Hoje, tem em carteira encomendas para garantir dois anos de trabalho. “Os pedidos são superiores à capacidade de resposta da ourivesaria”, diz David Ferreira, habituado a trabalhar com três oficinas da cidade para ir dando vida aos bichos e a outras peças da casa.

“É um trabalho demorado”, confirma Gabriela Teixeira, da oficina José Pereira Reis, Sucessoras Lda, no Bonfim, onde Carolina e Ana Reis dão continuidade à arte do seu trisavô numa casa inaugurada em 1925.

No dia em que o Expresso visita esta oficina, os quatro artesãos da casa dedicam-se a 100% a construir dois elefantes em prata, num trabalho minucioso, de equipa. Enquanto um trabalha as orelhas, outro corta soldas para as patas e dois fazem a tromba. Parecem ter todo o tempo do mundo pela frente, mas estão “ numa corrida contra-relógio” porque tudo tem de ficar pronto na semana seguinte, confessa um deles.

Já fizeram quase todos os bichos da natureza. Sabem que a Bíblia diz que Deus criou todo o universo em seis dias e descansou ao sétimo. Mas aqui, na rua António Carneiro, “as oito mãos são humanas e tudo é bem mais demorado”, dizem. O elefante com a sua tromba flexível demora 200 horas a nascer e o cisne articulado de 45cmx52cmx20 exige 300 horas de trabalho.