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Draghi revê crescimento em baixa e levanta a voz contra o protecionismo

Yuri Gripas / Reuters

O Banco Central Europeu cortou uma décima nas previsões de crescimento para este ano e o próximo, por causa de menor procura externa, anunciou o presidente Mario Draghi na conferência de imprensa desta quinta-feira após a reunião de política monetária. O BCE continua a achar que os riscos ao crescimento estão equilibrados na zona euro, mas Draghi alertou para os riscos externos cada vez mais “proeminentes”

Jorge Nascimento Rodrigues

A desaceleração do crescimento da economia da zona euro acentua-se. O Banco Central Europeu (BCE) reviu em baixa em uma décima as previsões para este ano e o próximo, anunciou Mario Draghi, o presidente, na conferência de imprensa desta quinta-feira, após o encerramento da reunião de política monetária do seu Conselho.

Os banqueiros centrais do euro não mexeram nos juros nem no calendário de descontinuação do programa de compra de ativos, vulgo QE (acrónimo de quantitative easing), até final do ano, mas constataram que a economia vai crescer menos do que previam em junho e estão seriamente preocupados com três riscos externos – o crescimento do protecionismo, as vulnerabilidade em alguns mercados emergentes, e a volatilidade fruto do aperto da política monetária – que são, agora, mais “proeminentes”. O protecionismo mereceu mesmo a classificação de ser “a principal fonte de incerteza”.

As previsões dos técnicos do banco central ‘cortaram’ de 2,1% para 2% a taxa em 2018 e de 1,9% para 1,8% a relativa a 2019. Deixaram na mesma a taxa para 2020 que se mantém em 1,7%. A culpa da revisão em uma décima foi de “uma menor contribuição da procura externa”, referiu Draghi. Apesar desse deslizamento, o BCE continua a achar que os riscos para o crescimento estão “amplamente equilibrados” na zona euro.

As previsões para a inflação anual não foram mexidas, mas mostram que a variação dos preços na zona euro vai estabilizar em torno de 1,7% este ano e nos dois próximos anos, ou seja, continuando claramente abaixo da meta de próximo de 2%, o que trava os desejos de alguns para uma descontinuação mais acelerada do conjunto da política monetária “acomodatícia”, incluindo as taxas de juro e o programa de reinvestimento do capital recebido nas amortizações da dívida dos membros do euro comprada através do QE. Segundo Draghi, a inflação sofre duas pressões contraditórias – por um lado, as previsões apontam para uma descida do preço do barril de petróleo, que reduz a inflação; por outro lado, a subida dos salários nominais fará subir a inflação subjacente (ou seja, a inflação se excluirmos as componentes mais voláteis, como a energia).

Palavras provocam estragos, mas BCE olha para as medidas

Mario Draghi sublinhou que o BCE mantém algum sangue frio na análise do protecionismo. O banco central, nas suas previsões e políticas, atém-se às medidas protecionistas realmente implementadas, e não às ameaças, ainda que estas exijam monitorização sobre quanto à extensão futura da escalada, quanto ao impacto na confiança dos investidores se houver “uma guerra comercial prolongada”, e os estragos “nas cadeias de valor internacional”.

Quanto aos mercados emergentes, o presidente do BCE recomendou que não se olhe só para a Argentina e a Turquia, mas que se olhe, também, ainda que por outras razões, para a China. Mas, logo, acrescentou que “por ora, não há impactos significativos na zona euro como um agregado”.

No mundo financeiro, Draghi disse partilhar de algumas preocupações recentes expressas pelo seu antecessor Jean-Claude Trichet, sobre o risco de regressão na regulação “em outras jurisdições” (leia-se nos EUA) e sobre o papel crescente da ‘banca sombra’.

Sobre Itália, o seu país natal, o presidente do BCE repetiu a máxima de que o que importa é olhar para os factos do que o governo efetivamente faça e não para as palavras. “As palavras nos últimos meses mudaram muitas vezes. Aguardamos pela proposta de orçamento [para 2019] e a sua discussão no Parlamento”, disse Draghi, para enfatizar que toma em conta as declarações do primeiro-ministro e dos ministros da Economia e dos Negócios Estrangeiros de que Itália “respeitará as regras”. Não deixou de acrescentar que as “palavras provocam estragos”, como aconteceu aquando da subida dos juros da dívida italiana em agosto. Mas concluiu que essa subida “não gerou impactos” nos restantes membros do euro, o que remete o assunto, por agora, para “um episódio italiano”.

  • O Banco Central Europeu (BCE) decidiu esta quinta-feira não alterar o quadro de política monetária que definiu em junho. Juros vão manter-se nos níveis atuais até ao final do verão do próximo ano e compras de ativos descem para metade a partir de 1 de outubro e poderão terminar no final de 2018

  • Maus ventos dos EUA ameaçam dívida portuguesa, avisa o FMI

    Uma escalada no protecionismo e um endurecimento da política monetária da Reserva Federal norte-americana mais acentuado do que o esperado são riscos externos com alta probabilidade que terão um impacto negativo elevado na gestão da dívida pública portuguesa, segundo a avaliação anual do Fundo Monetário Internacional divulgada esta quarta-feira